12.3.12

O enamoramento e o amor*




Caro Professor, de acordo com o que nos pediu, envio-lhe uma pergunta sobre o amor. O que é mais importante: casar ou namorar? 
(Joana)


As duas coisas, Joana. Sempre que deixam de namorar, as pessoas começam a divorciar-se devagarinho. Isso quer dizer que o namoro não é só uma forma das pessoas se darem a conhecer - que antecede, numa visão mais formal - o casamento. Na verdade, o namoro supõe atenções diárias, trocas de carinhos e gestos de ternura. E muitos momentos em que duas pessoas se compartilham de forma transparente.

Da mesma forma como todos nos divorciamos, em suaves prestações e por mutuo consentimento sempre que «adormecemos» numa relação, todos podemos casar um bocadinho mais, todos os dias. Sempre que namoramos estamos a casar, Joana. Vistos por dentro, nunca estamos casados. No sentido dessa ser uma tarefa fechada e concluída. Vamos casando. Casar será uma união de facto, por dentro. E embora muitas pessoas se considerem casadas, o casamento não é bem um estado civil nem um contrato. É mais! Acredito que seja um estado de espírito. Acho eu. Tem tanto de real como tem de meta em construção. Nunca pensei dizer-lho desta forma, mas a ideia do casamento como um sacramento é magnifica. Quando duas pessoas se abrem por dentro e se comungam, e insistem em fazê-lo (quase) todos os dias, isso é sagrado. É mágico e sereno. Revolucionário e tranquilo. Feitas as contas, não há como namorar e casar não se influenciarem mutuamente. 

Mas a maioria dos casamentos não são, de todo, uniões de facto por dentro. São amizades coloridas (que é uma forma das pessoas - para quem as relações amorosas se tornaram fraternas, simplesmente - falarem da sexualidade que, regra geral, têm em dias marcados, como se ela fosse o imposto de valor acrescentado dum casamento). Os juristas (alguns, somente, desejo eu) foram chamando á sexualidade no casamento «débito conjugal» (configurando-a como uma cláusula atrelada a um qualquer contrato de casamento). Débito, veja bem! Se fosse crédito, eu gostaria. Seria uma maneira de assumirmos que a sexualidade é uma forma de nos despirmos desde a superfície da pele ao fundo da alma, por exemplo (só sendo assim sexualidade e «fazer amor» serão sinónimos). Mas considerá-la débito é transformar a sexualidade num preço certo, dum casamento, já viu? E o que mais me custa é que a maioria das pessoas é assim. É por isso que eu acho que há uma imensa maioria silenciosa de pessoas para quem a sexualidade parece ser, dolorosamente, uma forma de se verem no seu enorme desamparo. E, pior - desculpem-me - de se sentirem ora a prostituirem-se ora a serem violadas no casamento. Sejam mulheres ou sejam homens. Por isso mesmo, eu acho que ao fim de semana (imagine porquê) há uma verdadeira epidemia atípica de: «hoje não, porque me dói a cabeça!... - (que, receio eu, seja uma febre de Sábado á noite que todas as pessoas, quando deixam de namorar, acabam por contrair). «Hoje não, porque me dói a cabeça» é, entre muitas outras, uma forma de se dizer, de forma encriptada, que se sente, profundamente, mal-amado. Sem escolher cor ou credos. Transversal a homens e mulheres. Eu sei que se convencionou supor que as mulheres são íntimas do enamoramento e os homens dum furor orgástico. Pensava eu que as mulheres desejariam sentir-se amadas por dentro e que as lágrimas dos homens não deixariam de ter, igualmente, cloreto de sódio...

É por tudo isto que não acho que seja nem verdadeiro nem justo, para ninguém, transformar um casamento numa amizade colorida. E, muito menos, numa conta poupança-reforma, como tantos são (as offshores e paraísos fiscais já conheceram melhores dias...). E é, também por isso, que a maioria das pessoas vive a sexualidade  como se fosse um imposto de valor acrescentado de uma relação conjugal. O que mais dói não são as dores que a vida nos traz mas a consciência de que são essas dores que nos demonstram que - ao contrário do que supunhamos - não poderemos contar com ninguém que as reconheça e entenda, sobretudo, que as legende e resolva. Na dor, dói muito mais o desamparo que ela coloca a descoberto do que a dor em si. Quando, entre todas as dores, a sexualidade as encabeça, e quando á frente de quem mais parece incompetente para as descodificar está quem mais nos devia amar, só nos podemos sentir, profundamente infelizes. Não é porque se queira... Mas porque não se é capaz de melhor.

Por tudo isto, Joana, se me perguntar se será preferivel amar, casar ou namorar, jogo na tripla. Ou, se preferir, entre o enamoramento e o amor, voto no amoramento. Por outras palavras: ou namoramos, e nos casamos um pouco mais, todos os dias. Ou sempre que deixamos de namorar, nos divorciamos. Não há como namorar sem nos casarmos. Nem como estarmos casados á margem do namoro.


Nunca se Perde uma Paixão
- Eduardo Sá - 

4 comentários:

  1. ohhh que coisa mais fofa de se ler pela manha =)

    Maria

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  2. Lindo. Tal e qual como o Sol. Só tenho pena que tão poucas pessoas o ponham em prática. Beijokinhas!!!

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  3. Como gosto do Eduardo Sá, já to tinha dito?

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  4. :)
    já, já o tinhas dito, Tanita :)
    impossivel não gostar, acho!

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