6.5.18

Project#6 | Mafalda Gomes Ferreira ✩ Menina Traquina e Mulher dos 7 Ofícios


Conheci a Mafalda, por mero acaso, no dia em que não resisti a comprar uma das muitas iguarias que confeciona e comercializa. Nunca esquecerei o deleite que senti ao provar a sua Geleia de Alecrim e foi meio caminho andado para me tornar uma fiel e assídua cliente. Com o andar da carruagem, o tempo tornou-nos amigas. Ficámos visita de casa e hoje, para mim, ela é carinhosamente a Mafarrica. 

Há umas semanas, desafiei-a para ser minha convidada neste projeto que há muito desejava retomar. A pretexto de uma visita às suas bandas, aproveitámos um dos raros dias de amena e quente primavera que tivémos até hoje e fomos a alguns lugares que lhe são especialmente queridos. 

Entre conversas e confidências perfumadas pelo doce aroma das Estevas e a Serra da Arrábida como pano de fundo, Mafalda Gomes Ferreira, é a senhora que se segue.



Sempre que penso em ti, na tua personalidade, há duas coisas em que penso logo: Azeitão e Girafas. 

Conta-me, como é a tua relação com este lugar, com esta serra (Arrábida). De que forma moldaram e moldam a tua personalidade? 

Desde que nasci, os primeiros 2 meses da minha vida foram passados aqui em Azeitão  (onde fui baptizada). Sempre aqui passei férias, durante 22 anos, na quinta da minha Mãe, a Quinta dos Foios que depois por partilhas deixou de ser nossa, e todos os fins de semana vinha cá, almoçar a casa do meu Tio António, que vivia na Quinta de São Simão. 



Esta terra é muito mais a minha terra do que Lisboa. Foi aqui que mais me diverti, foi aqui que fiz corridas por cima de telhados, foi aqui que subi às árvores, que tirei a carta de condução de bicicleta para poder andar na estrada sem apanhar multas. Foi aqui que andávamos de carro sem carta… Foi aqui que passei horas e horas dentro de água na praia, a nadar até à Anicha, a trepar o monte de areia (que já desapareceu) e a vir às cambalhotas por ele abaixo. Foi aqui que saí primeiro à noite, para os bailinhos da Cueca (como se chamavam) e depois para o Seagull. 

Trazíamos sempre imensos amigos de férias connosco, era uma diversão!



O que é que marcou mais a tua infância? 

Ter tido a liberdade de andar sozinha, desde os 5 anos, (ia sozinha para a escola) em que os meus Pais (mais a minha Mãe) me incutiram responsabilidade e me ensinaram o certo e o errado. Apesar de fazermos muitas asneiras, sempre tivemos a noção dos limites, do que era perigoso e não podíamos fazer. 

Andar à solta tanto em Lisboa como aqui em Azeitão, onde á hora que a minha Mãe nos queria em casa tocava um badalo para nos chamar. Quando aquele badalo tocava, os nossos amigos diziam: a vossa Mãe está a chamá-los, vão embora daqui, se não têm o caldo entornado! 

Ter tido uma Mãe fantástica que nos proporcionou o melhor que uma criança pode ter. Que nos deixava fazer asneiras, mas ao mesmo tempo nos obrigava a ser corretos e bem educados e a nunca faltar ao respeito às outras pessoas. Acima de tudo, nunca mentir e assumir as responsabilidades. 



E quem é que marcou mais a tua infância? 

Houve várias pessoas que, por muitos motivos, marcaram a minha infância, mas sobretudo foi um primo meu, que tinha menos um ano e que desde sempre éramos como irmãos. Mais do que irmãos! Depois do 25 Abril, antes de ele ir viver para o Brasil, nós andávamos a planear fugir porque ele não queria ir e eu não queria que ele fosse. Tínhamos a fuga toda montada, mas ficou tudo em águas de bacalhau, porque ele começou a dizer: mas como é que vamos comer? - tínhamos 6, 7 anos - coisa que a mim, nem me passava pela cabeça, aliás assim nem tinha que comer! (o meu maior suplício: a comida e as refeições). 

Por causa desse drama da comida, tinha eu uns 5 anos, o meu irmão 6 o meu primo 4 e a irmã 3, estávamos nos Foios todos de férias, e um dia a empregada deles disse assim: «Hoje o último a acabar de comer não tem um presente». Fiquei tranquila porque o meu irmão ainda era pior do que eu para comer e era sempre o último. Mas naquele dia, em vista de receber um presente, acabou primeiro do que eu. Fui a última. Eles receberam um chupa-chupa e eu recebi uma casca (cabeça) de camarão! Fui para baixo da mesa chorar! (risos)



Eras ( e és) conhecida por Mafarrica, porquê?... Não me digas que com essa cara de santa eras traquinas e fazias muitas tropelias… (rio-me)

Foi a minha Mãe que desde sempre, desde o meu um ano de idade me chamou Mafarrica e toda a família me chamava assim. Só a minha madrinha é que estava sempre a dizer à minha Mãe «não a chames assim, ela não é um diabo!»... Acho que era um diabinho (risos)



E agora sobre as girafas… Na realidade, eu associo-te muito a viagens, porque sei que é uma coisa de que gostas muito e que já viajaste bastante. E sei também que gostas particularmente de alguns destinos onde essas amigas pescoçudas habitam, mas sei que há outra história por trás do teu gosto por girafas, queres partilhar? 

Não tem uma razão específica, talvez por ter tido uma girafa que mordia, em bebé. No liceu chamavam-me girafa e identifico-me com as girafas por terem umas pernas enormes, como eu! 

E talvez por serem habitantes de África, onde assim que tiver umas boas massas, vou! Não sei, mas adoro girafas! Se pudesse metia uma girafa, no jardim lá de casa! (risos)


Fala-me das tuas viagens, por onde é que já andaste, qual foi o país ou lugar que mais gostaste de conhecer e qual é a viagem de sonho que ainda não concretizaste e gostavas de realizar? 

Sem dúvida dois sítios: Africa - Botswana, Moçambique e África do Sul - e Austrália e Nova Zelândia. 

O meu sonho, mesmo, era dar a volta ao mundo, conhecer todas as vilas e aldeias de todos os países. Ainda não ganhei o euromilhões, mas tenho esperança! (risos) 

Não viajei assim tanto. Gostei muito de Itália, estive lá 1 mês. E gostei muito de Paris, onde vivi 8 meses porque estive lá a estudar. E adorei o Peru! Matchu Pichu, sobretudo. 

Perú | Agosto 1997

Itália | Setembro 1989

Paris  | Ano letivo 1990/91 
Les ATELIERS, école nationale de créacion industrielle
Paris | Cidade Universitária - Dezembro 1990 (-17º)



És uma artista, tens alma de artista – cabeça de vento de artista!... (rio-me) - desde quando é que percebeste isso? Porque é que enveredaste por essa área profissional? 

Olha, cabeça de vento desde que me conheço, mas não percebia, tal era a distração! (risos)

Dia sim dia não, tinha que ir ao Sr. Oliveira, a mercearia da esquina, comprar qualquer coisa e quando lá chegava ele dizia assim: «Olá menina o que vem buscar hoje?» Eu pensava um bocado e dizia-lhe assim: «Não me lembro, era qualquer coisa em lata...» 

«- Talvez feijão?... Grão?... 

- Sim, é isso! Uma lata de feijão. 

- Grande ou pequena? 

(Eu como não me lembrava, pedia sempre pequena.) 

- Encarnado ou manteiga? 

(Já me tramou outra vez, pensava) É encarnada e pequena.»

Chegava a casa, levava uma descompostura: «És sempre a mesma coisa, fazes de propósito para não voltares lá, agora vais lá trocar isso. É UMA LATA DE GRÃO GRANDE!» 
O Sr. Oliveira, dizia assim à minha Mãe: «A sua filha, nunca sabe o que vem comprar, nunca vi ninguém assim.» 



Desde sempre que a única coisa que gostava de fazer eram desenhos e trabalhos manuais. Os meus trabalhos de casa e estudos eram sempre desenhar, nunca os fiz, não conseguia era mais forte que eu. 

Passava os dias a desenhar, cortar e colar. Fazia casinhas com janelas de abrir e fechar. Lá dentro desenhava frutas, legumes, flores, sei lá mais o quê! 

Depois no 9º ano, fui fazer testes para ver para o que dava e descobri que era distraída (risos)
A psicóloga perguntou-me assim: «A Mafalda é distraída?» «Não não sou». «Olhe, é tão distraída que nem dá por isso.» 
Eu todos os dias perdia qualquer coisa. O casaco, o saco da ginástica, os livros, etc. O que levava para a escola ou para casa de algum amigo, não voltava comigo. E como comecei a levar raspanetes cada vez piores, adotei uma estratégia: antes de sair de casa, contava o número de coisas que tinha (tipo: pasta+ saco+ casaco+ chapéu = 4 coisas) e antes de sair do liceu ou da escola olhava para min e contava. Só tenho 3 coisas, falta uma. E ia procurar! 



Como foi trabalhar na indústria das faianças e cerâmicas? Do que é que gostavas mais e o que menos te agradava? 

A minha vida profissional começou pela cerâmica. Foi uma experiência de vinte e tal anos. Gostei imenso de trabalhar em e com fábricas de cerâmica. De de certa maneira, fui pioneira na cerâmica utilitária Portuguesa. Era tudo muito “cinzentão” e quando entrei na fábrica Raúl da Bernarda começamos a dar alegria e cor aos serviços de mesa. A modernizar os formatos e a tornar as coisas vendáveis. Gosto imenso de ver o que desenho a sair do forno, a ser moldado e a ser pintado. É um bichinho que ficou cá dentro. 

O mais difícil de trabalhar em fábricas, foi a tentar mudar a mentalidade dos empresários, pessoas muito difíceis de se lidar. Quando o que desenhamos se vende bem – o mérito é deles. Quando se vende mal, a culpa é nossa, dos designers. 

Não ter tido um poiso certo e ter andado 20 anos com a mala às costas para a frente e para trás, foi cansativo e pouco construtivo. Não me casei, não tive filhos, não criei laços nas terras por onde andei. 

E ao fim de vinte anos fartei-me. Fartei-me de nunca pagarem os royalties; de acharem que ganhas muito porque a única coisa que fazes, são uns “bonecos” e eu a ver as fábricas Portuguesas todas a irem pelo cano apesar de tu dizeres, «tem que mudar, tem que fazer peças inovadoras e diferentes»... Consideravam os designers uns seres insignificantes dentro de uma empresa. O resultado está à vista, faliram todas! As que não faliram, estão a fazer agora a mesma coisa que lhes desenhei durante vinte anos. 



Hoje a tua vida profissional é bem diferente. Qual foi o ponto de partida para ideia da tua empresa? 

Foram as farripas de laranja com chocolate. 
Um Natal resolvi que ia fazer farripas para oferecer aos meus primos de Sintra, que estavam sempre a falar que tinham saudades das cascas de laranja que se comiam em Azeitão. 
E lá fui eu para a cozinha inventar. A minha Mãe e uma amiga minha iam provando, até que acertei. A partir daí comecei a inventar coisas que não fossem perecíveis se não as vendesse no dia e comecei a fazer coisas e meter dentro de frascos. 



Se temperasses ou aromatizasses a vida com um dos teus produtos, com qual seria e porquê? 

Seria o doce de Pimento. Porque é encarnado e porque é uma agradável surpresa! (riso)




Se houvesse um lugar que pudesse contar um segredo sobre ti, qual seria? E que segredo era, podes contar? 

Há muitos, aqui em Azeitão. Mas há um em especial, que é aqui por baixo deste moinho. Quando era miúda, passava os dias por aqui, com o meu irmão e os meus primos, a fazer de pequenos vagabundos, de sete ou de cinco. Arranjavámos cordas com roldanas, prendíamos em árvores e saltávamos. A entrar em casas abandonadas pela chaminé, etc. 

Eu e o meu primo Tiago, um dia descobrimos uma plantação de cactos e suculentas e resolvemos apanhar umas. Levamos para casa e demos à minha tia (madrinha, avó do Tiago) ela adorou e então passamos a ir lá todos os fins de semana apanhar mais. 

Um belo dia, uma senhora foi ter com a minha tia e disse-lhe: «Tem que por de castigo os seus netinhos que me andam a roubar as plantas todas que eu ando a plantar.» 

Conclusão, apanhamos um ralhete e acabaram-se as ofertas de plantas! (risos)



Se pudesses viajar numa máquina do tempo, para onde ias, para o passado ou para o futuro? Porquê? E para que momento? 

Sem dúvida para o passado. 

Para onde não sei bem, ia para várias alturas da minha vida, para fazer a mesma coisa mas de maneira diferente. 

Talvez fosse para os 19 anos, para a faculdade tirar arquitectura paisagista ou agronomia, que não fui porque o meu Pai me infernizava a cabeça dia e noite a dizer que não dava dinheiro!



✩ fim ✩




4.4.18

No mundo encantado da Ilustração | Honor C. Appleton { #3 }



Ao contrário do que aconteceu com as outras duas ilustradoras de que já falei aqui, sobre Honor Charlotte Appleton encontrei muito pouca informação. Apenas uma pequena biografia e nem uma única fotografia ou retrato pessoal pintado. 

Sempre que me cruzava com a sua obra, o que mais me atraía na sua estética, e que por isso me levou a ter curiosidade em conhecer melhor a sua história, era o facto de a maioria das suas ilustrações terem quartos de brinquedos como pano de fundo, num universo onde as bonecas e outras personagens assumem um papel ativo, ao melhor estilo do nosso imaginário infantil. Quem nunca falou com a sua boneca preferida, ou não fez festas e casamentos entre os diversos bonecos que moravam nas prateleiras e estantes do quarto?

Mas a verdade é que, devido à escassez de documentação, acabei por não encontrar uma razão especifica para este tema constante do seu trabalho. Resta-me pensar e concluir que essa sua fase de vida foi de tal forma marcante que a influenciou para o resto da vida. Por outro lado, uma das suas mais importantes obras foi a colaboração como ilustradora dos livros da aventureira Josephine e dos seus brinquedos. Isso, só por si, pode ser suficiente para justificar tal acervo.








Honor C. Appleton nasceu em Brighton, Inglaterra, a 4 de fevereiro de 1879.

O que se sabe sobre a génese do seu trabalho como ilustradora é que a sua formação passou pela Escola de Kensington,  pela Frank Calderon's School of Animal Painting e  pela Royal Academy of Arts.

Fortemente influenciada por ilustradores seus contemporâneos como Arthur Rackham , Heath Robinson, Kate Greenaway e Jessie Willcox Smith, Appleton destacou-se num estilo próprio e muito facilmente identificável, pela técnica da aguarela. 

No fim do primeiro ano na Royal Academy, em 1902, publicou o seu primeiro livro de ilustrações com o título "The Bad Mrs Ginger". A esse, e ao longo da sua vida, seguiram-se mais de cento e cinquenta livros ilustrados por si.

A mais conhecida das suas primeiras ilustrações foi criada precisamente para a coleção "Josephine" - as aventuras de uma menina e da sua família de bonecos e as suas façanhas. Eram imagens sobre brincadeiras infantis, estruturadas, intensas e cheias de detalhes, mas com a suavidade conferida pela aguarela, que davam vida aos textos de HC Cradock (1863 - 1941).


A primeira grande ruptura de Appleton no mundo da ilustração foi conseguida com seus desenhos para as Canções de Inocência de William Blake (1910), facto que contribuiu  para sua reputação como ilustradora de primeira classe.



As suas obras mais famosas incluem o "Our Nursery Rhyme Book" (1912), de Charles Perrault (1919) e os contos de Hans Christian Andersen (1922).



Entre 1930 e 1940 a sua técnica desenvolveu-se e Appleton começou a afastar-se das publicações infantis e começou a focar-se nos grandes clássicos da literatura. Nesse contexto, uma boa parte do seu trabalho foi desenvolvido para a "George G. Harrap and Company", uma editora de livros de especialidade, com sede em Londres e Bombaim, entretanto desaparecida.

A famosa ilustradora adorava o sul de Inglaterra, o que a fez permanecer perto de Brighton, em Hove, durante toda a sua vida, cidade de onde só se ausentava em viagens negócios.

Appleton morreu com 71 anos, a 31 de dezembro de 1951. Nessa época, o seu trabalho era de tal forma conhecido e admirado, que a Hove Public Library realizou uma cerimónia de homenagem no ano seguinte.