este lugar não é sempre cor de rosa, por aqui não há sempre sol e nem tudo são flores.
também há dias cinzentos, chuva, cardos e urtigas.
é tudo isso que o faz uma boa parte de mim.


22.8.14

Silêncio*


O silêncio é uma cor. 
Preto. A cor mais escura do espectro. A ausência de luz. A junção de todas as cores. Aquela que absorve todos os raios luminosos e não reflete nenhum. O luto do ocidente.
Branco. A junção de todas as cores do espectro de cores. A cor da luz. Aquela que reflete todos os raios luminosos e que por não absorver nenhum revela a clareza máxima. O luto do oriente.

O silêncio é uma cor.
Preto. Negro. Carregado de dúvidas. O som do medo. O mundo inteiro apagado. Só um ruído ensurdecedor a rasgar as entranhas. O silêncio onde só se escutam palavras obscuras. Mudas. A gritar de dor.
Branco. Luminoso. Pleno de leveza. A vida a acontecer, devagarinho, dentro de nós. O sabor das coisas pequenas, minúsculas que no silêncio ficam maiores. Gigantes. Todas as nuances da vida a habitarem-nos. O mundo a acontecer, por dentro e por fora. A descoberta e seu o sabor.

O silêncio é uma cor. E uma porta.
Se o abrirmos para escutar a vida, liberta. Se o fecharmos sobre nós, encarcera. 
Somos o somatório de todos os silêncios que nos visitam. Mas somos nós que escolhemos aquele que nos habita. A cor que define quem somos.


*white is a beautiful place, to live & love

20.8.14

Crónica dos dias felizes III


- temperados com outro sal -

O Senhor das Andorinhas


Não me recordo como se chamava. Não retive. Apesar de tudo, acho que nenhum nome lhe fica melhor do que O Senhor das Andorinhas.
As festas de Tavira na rua. O mercado de artesanato alinhado na praça. O coreto a meio e ao fundo o antigo Mercado da cidade.
Em escala real, ninhos esculpidos no barro, habitados por crias, ora curiosas, ora suplicantes. Bicos abertos evocando os pais. Soube que era aquele presente que este Verão queria oferecer aos meus.
Na banca, um Senhor sorridente. Apeteceu-me roubar-lhe um bocadinho da sua história e ele consentiu.
Nunca fora artesão, até há 18 anos atrás. Ninguém, nas suas raízes o fora. Não sabia nada da arte de moldar o barro. Vivia mergulhado na informática, nas horas que se consomem num trabalho que realiza mas aliena do resto. Corria atrás do tempo dos outros, na virtualidade de um tempo seu que não o fazia feliz. Um dia, consciente, fechou a porta. Foi assim que o barro da vida que desejava se moldou. Com mais trabalho, com mais dúvidas, com mais incertezas - das outras, das financeiras - mas com uma qualidade de vida de que nunca se arrependeu.
Se outra dúvida existisse, o sorriso, honesto, rasgado, iluminado, foi a chancela.

E as andorinhas... as andorinhas são uma nobre e especial ave. Elegantes, bonitas, felizes. Por muitas milhas que façam, voltam sempre ao mesmo ninho, com o mesmo par, ao longo da vida. Sabem sempre, sempre, o caminho de regresso a casa. Por isso os marinheiros as tatuavam nos braços.
E eu, que sempre disse e digo que nunca farei uma tatuagem - nunca digas nunca, nesta vida! - sei que se alguma vez a fizesse seria o voo de uma pequena e discreta andorinha, símbolo da rota certa e da família, que desenharia na pele.

18.8.14

| O Elogio do Imprevisto

Era manhã cedo, eu a caminho do primeiro café que estava por tomar e um gato caminhava, pachorrentamente, ao lado do dono. Pelo passo e pelo pêlo, percebia-se que era um gato velho, siamês na raça, cão na alma, a contrariar a natureza que a criação lhe deu à nascença. Percebia-se que o fazia há muito tempo, percebia-se que era um ritual familiar. Um pouco mais tarde, ao segundo café, reencontrei-os e não hesitei em roubar um bocadinho daquela história. O dono confirmou. Foi o gato que sempre assim o quis. Sem trelas, nem coleiras. Em total liberdade de escolha e movimentos, pede para ir à rua. Abençoado, penso eu!

Na volta do primeiro café, na esquina de um prédio na fronteira do meu, um asiático faz Tai Chi. Movimentos leves e breves, que desenham a paz do espirito no ar. O balanço do equilíbrio. O silêncio atento da alma. Eu, a passar de carro, mal me demorei nele, mas retive. Nunca o tinha visto por ali, mas até pode ser meu vizinho. Há muitos anos que uns Macaenses têm uma fração autónoma no meu prédio. Costumavam vir uma vez por ano visitá-la, em férias. Há pouco tempo, parecem ter voltado e ter feito dela uma casa. Talvez seja um deles que, de tão discretos, ainda não aprendi a reconhecer nos breves bons dias ou boas tardes que trocamos na entrada. Fiquei com vontade de lhe fazer companhia.

Era meio de tarde e os tratores e o barco que tinha chegado da faina avistavam-se na praia. Há muitos, muitos anos, que não me cruzava com este cenário que me foi tão familiar em dias de semana, nas férias grandes de Verão, na Caparica. Estava na hora da caminhada. Aproveitei para ir apreciar o quadro.
Quilómetros de rede saiam do mar puxados pelo motor e encaminhados pelos braços fortes dos homens da arte. O povo juntava-se em redor. Formou um círculo cerrado quando as redes cheias foram depositadas no areal. O garimpo da prata enredada começou. Detive-me nos caraguejos que escapavam e juntamente com as crianças extasiadas ajudei-os a fugir da matança e a regressar a casa. Um pequeno peixe nas malhas fechadas e eu a tentar com cuidado que se furtasse à má sorte. Pedi-lhe baixinho que me ajudasse. Ficou calmo e ajudou. Foi outra criança que o levou na mão, numa correria desenfreada, para o meio das ondas.
A peixeficina continuava. As cavalas e os carapaus, frescos, frescos, a debaterem-se. Em vão. As redes eram as suas mortalhas. As caixas onde eram acomodados, os seus caixões. 
Num súbito alvoroço, muitas crianças e alguns adultos que lhes pertenciam corriam para a água com pequenos peixes. Suponho que a mão experiente dos carimpeiros dissesse que era justo devolvê-los à natureza porque a sua hora ainda era precoce. A felicidade reinava. De repente, aquelas simples pessoas, pequenas e grandes, eram omnipotentes salvadores. E ato contínuo, a desgraça voltava. As implacáveis gaivotas, ávidas dos despojos, picavam o mar em agressivos voos, mal as mãos pequeninas e grandes depositavam os corpos prateados à beira mar. E roubavam-se, furiosamente, umas às outras. 
Parei. Estaquei. O cenário, o que presenciava, a vida a acontecer e a desacontecer tão depressa perante os meus olhos, era um misto de fascínio, surpresa, espanto e dor. Houve um momento que durou uma eternidade. A surrealidade pintada sobre a minha cabeça. Dezenas, assustadoras dezenas de gaivotas pairavam sobre a minha cabeça. Planavam, como asas delta, vigilantes sobre os movimentos da praça improvisada no areal, à espera das suas desavisadas vítimas. E só eu sei, como se sobrepondo aos dois episódios peculiares da manhã, aquele momento etéreo e imprevisto me encheu a alma e o coração com uma energia inexplicável e coisas bonitas. Sei, sei que parece um exagero, mas sei que hoje, com esta história pequena, ganhei um dia extra de vida.

17.8.14

A estação dos perdidos e achados. O Verão.



O Verão devia ser, não por imposição legal, mas por serena disciplina interior, a estação do pousio. 
O tempo inteiro, todo corrido mas a demorar-se. Sem estilhaços, sem fragmentos, sem interrupções. Só nós, a sermos o que somos. Só os nossos mais perto, em direto, sem fios nem ligações que não fossem as dos braços que se estendem e as dos abraços que se dão. O azul mais indiscreto do céu. A areia nos pés. O sabor das pequenas ondas. O verde pardo de um pinhal. O canto da rola.
Como ambicioso projeto, num pequeno passo, no Verão todos deveríamos poder dispensar o telemóvel.  Desligar a internet. Não ter medo de perder o imediato. Abrir os braços ao incerto. 

Um extenso areal semeado pela maré vazia. As pequenas grandes piscinas que a baixa-mar desenha. As crianças que as vêm habitar em sonoras brincadeiras. Penso e acredito que, à semelhança do que se passa com a televisão a maior parte do tempo, não precisaria de telemóvel para nada. Que o levo apenas comigo porque tenho uma filha e que depois de sermos pais e mães nunca mais nos podemos permitir não estar contactáveis... ato contínuo, sorrio. Os nossos pais não tiveram telemóveis e se algum de nós, na infância, se sentiu desprotegido não foi seguramente por essa ausência, mas pela de afetos. Não havia telemóveis e todos nós sobrevivemos e bem. Aprendemos com essas e outras ausências que a vida é feita de soluções que se encontram a cada momento. Um dia, na beira alta, eu pequenina, o nosso carro ficou sem gasolina. Anoitecia. Estávamos no meio de um pinhal, numa estrada longe de povoações. Não se viam casas nem viva alma. Algum tempo depois, passou um homem numa motorizada. O meu pai fez-lhe sinal, o homem abrandou e depois de saber do que se tratava, deu-lhe boleia. Eu e a minha mãe ficámos a vê-lo ir. Não sabíamos quanto tempo demorava, nem quem era o homem que lhe dava boleia. Se o traria de volta. Podiam ter um acidente. Ao longe, andava um fogo... O meu pai voltou. O carro andou e hoje tenho esta pequena história feita de um medo pequeno que guardo como uma grande história sobre a vida tal como ela é. Sem rede.
Hoje parece que não sabemos nada sobre isso, que desaprendemos que nada nesta vida se controla e muito menos à distância. Empobrecemos. Regredimos. 

Entretanto, uma mão cheia de caranguejos ermitas vai passeando embalada pelas suaves oscilações das pequenas ondas que invadem a piscina de sal onde parei. Um grande, o maior de todos, o rei, a andar depressa. Pego-lhe, brinco com ele segurando-lhe com cuidado. Recolhe. Mergulho-o para que reapareça. Quando o faz timidamente, faço-lhe festas nas pinças. Recolhe novamente. O caranguejo ermita não sabe nada de festas, não sabe o que simbolizam. E provavelmente tem razões de sobra para acreditar que seres da minha espécie não fazem festas aos da sua. Devolvo-o ao seu caminho. Desejo que mais ninguém o veja. Que a curiosidade ou a maldade não o atropelem. Desejo-lhe boa sorte. Mais à frente, são vários os cardumes de pequenas linhas prateadas que se evadem à proximidade dos meus passos. Eu a pensar que a primeira projeção profissional que tive, era tão pequenina, era ser uma daquelas pessoas que faziam o programa d' O Homem e a Terra - o percursor do National Geographic. E eu não sabia nada do que era uma profissão nem que aquilo era uma profissão. Para mim aquilo era uma aventura e uma paixão. Era estar no meio dos bichos, observá-los, conhecê-los, tê-los perto, nem que fosse através de uma curiosa e atenta lente. Anos mais tarde, acabei por descobrir que isso para mim era o sinónimo de profissão, embora a definição não constasse em manual nenhum e menos ainda na lei laboral. Assim como assim, dediquei-me mais à investigação sobre o bicho homem.

Falam por si, as estatísticas. No Verão há mais casamentos, há mais divórcios, há mais reconciliações. Há mais bebés a serem sonhados e desejados e mais crianças a serem concebidas. No Verão as crianças crescem mais. E, ao contrário do que algumas pessoas pensam, no fim do Verão, no regresso a casa, à escola, as crianças gostam que se lhes diga estás tão crescido! estás tão crescida! Sobretudo quando é verdade. E quando somos crianças sabemos sempre quando nos dizem a verdade. Só muitos anos mais tarde começam as dúvidas. No Verão as crianças crescem mais. Todas as crianças crescem mais. Até as institucionalizadas. No Verão temos mais liberdade, saímos mais, mesmo sem nos darmos conta, da zona de conforto. No Verão temos mais pele. É por isso que no Verão até as crianças institucionalizadas crescem mais. No Verão, todas as crianças são, ficam, mais iguais, porque os pais passam a ter um bocadinho menos de importância. Há a liberdade, a ausência de rotinas, todas as coisas diferentes e um mundo por descobrir. O ar, o sol, o mar, o campo abraça-os e até estes meninos crescem melhor porque o Verão os enche de afetos. No Verão, o calor substitui, mesmo sem nos darmos conta, uma boa parte do que nos falta no resto do ano. 

No Verão devíamos, não por imposição legal mas por serena disciplina interior, ser obrigados a perder-nos. A perder-nos no que nos rodeia. A mergulhar mais fundo em nós. No que está perto. No que está ao alcance de um toque, de um olhar, de um cheiro, de um sabor. O Verão devia chamar-se a estação dos perdidos e achados. Porque muitas vezes - tantas vezes - só perdendo nos encontramos. Como os tesouros que o mar perde para nós acharmos. 

E no fim, esta certeza em mim, que não depende de estação. A de que, para além do tempo que dedicamos ao amor dos que amamos e que nos amam, o tempo mais produtivo, o mais bem empregue de todos, é aquele que se detêm naquilo que há milhares de anos nos rodeia. Para além destas duas chaves, não há nenhuma outra que abra verdadeiramente a porta para a condição humana. Tudo o resto, acho eu, é ilusão.