este lugar não é sempre cor de rosa, por aqui não há sempre sol e nem tudo são flores.
também há dias cinzentos, chuva, cardos e urtigas.
é tudo isso que o faz uma boa parte de mim.

6.5.16

Project#6 | Belinda Sobral ✩ Mãe Orgânica e Nova Rural

Quando pensei nas Mulheres que gostaria de ter à conversa no Project#6 pensei de imediato na Belinda. A primeira razão era simples e muito pessoal. Também eu, desde que me conheço como adulta, desejei fugir da cidade e viver na simplicidade do campo. E por muito que a vida e a experiência - minha e de outros - comprovem que a nossa caminhada é bem mais do que "um amor e uma cabana" e que por isso tenha cada vez mais consciência dos múltiplos desafios que se impõe nesta escolha, ainda não desisti da ideia. O tempo dirá se será ou não um sonho realizado. Por enquanto ainda acredito que é apenas o tempo que me distancia desta realidade. 
A segunda razão prendia-se com o facto de a sua escolha se alicerçar, sobretudo, num regresso às origens em que o grande mote foi tomar conta de um negócio familiar, num lugar recôndito do Alentejo. 
A vida da Belinda - e a da família que constituiu entretanto - passou a acontecer num lugar onde nada acontece e isso, só por si, merece toda a minha admiração e curiosidade.

Para mim o Alentejo é Maio. São os campos cobertos de flores amarelas e roxas, as estevas e as papoilas. O ar morno, as andorinhas e as cegonhas. O céu imaculadamente azul. Se havia convidada perfeita para este mês essa convidada era a Belinda. E foi, mas o tempo trocou-nos as voltas. No dia em que fui ao seu encontro levei comigo a chuva de Lisboa para um lugar onde ela não se fazia sentir há muito... "Ela faz tanta falta aqui. Aqui há tanto tempo que não chove! Vocês aí em Lisboa nem se apercebem da falta que ela nos faz...", desabafava ela ao telefone, sem poder antecipar que, mesmo sem que isso nos facilitasse a vida nesse dia, eu lhe faria a vontade e daria boleia às nuvens carregadas pela estrada que me conduziu até à Silha do Pascoal, a aldeia onde mora.

Quando a chuva nos deu uma ligeira trégua fugimos com o pequeno Sebastião para o montado em frente da sua casa. A Melinda estava na escola. Ficou todo um ideal fotográfico por realizar e uma boa parte poesia que eu tinha sonhado naquele cenário. Sobrou-nos a conversa boa e um dia coroado por um magnífico jantar de túbaras e açorda alentejana, regado com bom vinho. Inesquecível! De comer e chorar por mais.

Belinda Sobral, é a Senhora que se segue.




Belinda, confesso que é muito difícil saber por onde começar esta conversa contigo. Há tantos mundos para desbravar... Apesar de seres tão nova sei que tens tanto para partilhar sobre tuas escolhas de vida. Vamos começar talvez por aquilo que me trouxe até a ti, que me fez conhecer-te e seguir-te com atenção desde aí: o teu o regresso às origens. 
Fala-nos dessa história e também da fase em que pegaste no negócio da tua família, fala-nos de tudo isso, da razão desse passo e do impacto que teve em ti.

Bom, na verdade, sinto que foi algo muito importante para mim ter deixado a minha profissão e ter voltado às origens. Sinto que isso trouxe uma nova consciência ao lugar onde cresci, na venda e mercearia da minha família materna. 
Sempre senti uma grande necessidade de estar perto das árvores, de ouvir os pássaros, de ver as nuvens e o sol brilharem sobre a terra, de ouvir contar histórias de taberna e mercearia. Quando era pequena, a minha casa sempre foi aqui na Venda, raramente ia a minha casa que ficava a uns metros do estabelecimento comercial. O que me fez voltar foi a relação com a natureza, as pessoas e a segurança que sentia ao viver aqui. Sabia-me bem poder ir para o meu quintal, estender roupa e não ter confusão à minha volta, a vida simples que não encontrava nas cidades por onde passei. Sempre pedi aos meus pais para renovarem a taberna e mercearia que os meus avós maternos deixaram, mas eles não acreditavam muito numa adolescente com sonhos, foi necessário eu ter uma filha para eles confiarem nesse meu sonho, de ver valorizado esse espaço tão caricato e tão cheio de memórias boas que continua a ser a Venda, agora gerida por outras pessoas.



Precisamente por causa dessa tua decisão de mudança, ocorre-me perguntar-te isto: há todo um mito urbano acerca da vida no campo, das "gentes" do campo, da sua natureza afável, da sua boa vizinhança e da sua entreajuda. É assim? Sentes isso ou é apenas uma ideia preconcebida de quem não tem qualquer experiência nesse sentido?

Sim isso é bem verdade, as pessoas são afáveis, mas são mais com as pessoas de fora porque, com as pessoas daqui há sempre aquela máxima de: "a galinha da vizinha é bem melhor que a minha". O grande senão é toda a gente saber da nossa vida e quando não sabem inventam e isso é o que me aborrece mais por aqui. A única forma que tive para resolver isso foi afastar-me um pouco, senão tinha sempre toda a gente a bater-me à porta para contar histórias de alguém e, sinceramente, não me interessava nada falar da vida alheia... No fundo estas pessoas procuram atenção, estão aqui há muito tempo e é aqui que fazem a fotossíntese, não sabem viver de outra maneira. Se aparece aqui alguém de novo ou com novas ideias, elas querem perceber e saber tudo o que se passa... Eu fico aborrecida com isso e neste momento sinto vontade de sair daqui, sinto que já fiz a minha parte e que agora é tempo de outros voos.


Lembro-me perfeitamente que quando te conheci através do blogue "Na minha Mercearia" , que criaste precisamente por causa desse regresso à Venda, falavas da experiência do teu primeiro parto em casa, do nascimento da Melinda (adoro o nome da tua filha, já te vou perguntar de onde veio). 
Sei que já falaste inúmeras vezes sobre isso, mas sei também que há muitas pessoas que ainda não conhecem essa bonita história, tão rica em emoções. Tenho a veleidade de achar que a vou fazer chegar a mais gente que vai gostar de a conhecer. Podemos viajar um pouco até esse passado de há cinco anos? Qual foi o fio condutor nessa tua decisão de ter um filho "à antiga"? 

Bem, não foi propriamente "à antiga", porque antigamente a maioria das pessoas não estavam informadas. Eu fiz esta escolha bem informada e consciente, apesar de, para algumas pessoas, parecer loucura. 
Dar à luz é algo inato na mulher e por isso eu sempre considerei o parto como algo natural. Para mim nunca fez sentido ir para o hospital, uma vez que tinha uma gravidez saudável. Para mim é mais ao contrário, ou seja, considero corajosas todas as mulheres que vão para um hospital ter um bebé. Eu não seria capaz de o fazer. É um ambiente bastante seguro por um lado, mas bastante invasivo por outro, onde não me sentiria à vontade para dar à luz. Mas respeito e compreendo as opções de cada mulher, de cada mãe! 
Com o parto da Melinda tudo foi bastante simples, na altura o Gil perguntava se isso era mesmo possível e quando fomos falar com uma doula, ele percebeu que fazia sentido a Mel nascer em casa. Comprámos a piscina e o parto foi tão rápido que mal deu para aproveitar aquele momento com romantismo. O pós-parto também foi maravilhoso, vivia rodeada de amigos e de família. Esta segunda gravidez foi mais difícil, senti-me mais cansada e isolada, mesmo por viver aqui numa aldeia pequena, e o parto foi diferente, mais agreste, embora também muito rápido. O pós-parto ainda o estou a viver, mas não tem sido nada fácil, comparado com o outro. Mas sei que um dia vou dar-lhe muito valor por tudo o que me permiti aprender com ele! Já lá vão 8 meses intensos de amor e cansaço (sorriso).



A uma futura mãe que leia esta entrevista, que argumentos apresentarias para a levar a fazer esta escolha, de ter um filho em casa? Quais são os prós e os contras? 

Não tenho argumentos para convencer ninguém. Ter um parto em casa ou fazer uma cesariana é uma escolha da mulher, da mãe, ninguém deve demovê-la da sua vontade maior. É direito dela ser tratada com amor e respeito em toda e qualquer escolha que faça. Este assunto daria pano para mangas, mas como mãe não tenho tempo para escrever mais sobre ele. Acho que é importante respeitar a vontade da grávida. O serviço nacional de saúde, e também o privado, devem colaborar para que as escolhas da mulher sejam respeitadas e tidas em conta. 



Praticas yoga e também dás aulas a futuras mães. Que vantagens encontras nessa prática, nesse momento concreto da vida da mulher?

Sim o yoga faz parte da minha vida, desde pequena, só que não sabia que se chamava yoga (riso)... Comecei a praticar em 2007 por causa das minhas dores nas costas. A partir daí procurei sempre terapias alternativas, como a acupuntura, o reiki,... Mas não chegava. Entretanto comecei em Lisboa uma formação em Ayurveda - que para quem não sabe é uma terapia milenar indiana - para saber um pouco mais e trabalhar nesta área também. Nessa altura conheci o Gilberto. Ele já dava aulas de yoga. Juntámos os trapinhos ao fim de pouco tempo e o yoga é grande parte da nossa vida. As aulas para grávidas vieram mais tarde quando percebi que tinha de começar também a fazer algum trabalho relacionado com o yoga, porque eu sou muito feliz quando pratico e além disso ajudou a curar as minhas dores físicas mas também da alma. Pensei que podia mostrar a outras mulheres uma atividade bastante suave para praticar na gravidez, onde podia respirar junto com elas e partilhar momentos de profunda descontração e enamoramento pelo nosso corpo e do novo ser que trazemos dentro. No fundo é uma forma de, nós mulheres, estarmos mais ligadas ao nosso corpo e aos seus ritmos. 

Além disso és doula. Já há pouco referiste esse termo. O que é "isso" de ser doula? 

Sim, tirei a minha formação de doula já grávida do meu segundo filho. Escuto as mulheres com algumas questões e vou aprendendo também com elas. Entretanto aprendi que cada grávida é uma história diferente e que são elas que procuram o que lhes faz mais sentido. Tento introduzir mais informação, mas só até onde é confortável para elas e também para mim. Sinto que, por aqui, as doulas ainda não são bem compreendidas. Mas eu não prescindi de ter sempre doulas nos meus partos, para mim foram a peça principal no apoio ao parto natural, mais do que uma parteira, as minhas doulas foram como um ninho, onde eu podia repousar em absoluta confiança e entrega. Ser doula é ouvir com empatia e amor uma grávida, sabendo que ela é soberana e as suas escolhas são as melhores para si. Só isso. 



Falando ainda das tuas escolhas como Mulher-Mãe. Como tem sido criar e educar os teus filhos no campo? Este "isolamento" tem sido um aliado para aquilo que idealizavas e idealizas no seu crescimento holístico ou também aqui há barreiras e dificuldades, como nos grandes centros urbanos?

Há, claro que há. E não, não tem sido fácil. Aqui as mães têm de trabalhar e muitas deixam os seus filhos na creche a partir dos 4 meses, que é uma coisa que considero bastante preocupante para a vida da mãe e do bebé. Eu, felizmente, consegui estar um ano com a Melinda em casa e só depois de um ano comecei a deixá-la com outras pessoas de confiança, porque tinha o projecto da Venda. Com o Sebastião está a ser mais cansativo porque não existe um grupo de mães que se apoiem, no local onde resido. Já tentei criar um mas, como vivemos longe umas das outras, não é possível fazer encontros como eu gostaria, para o nosso bem e para o bem das crianças. Aqui uma mãe que tem um bebé em casa, que anda com o bebé ao colo ou que amamenta na rua ainda é vista como estranha e eu, apesar de tudo, tento resguardar-me para não escutar as conversas que muitas vezes "ferem" os meus ouvidos. Consideram-me um pouco louca e eu tenho de viver com esse rótulo, mas já estou habituada. 



Sinto necessidade de "meter o dedo na ferida"... como tem sido, para ti como Mulher, esta caminhada de mãe a tempo inteiro? Há espinhos, neste mar de rosas? São tudo flores?

Há flores de várias cores, especialmente rosas e espinhos! Eu acho que tudo faz parte do meu crescimento. 32 anos, mãe de duas crianças, não sei tudo e estou a aprender com os maiores mestres que a vida me deu: os meus filhos! 


Deixaste "tudo" para trás, por esta escolha de vida. Neste momento, ao fim destes anos, que balanço fazes, ou seja, se voltasses atrás, seria esta a tua opção? Para onde aponta a tua bússola interior?

Claro que sim, faria tudo igual, apesar deste último ano ter sido bem mais intenso e de labuta com vontades interiores, mas tão importantes para o meu desenvolvimento pessoal e para dar sol às entranhas mais profundas que me foram reveladas com a vinda de um segundo filho.




Há pouco dizia que havia de te perguntar pela origem do nome da tua filha: Melinda. 
Sei que de uma forma geral os Alentejanos têm nomes próprios e apelidos muito diferentes do resto do país, alguns bastante peculiares. O teu próprio nome: Belinda. 
Tu e a Melinda, têm nomes de herança familiar ou são apenas fruto de um gosto pessoal?

Quando estive grávida a primeira vez não quis saber o sexo e a Melinda era para se chamar Maria Clementina, mas o pai não gostou. Depois ficámos pela Maria, mas como já era um nome bastante comum, lembrei-me de Melinda e o pai gostou muito. Confesso que gosto imenso do nome, mas agora considero muito forte, porque como não existem muitas Belindas e Melindas facilmente nos encontram e sabem quem somos... o que nem sempre é bom...




Tens neste momento um projecto em mãos, que de certa forma é uma projeto de vida. 
Fala-nos do Jardim Alfazema. Qual é a sua génese, o que ambicionas alcançar com ele? O facto de seres mãe de duas crianças pequenas teve alguma influência neste passo? 

O projeto do Jardim Alfazema não é só meu, é de um grupo de mães (e pais) que se viram obrigadas a escolher algo melhor para os seus filhos. Mas não tem sido fácil conseguir alterações nas instituições que existem atualmente em Grândola... 
O jardim Alfazema é um projecto inspirado na Pedagogia Waldorf e pretende ser um centro comunitário de atividades para crianças e famílias. O meu desejo com este projecto é que as crianças e pais possam ter uma educação mais humana, mais próxima dos valores que eu considero importantes: verdade, honestidade, paz e amor. 

... apetecia-me tanto que falássemos mais aprofundadamente sobre este tema, mas é como tantos outros, dava pano para mangas... pode ser que alguém com um tempo de antena mais alargado nos leia e venha cá falar contigo sobre isso...
... pois... (risos)




Defines-te como uma mãe orgânica. Explica-me esse conceito. Nesse conceito incluem-se de alguma forma as tuas opções alimentares?

É apenas um nome que gosto: mãe orgânica, mãe-terra, porque sinto-me muito ligada aos ciclos e ritmos da natureza, procuro dançar com eles, movo-me com o sol, o vento, a chuva e a lua. 
Sim, também procuro uma alimentação mais orgânica, sazonal e biológica. Mas ser orgânica para mim é fundir-me com aquilo que tenho no momento e observar, não tem de ser tudo saudável. Ser orgânico é uma forma de adaptação ao meio onde estou. Se tiver de beber uma mini e comer uma bifana vou fazê-lo com o mesmo prazer com que como alimentos crus ou vegan. (risos)
Não gosto de rótulos, nem de caixas, gosto de ser e fazer o que me apetecer, sem ir contra ninguém. 


Belinda, tu és uma mulher de convicções fortes, de decisões arrojadas, que de alguma forma se debate contra uma série de dogmas e que acredita que é possível mudar as regras de alguns jogos que estão manifestamente viciados. Sentes que quando se dão assim pedradas no charco se corre o risco de ficar prisioneiro de outros dogmas, diferentes, mas igualmente castradores que se desconheciam? Como é que sentes esta tua realidade que é no fundo a realidade de tantos outros "novos rurais", jovens como tu? 

A mudança faz parte da minha essência. Não gosto de rotinas, é um defeito meu, gosto de ser livre e fazer muito do que me apetece. Sei que sou privilegiada por poder escolher, mas existem assuntos em que não consigo deixar de ter convicções fortes, como por exemplo no respeito à natureza, à vida na terra. E daí à liberdade do ser humano, a verdadeira liberdade, não aquela de que se fala nos jornais e na tv, que traz grandes manifestações. Eu acredito que a revolução pode ser silenciosa. 
Eu hoje sou assim, amanhã vou ser diferente? Não sei. Quero estar cada vez mais presente em cada momento, mas também sinto que sou uma alma livre e que gosta muito da mudança.



Sentes-te uma alentejana de gema?

Neste momento não me sinto uma alentejana de gema, estou cansada dos alentejanos! 
Desejo conhecer outras realidades. Outras formas de vida. Preciso de umas férias do Alentejo! (riso) 




Vamos meter-nos numa máquina do tempo e programar o ano de 2036. Aterrámos. De repente abre-se a porta da nave e vês-te nesse futuro. Num breve resumo, onde estás e o que estás a fazer?

Vejo-me num jardim a pintar quadros e com o som de crianças felizes por perto a brincarem. 
Outro segredo, também me imagino a dançar, dançar muito, com o mundo inteiro...




✩ fim 

26.4.16

Medicina tradicional preventiva


As chagas, também conhecidas por capuchinhas, nastúrcios ou mastruço do Perú são originárias da América do sul de onde foram trazidas para a europa pelos conquistadores no século XVII. Eram muito utilizadas como planta medicinal em toda a região dos Andes.
Tanto as flores como as folhas e as sementes são comestíveis. O sabor é levemente apimentado e penetrante, semelhante ao do agrião, 
São ricas em vitamina C, glicocinatos, ácido fosfórico e oxálico, enzimas e componentes antibióticos que não afectam a flora intestinal. Existem inclusivamente estudos que comprovam que as chagas ajudam a promover a formação de células vermelhas ajudando assim a combater a anemia.
Hoje, ao almoço, algumas que colhi diretamente de um vaso na minha varanda, juntaram-se a uns couscous com pimentos laranja e mangericão. Foi como servir o sol à mesa.