14.9.16

Este blogue anda meio abandonado...


... mas a vida que o inspira, nunca.

Devido ao Verão e às férias, o Project#6 fez uma breve paragem técnica, mas promete voltar já em Outubro.
Entretanto, cozinham-se ideias e desenham-se projetos, para avançar por outros caminhos pessoais e profissionais. Haja tempo para tudo. Um dia, atrás do outro. E haja mais manhãs de Domingo como esta.

11.7.16

Não vou à bola com futebol mas acredito no efeito borboleta


De todos os desportos, o futebol é inquestionavelmente o que menos espírito desportista revela. As querelas clubísticas, os golpes palacianos de balneário, a corrupção instalada há muito e a céu aberto. Já para não falar na sarrafada. As claques escoltadas e separadas como curros são o melhor exemplo do que não se devia ver onde existe desporto. Mas há ainda a cereja em cima do bolo: ver, após um golo, os goleadores a correrem campo fora a empurrar os companheiros de equipa que os saúdam. Se isto não é individualismo e antítese de espírito de equipa, não sei o que será. Aparentemente, na glória, o balneário desgalvaniza-se.
Mas verdade seja dita, no que toca a futebol, sou assumidamente uma leiga. Tão leiga que se contam pelos dedos das mãos os jogos a que assisti. O de ontem deve corresponder ao anelar da mão esquerda. Sou destra. No sentido da contagem, tenho a dezena quase cumprida.

O facto de, pelas mais diversas razões, não apreciar futebol em nada impede o facto de lhe reconhecer a virtude de unir multidões em torno dele. E se para juntar amigos à volta de uma mesa tiver que haver taças importantes para ganhar, então que venham elas! Para mim já é um motivo mais do que suficiente.
Sobre o que ontem se passou há pouco ou nada mais a dizer. Muito além do que se possa escrever, as imagens falaram por si. No caso e em certa medida, infelizmente, falaram por uma larga fatia de um povo. Mas nem nesse aspeto há grande novidade, como sabemos. As minhas cogitações são mais outras, ainda que sejam repetentes.

Somos os Maiores e os Melhores do Mundo por ganharmos a final da Liga Europa? 
A mesma Liga Europa onde nos arrastámos de quase derrota em quase derrota, até à vitória final? A mesma Liga Europa onde, em determinado jogo, vencemos com a mesma aritmética técnica que fez de Costa o Primeiro Ministro que ontem aplaudiu o resultado em Paris? Palavra de honra que os que nos torna tão bons e tão grandes é chegar a algum lado porque os outros fazem pior do que nós? 
Fui só eu que ouvi meio Portugal a insultar jogadores e treinador até passarmos às meias finais?

Unidos? Os portugueses são tudo e tudo podem porque são unidos? Brincais, senhores?
Somos unidos no pronúncio de vitórias? Unimo-nos na hora de cantar de galo? Um povo unido permite que um país seja há décadas desfalcado por políticos e banqueiros em total impunidade?... A noção de união dos portugueses tem por mote "mines das pequenas" e tremoços?
Sobre União: é pôr os olhos na Islândia, se faz favor.

Os jogadores da Seleção Nacional são heróis por ganharem a final de um campeonato?
Se para ser patriota tiver que dizer uma coisa dessas sou certamente a cidadã menos patriota de Portugal! Ou então o significado de Herói mudou no dicionário e não dei conta.
Chamem-me demagoga, mas para mim heróis deste país são, entre outros, os bombeiros que apagam fogos sem meios, os médicos e enfermeiros do sistema nacional de saúde que trabalham sem recursos, os padeiros, os empregados de mesa e os licenciados em cadeiras de call centers que ganham o ordenado mínimo e tentam governar a sua vida e das suas familias! 
Os jogadores da Seleção Nacional são trabalhadores, têm uma profissão e ganham - não tão mal quanto isso - por ela. A sua obrigação, como a de todos os trabalhadores, em todas as funções, é fazerem a toda a hora o seu melhor. Nem sequer foi o caso! Muito gostamos nós de andar até à última, à rasquinha, de calças na mão e depois ficar contentes por nos safarmos!

Se não há motivo para festejar, com pompa e circustância?
Há pois! Muitos! Ganhámos!
Ganhámos uma coisa inegavelmente importante, porque o mundo é como é e, queiramos ou não, o futebol move milhões! Milhões de pessoas e de muitas outras coisas, Sobretudo dos que enchem os cofres. Moveu emoções nos quatro cantos do mundo. E se eu gosto de grandes banhos de boas emoções! É de vibrações assim, constantes e consistentes, que o Mundo precisa. Tanto como o peregrino, de água no deserto.

Mas nem só de futebol vive o homem e nem tudo o que reluz é ouro. E a falta de autoconsciência e de lucidez é o que nos mantém, para além destes, noutros campeonatos, na cauda da Europa.
Para se ser bom, para se ser o melhor, é preciso mais do que vontade de ganhar. Isso temos sempre todos! Os bons e os maus. É preciso partir sempre para ganhar. É preciso ter brio em querer ser o melhor a cada etapa. E nós, os portugueses de gema, como tão bem sabemos, somos peritos em procrastinar. A corda no pescoço,  que tanta vezes nos agita para a vida, é a mesma que na maioria dos casos acaba por, a longo prazo, nos estrangular. 

Haja festa, haja celebração e alarido. Haja multidões a aplaudir quem mereceu e muito ganhar uma final que só pode envergonhar os anfitriões da festa. Uma vitória moral teria sido a mais injusta possível. O mal nunca deve prevalecer contra o bem! É por isso que acredito no "efeito borboleta". Quando após o golpe sujo a que o capitão da equipa foi sujeito vi aquela borboleta aparecer - e só quem priva comigo sabe o que me apavoram e repugnam aquelas borboletas em concreto! - não tive a mais pequena dúvida da simbologia positiva que trazia consigo. Não tive, de imediato e por um segundo sequer, a mais pequena dúvida de que aquela imagem, aquele acontecimento, foram uma absoluta profecia. E não, não brinco. Acredito em absoluto nos sinais que a Vida envia e na forma subliminar como comunica com cada um. Haja capacidade e atenção para a leitura.

Ronaldo não era o único jogador em campo de todo o campeonato. Não é o melhor do mundo só por marcar bons golos e menos ainda um herói da história nacional, só por ser um futebolista bem sucedido. Isso é o que se espera dele. Dos Heróis, até revisão do conceito, exige-se, espera-se, capacidade de superação e atos de bravura. Não é o caso, por muito bem que nos entretenha.
Mas o valor que tem, no que representa e à escala do que faz, tornam-no mais do que merecedor da taça que ontem ergueu. Foi também e muito por ele que ontem uma boa parte dos portugueses espumaram com o freio nos dentes, contra uns franceses mais chauvinistas que nunca! Foi acima de tudo por ele que ao longo da noite generosamente proferi o melhor vernáculo, próprio de uma costela portuense que nunca tive. Foi muito por ele que fui assobiar como doida para a janela, depois do apito final!

Ontem Portugal marcou pontos na história de futebol. Para o bem e para o mal, a minha moral da história é esta:

"O bater de asas de uma borboleta pode desencadear uma tempestade do outro lado do mundo"

Num oceano de más ondas, basta uma gota.