este lugar não é sempre cor de rosa, por aqui não há sempre sol e nem tudo são flores.
também há dias cinzentos, chuva, cardos e urtigas.
é tudo isso que o faz uma boa parte de mim.

1.3.15

Descobrir a Tapada da Ajuda


São demasiadas as vezes em que, encavalitados nos dias ou com desculpas pouco consistentes, vamos adiando conhecer ou dedicar-nos ao que está perto. A distância, como o tempo, são excelentes bodes expiatórios das nossas sucessivas ausências, umas mais graves do que outras, mas nem por isso menos importantes na hora de pensarmos o que queremos e do que gostamos realmente na vida, sobretudo no momento de definir prioridades. Empurrados por ventos e brisas de outros compromissos, vamos a maioria das vezes reajustando para o fim da lista desejos, projetos, tarefas, pessoas, tantas e tantas vezes mais importantes e recompensadoras do que o que mantemos no topo. Na esmagadora parte das situações, este efeito bola de neve tem menos a ver com as imposições exteriores ou com circunstâncias que nos condicionam do que com a nossa inércia e força de vontade. «Para a semana», «no mês que vem e que está quase a começar», «quando o tempo melhorar», «quando estiver de férias», «quando me deitar cedo para não me levantar tão tarde», são apenas desculpas, esfarrapadas desculpas para não fazer hoje e já seja o que for. Sabemos. É claro que sabemos. A questão está em contrariar a tendência instalada, deitar mãos à obra e realizar.

Vem tudo isto a propósito de eu, como tantas outras pessoas, ser vítima deste mesmo processo. Apesar de tudo, por não me rever nele e por estar consciente que só de mim depende fazer de forma diferente, empenho-me em contrariá-lo. Os que me conhecem de perto sabem que sou recorrentemente uma desafiadora neste sentido. Idealizo, projeto, marco o alvo e disparo. Raramente perco muito tempo no intervalo, até porque não tenho nem paciência nem feitio para andar para trás e para a frente, refém do mesmo sítio ou de objetivos que não passem de projeções. Sei que a vida não pára, não espera, simplesmente acontece. Resta-nos escolher de que lado queremos vivê-la.
Mas ainda que seja assim, algumas vezes, em nome da disciplina, tenho de tomar medidas de força comigo mesma. Foi o que fiz no inicio deste ano ao reservar doze folhas do bloco que sempre me acompanha para nele registar alguns pontos que, mensalmente, me propus cumprir. Um deles foi, precisamente, conhecer um lugar novo por mês. É preciso muito dinheiro, muito tempo, muito planeamento? Não. É preciso dar valor à vida e aos dias e fazer prevalecer a vontade, fazendo ouvidos de mercador às incontáveis desculpas possíveis para continuar a adiar o que quer que seja.

Fevereiro terminava e, mais uma vez, os dias foram passando, espartilhados em mil compromissos, numa mão cheia de rotinas, apagados por dias cinzentos e desaconchegados pelo frio. Mas veio sol. E veio a necessidade imperativa de fazer uma pausa para pensar ainda mais e melhor sobre as obrigações, os compromissos, a agenda, a necessidade de ganhar distanciamento sobre os assuntos para os ver melhor e com mais transparência. Porque as pausas são a maioria das vezes falsos momentos de ócio. Parar é a maioria das vezes deixar um espaço real para escutar em alta fidelidade o que andamos a fazer e o que podemos otimizar. Parar é expirar para poder inspirar. Depois de  uma pausa respira-se sempre melhor.

Fevereiro foi o mês em que eu, nascida e criada em Lisboa há 44 anos, conheci pela primeira vez a Tapada da Ajuda. Não seria - nem será - um marco determinante na minha vida mas, sendo um desejo que há tanto tempo tinha, não havia razão rigorosamente nenhuma para, até hoje, ainda não o ter feito. E não deixei que Fevereiro me escapasse por entre os dedos sem uma visita.

Com uma área de cerca de 100 hectares, a Tapada ganhou fama com as caçadas aos coelhos que a família real promovia e uma maior importância quando D. José I mudou a residência real para a Ajuda. 
Como espaço verde lisboeta surgiu no começo da Dinastia de Bragança, em 1645, e nessa altura era conhecido como Tapada de Alcântara. Para aproveitar as suas terras aí nasceram diversas plantações. Searas, olivais, vinhas, pomares e hortas, tudo ali coexistia, aumentando a área cultivada com a extinção da caça, em 1841. Em 1861  ganhou a presença do Observatório Astronómico da Ajuda. Mais tarde, por ocasião da 3ª Exposição Agrícola Nacional, D. Luís mandou construir o Pavilhão de Exposições, da autoria de Pedro de Ávila, também conhecido por Pavilhão de Caça. Depois, em 1917 foi a vez de ali se instalar o Instituto Superior de Agronomia, hoje em dia, a entidade que gere todo o seu vasto e valioso património vegetal.

Como não sabia exatamente ao que ia, a primeira visita, tendo sido expressiva, foi curta para descobrir tudo o que o espaço proporciona. A sensação mais marcante foi a de que, a dado momento, estava completamente esquecida de onde estava, de tal forma nos isola da cidade em que está mergulhada. Não fosse o tejo e a ponte que de alguns pontos se avista e o constante tráfego dos aviões que ali passam em fim de rota, seria fácil acreditar que estava no campo profundo. Mas nem tudo foi bom. Descobrir recantos peculiares e edificios bonitos e ao mesmo tempo ver tanto património largamente sub aproveitado, muito dele verdadeiramente devotado ao abandono, é triste. Mais do que triste, absolutamente incompreensível. Num país em que tanto se apela ao empreendedorismo em que tanta falta de dinheiro se reclama é impensável ter tanto espaço e património devotados ao esquecimento. Pela sua longevidade, história, envolvente e potencial, a Tapada da Ajuda merecia e merece melhor destino. Haja luz. E haja vontade! Por mim vou certamente voltar, com mais tempo.

28.2.15

⌠ Fevereiro ⌡

Depois de Janeiro, o mês rejeitado, aquele que quase todos desejam ver passar depressa e de olhos fechados, chegas tu, Fevereiro, mês aparentemente mais promissor. Depositam-se em ti os desejos e compromissos de,  no desfiar dos teus dias, fazer o que habitualmente se culpa o teu antecessor por não ter conseguido fazer. Por seres mais curto, por seres o mês a um passo da Primavera, por seres uma espécie de alívio ao seres o mês segundo, aquele que finalmente parece instalar as rotinas no calendário corrente, tudo parece mais leve. Mas ao atropelo da fórmula que todos idealizam, a vida corre como corre, e os teus vinte e oito ou vinte e nove dias são exatamente o mesmo que os trinta ou trinta e um dos teus onze irmãos. Não são eles ou o tempo que faz, nem o sol que brilha, nem os pássaros que cantam mais forte enquanto as flores e folhas renascem, que mudam o que somos e o que fazemos. De repente, de mês-promessa passas a mês-espanto. Passas. «Passaste tão depressa!», diz toda a gente, como se o mundo, a sua rota e a sua vertigem como já há tanto o conhecemos fossem uma novidade. Vinte e oito dias são muitos dias, Fevereiro. Não és tu que te apressas, são as pessoas que te facilitam e que te negligenciam. São as pessoas que se distraem de espremer o sumo dos dias, o néctar de vida que cada um renova, sem olhar para o calendário. 
Segue, Fevereiro, vai em paz, não olhes para trás. Tu fizeste a tua parte. Até para o ano!


8.2.15

Hoje há...


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~✼~ Panquecas Americanas com Geleia de Alecrim, Mirtilos e Flor de Malva Roxa ~✼~

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31.1.15

⌠ Janeiro ⌡

Creio não exagerar se disser que Janeiro é provavelmente o mês mais mal amado do calendário.
No dia 31 de Dezembro estamos todos fartos, queremos mandar embora o que não foi bom e o que nos desgastou, queremos celebrar o que nos fez bem e o que nos marcou e mudou para melhor. Tudo com festa, pompa, circunstância e chave de ouro. Erguem-se as taças, comem-se as passas, deitam-se os foguetes e apanham-se a canas. A festa acaba. E depois? Depois vem a ressaca, não a do alcool, que essa evapora depressa, mas a de que tudo ficou com era, que, afinal, mudado o calendário, transposta a porta de um novo ano, para além dessa aparente rutura, nada mudou, nada se transformou, num passe de mágica juntamente com as luzes do fogo de artificio, o frissom do champanhe e o glitter do glamour da derradeira noite.
Janeiro é um mês com tanto de sedutor como de enganador. Traz o frio maior, tantas vezes a chuva que persiste, que não desiste, embrulhada em dias cinzentos, tristes, pardacentos, dias que nos derrotam à partida, por muito que nos empenhemos em gostar de todos, mesmo os que não nos sorriem mal nos levantamos da cama. Janeiro é um mês amuado, resmungão, mal disposto, consigo e com os outros. Janeiro parece atacado da frustração de não ter uma varinha de condão para mudar o seu próprio triste destino, de logo à nascença não gostarem muito de si e o culparem de tudo. Janeiro enruga-nos a pele e só nos faz suspirar pelo sal do Verão. Depois, sedutor, tem dias em que se envolve de charme, em que puxa para si o astro-rei como se o comandasse por cordéis. Marioneta nas suas mãos, o sol brilha, aquece e convida-nos a acreditar que fica, que afinal quase tudo o que traçámos para o nosso novo caminho é tangível, já ali, ao virar da esquina. Mas não. Janeiro tem a chancela da hibernação, do estado aparentemente letárgico da vida, em que nada parece acontecer, em que nada se faz ou ilumina, a não ser por efémeros instantes. Janeiro é desconcertante, sobretudo para quem espera que ele faça por si só o que não temos paciência, força ou fé para fazer acontecer. Janeiro castra, sobretudo quando semeando não temos paciência para perceber que só germinando a semente pode crescer. Janeiro deixa-nos carentes mas a maioria das vezes é implacável e nega-nos o colo. Em Janeiro temos de aprender a enfrentar os medos sozinhos e a temos de ser mais fortes. Janeiro tem um feitio dificil para quem não percebe as identidades nostálgicas e guerreiras, como a sua. Por ser o primeiro, Janeiro é o mais velho dos meses. Há que saber compreende-lo, como se compreende a um Sábio. Janeiro comunica connosco por parábolas complexas mas ricas. Ricas em ensinamentos e em fermento. O fermento de que é feita a vida. Do tempo que é necessário para levedar, sabem as árvores. Se não gostam de Janeiro, observem-nas. Têm discretos recados nas pontas dos dedos. Escutem-nas. Mesmo estando expostas e nuas elas sabem que Janeiro termina. Que Janeiro, como tudo na vida, tem principio, meio e fim. E que não é o fim do mundo.

Descer ao vale encantado*


... e fazer um piquenique

*Covão da Ponte | Vale da Castanheira | Manteigas