este lugar não é sempre cor de rosa, por aqui não há sempre sol e nem tudo são flores.
também há dias cinzentos, chuva, cardos e urtigas.
é tudo isso que o faz uma boa parte de mim.


1.9.14

Regressar


« Lisboa está quase regressada e as artérias da cidade engrossam de sangue renovado. Uma transfusão de gente e de humores. Lentamente, a compasso tímido e ainda enamorado das férias recém acabadas, recompõe-se a arrumação desordenada do quotidiano. A eterna rotina, que nos vicia e quase nos encanta.
Apesar da nostalgia do fim do período estival, há sempre a magia do reencontro. Rostos de cobre. Restos de sol e de sal. Nos cabelos e nos sorrisos que ainda nos permitimos trocar quando o cansaço das horas repetidas sem nexo ainda não tomou definitivamente conta de nós.
Só Julho e Agosto nos permitem progredir no trânsito sem ter de vigiar inconscientes cada minuto, que o nosso relógio contabiliza em défice cobrando em excesso ao nosso ritmo cardíaco.
O quase Setembro reporá o conta-gotas do tempo. A ampulheta dos dias mal consumidos, espartilhados pelos horários inconscientes que criámos para nós. 
Em breve, as horas anoitecerão mais cedo e as ruas estarão inebriadas de castanha assada»



in Quando os Pardais Perdem o Medo

31.8.14

Agosto, o mês de todos os possíveis



Poucos meses serão tão democratica e transversalmente generosos como o mês de Agosto. 
Cada um de nós, ao longo da vida, tem, vai tendo, os seus meses preferidos. O do seu aniversário, o do nascimento dos filhos, o mês do começo, o mês do meio, o mês do fim. Janeiro, o arranque, um calendário a estrear, novinho em folha. Dezembro, o Natal, o fim de um ciclo. O mês-começo de cada estação e os seus ritos de passagem. Doze possibilidades diferentes a marcar o compasso interior de cada um de nós
A nossa relação com o tempo é afinal uma relação-âncora, uma relação onde nos resguardamos em memórias boas e construtivas. E construtoras. Um porto seguro onde atracamos sempre que necessitamos desenhar acordos, traçar objetivos, encher o peito de ar antes de seguir viagem.

Mas Agosto... Agosto é o mês onde tudo pára e, só por isso, Agosto é o mês que torna tudo possível. Mesmo que não se esteja de férias, mesmo que não se seja particularmente adepto de praia, de calor e até mesmo que não se goste particularmente dele, Agosto é, ainda assim, um mês generoso onde, por nós, ou por força dos que nos rodeiam, tudo abranda, tudo serena.
E num entanto, Agosto é o mês das grandes exaltações. Há mais pele, mais sol, mais sorrisos, mais tempo, mais disponibilidade, mais cumplicidade. Mais entrega.
Em Agosto salpicamo-nos de ócio, mergulhamos em bons momentos, demoramos os sentidos habitualmente desatentos ao que nos rodeia, somos mais connosco e somos mais com os outros.

Creio que não erro se disser que a maioria de nós gosta de Agosto, mas estou absolutamente certa de que não falho se disser que Agosto gosta muito de nós.
Agosto é o mês de todas as possibilidades. Antes ou depois, os meses que o antecedem ou precedem, também podem ser. Mas é Agosto que nos oferece generosamente o seu tempo e o seu coração, para pensarmos nisso.

Partes hoje, querido Agosto, e eu já estou cheia de saudades tuas. 
Obrigada por todo o tempo que passaste comigo! Prometo dar-lhe bom uso.

Crónica dos dias felizes V



- quase a dizer « adeus Agosto, olá Setembro!»

29.8.14

Dear M. [de Mulher] *


Dormes e o teu sono é igual ao que o teu sono sempre foi. Profundo. Sereno. O mundo a poder desabar e tu lá, no teu sono profundo. Inabalável. Em paz. Mas hoje medes todo o sofá, toda a cama tem o teu tamanho certo. Milimétrico. Cresceste.

Cresces. Todos os dias te vejo crescer. Soletras agora todas as letras da maior palavra da vida. A única palavra que salva. A que tudo conhece e tudo cura.
A M O R.
Conheces de cor o som de cada vogal que transporta. A dimensão de cada consoante. As pontes a uni-las. Mãos dadas. A descoberta boa da vida. Tudo tão depressa e tão devagar. É afinal isto, a imensidão finita da adolescência. Tudo eterno num minuto.
Tens o mesmo sorriso de sempre. Doce. Irrequieto. Desafiante. Sereno. E esse brilho. Essa luz, tão tua.

Dormes e o teu sono é igual ao que o teu sono sempre foi. Igual àquele que fiquei a olhar, a ver, a descobrir, a desvendar, nas tuas primeiras horas de vida. És a mesma... e estás tão crescida, filha. Que bom! Que boa é esta viagem contigo!


* for next Vogue Edition ;)

22.8.14

Silêncio*


O silêncio é uma cor. 
Preto. A cor mais escura do espectro. A ausência de luz. A junção de todas as cores. Aquela que absorve todos os raios luminosos e não reflete nenhum. O luto do ocidente.
Branco. A junção de todas as cores do espectro de cores. A cor da luz. Aquela que reflete todos os raios luminosos e que por não absorver nenhum revela a clareza máxima. O luto do oriente.

O silêncio é uma cor.
Preto. Negro. Carregado de dúvidas. O som do medo. O mundo inteiro apagado. Só um ruído ensurdecedor a rasgar as entranhas. O silêncio onde só se escutam palavras obscuras. Mudas. A gritar de dor.
Branco. Luminoso. Pleno de leveza. A vida a acontecer, devagarinho, dentro de nós. O sabor das coisas pequenas, minúsculas que no silêncio ficam maiores. Gigantes. Todas as nuances da vida a habitarem-nos. O mundo a acontecer, por dentro e por fora. A descoberta e seu o sabor.

O silêncio é uma cor. E uma porta.
Se o abrirmos para escutar a vida, liberta. Se o fecharmos sobre nós, encarcera. 
Somos o somatório de todos os silêncios que nos visitam. Mas somos nós que escolhemos aquele que nos habita. A cor que define quem somos.


*white is a beautiful place, to live & love

20.8.14

Crónica dos dias felizes III


- temperados com outro sal -

O Senhor das Andorinhas


Não me recordo como se chamava. Não retive. Apesar de tudo, acho que nenhum nome lhe fica melhor do que O Senhor das Andorinhas.
As festas de Tavira na rua. O mercado de artesanato alinhado na praça. O coreto a meio e ao fundo o antigo Mercado da cidade.
Em escala real, ninhos esculpidos no barro, habitados por crias, ora curiosas, ora suplicantes. Bicos abertos evocando os pais. Soube que era aquele presente que este Verão queria oferecer aos meus.
Na banca, um Senhor sorridente. Apeteceu-me roubar-lhe um bocadinho da sua história e ele consentiu.
Nunca fora artesão, até há 18 anos atrás. Ninguém, nas suas raízes o fora. Não sabia nada da arte de moldar o barro. Vivia mergulhado na informática, nas horas que se consomem num trabalho que realiza mas aliena do resto. Corria atrás do tempo dos outros, na virtualidade de um tempo seu que não o fazia feliz. Um dia, consciente, fechou a porta. Foi assim que o barro da vida que desejava se moldou. Com mais trabalho, com mais dúvidas, com mais incertezas - das outras, das financeiras - mas com uma qualidade de vida de que nunca se arrependeu.
Se outra dúvida existisse, o sorriso, honesto, rasgado, iluminado, foi a chancela.

E as andorinhas... as andorinhas são uma nobre e especial ave. Elegantes, bonitas, felizes. Por muitas milhas que façam, voltam sempre ao mesmo ninho, com o mesmo par, ao longo da vida. Sabem sempre, sempre, o caminho de regresso a casa. Por isso os marinheiros as tatuavam nos braços.
E eu, que sempre disse e digo que nunca farei uma tatuagem - nunca digas nunca, nesta vida! - sei que se alguma vez a fizesse seria o voo de uma pequena e discreta andorinha, símbolo da rota certa e da família, que desenharia na pele.