este lugar não é sempre cor de rosa, por aqui não há sempre sol e nem tudo são flores.
também há dias cinzentos, chuva, cardos e urtigas.
é tudo isso que o faz uma boa parte de mim.

20.3.15

Açúcar e Amores-Perfeitos


Sou uma apaixonada pela vida e sou uma apaixonada por muitas coisas na vida. 
A partilha de momentos com aqueles que me são importantes, pensar e cuidar dos detalhes em quase tudo o que faço, mergulhar na natureza tão frequentemente quanto possível, fotografar quase tudo o que rodeia e encanta, escrever e cozinhar são sem duvidas das coisas que mais me apaixonam, mais me completam e mais feliz me fazem. 
Costumo dizer que o tempo, ou a falta dele, não é desculpa para nada. Somos nós que a maioria das vezes nos enredamos na própria teia que criamos ao nosso redor, quando queremos chegar a tudo e a todos, quando não sabemos priorizar, quando não sabemos hierarquizar ou até mesmo quando não sabemos dizer "não". Mas a verdade é que nem sempre é fácil. E menos fácil é quando somos apaixonados por coisas que para serem vividas em pleno não podem estar contaminadas por timings e pressões. 
Vem tudo isto a propósito de as partilhas por aqui serem cada vez mais espaçadas, de não visitar os blogues de outras pessoas que sigo há anos e de quem gosto, há um ror de tempo. De não responder sequer aos poucos comentários que algumas almas queridas vão deixando por aqui, de vez em quando. De ser cada vez mais difícil encontrar tempo para redigir umas linhas, sobretudo quando cada vez mais passo uma boa parte dos meus dias a escrever. E tenho saudades. Mas é precisamente porque o pouco tempo que me sobra é cada vez mais direcionado para estar mais perto das outras coisas e pessoas de quem gosto - e mesmo aí me sentir tantas vezes em deficit - que estou por aqui menos vezes. Valha-me a boa ideia de ter criado uma página de FB para este blogue, que me permite a partilha e comunicação diária que tanto gosto me dá!

Este bolo foi feito há quase uma semana. Foi o bolo de aniversário tardio da minha mãe e a receita não podia ter sido mais bem escolhida. O sucesso foi enorme porque a frescura da textura e dos sabores que propõe é absolutamente sublime. Não guardo segredo, a receita é esta, do não menos delicioso blogue Sweet Gula.
E as flores? Bom, as flores, como muitos sabem, são sempre uma parte importante na minha vida. Estas tive o privilégio de as descobrir na última edição do Mercado Gourmet do Campo Pequeno e são da Ervas Finas - segredos que se comem.

Afinal de contas, o que seria da nossa vida sem açúcar e amores-perfeitos, para equilibrar os dias que nos fogem?

7.3.15

Quase Primavera no Jardim da Estrela

 

Revisitar hoje o Jardim da Estrela foi reencontrar o melhor dos espíritos de uma população urbana que há muito parecia divorciada dos seus parques. Mesmo não esquecendo que a temperatura verdadeiramente primaveril e o mercado crafts&design que ali decorria pudessem ser um forte contributo para o numero de pessoas que desfrutavam do espaço, a verdade é que no ambiente reinante todos os gestos pareciam ser já demasiado familiares. Por momentos, e pelas melhores razões, éramos facilmente transportados para um qualquer país anglo saxónico, com direito a dezenas de piqueniques no relvado, crianças a brincar livremente, uma população vibrante a aproveitar uma pausa de natureza bem no coração da cidade. É tão bom pensar que ainda há esperança!

Tão bom quanto este cenário foi reencontrar uma pessoa especial, que tive a felicidade de conhecer no final do ano passado, a talentosa Sandra Casaca, de quem tenho uma das peças mais peculiares no meu largo espólio de fainças, a taça do meu 6.

O calor da tarde, o ar invadido ora de conversas de ténue tom, ora pelos sonoros risos das crianças. Os lagos, os patos, os pássaros e a vida que se renova por todos os poros da natureza. Caminhos entrecortados por árvores seculares e estátuas que parecem espreguiçar-se languidamente e rir-se da nossa presença. Um bocadinho de paz num bocadinho de verde. Precisamos de muito mais para recuperar o fôlego de uma semana intensa?

1.3.15

Descobrir a Tapada da Ajuda


São demasiadas as vezes em que, encavalitados nos dias ou com desculpas pouco consistentes, vamos adiando conhecer ou dedicar-nos ao que está perto. A distância, como o tempo, são excelentes bodes expiatórios das nossas sucessivas ausências, umas mais graves do que outras, mas nem por isso menos importantes na hora de pensarmos o que queremos e do que gostamos realmente na vida, sobretudo no momento de definir prioridades. Empurrados por ventos e brisas de outros compromissos, vamos a maioria das vezes reajustando para o fim da lista desejos, projetos, tarefas, pessoas, tantas e tantas vezes mais importantes e recompensadoras do que o que mantemos no topo. Na esmagadora parte das situações, este efeito bola de neve tem menos a ver com as imposições exteriores ou com circunstâncias que nos condicionam do que com a nossa inércia e força de vontade. «Para a semana», «no mês que vem e que está quase a começar», «quando o tempo melhorar», «quando estiver de férias», «quando me deitar cedo para não me levantar tão tarde», são apenas desculpas, esfarrapadas desculpas para não fazer hoje e já seja o que for. Sabemos. É claro que sabemos. A questão está em contrariar a tendência instalada, deitar mãos à obra e realizar.

Vem tudo isto a propósito de eu, como tantas outras pessoas, ser vítima deste mesmo processo. Apesar de tudo, por não me rever nele e por estar consciente que só de mim depende fazer de forma diferente, empenho-me em contrariá-lo. Os que me conhecem de perto sabem que sou recorrentemente uma desafiadora neste sentido. Idealizo, projeto, marco o alvo e disparo. Raramente perco muito tempo no intervalo, até porque não tenho nem paciência nem feitio para andar para trás e para a frente, refém do mesmo sítio ou de objetivos que não passem de projeções. Sei que a vida não pára, não espera, simplesmente acontece. Resta-nos escolher de que lado queremos vivê-la.
Mas ainda que seja assim, algumas vezes, em nome da disciplina, tenho de tomar medidas de força comigo mesma. Foi o que fiz no inicio deste ano ao reservar doze folhas do bloco que sempre me acompanha para nele registar alguns pontos que, mensalmente, me propus cumprir. Um deles foi, precisamente, conhecer um lugar novo por mês. É preciso muito dinheiro, muito tempo, muito planeamento? Não. É preciso dar valor à vida e aos dias e fazer prevalecer a vontade, fazendo ouvidos de mercador às incontáveis desculpas possíveis para continuar a adiar o que quer que seja.

Fevereiro terminava e, mais uma vez, os dias foram passando, espartilhados em mil compromissos, numa mão cheia de rotinas, apagados por dias cinzentos e desaconchegados pelo frio. Mas veio sol. E veio a necessidade imperativa de fazer uma pausa para pensar ainda mais e melhor sobre as obrigações, os compromissos, a agenda, a necessidade de ganhar distanciamento sobre os assuntos para os ver melhor e com mais transparência. Porque as pausas são a maioria das vezes falsos momentos de ócio. Parar é a maioria das vezes deixar um espaço real para escutar em alta fidelidade o que andamos a fazer e o que podemos otimizar. Parar é expirar para poder inspirar. Depois de  uma pausa respira-se sempre melhor.

Fevereiro foi o mês em que eu, nascida e criada em Lisboa há 44 anos, conheci pela primeira vez a Tapada da Ajuda. Não seria - nem será - um marco determinante na minha vida mas, sendo um desejo que há tanto tempo tinha, não havia razão rigorosamente nenhuma para, até hoje, ainda não o ter feito. E não deixei que Fevereiro me escapasse por entre os dedos sem uma visita.

Com uma área de cerca de 100 hectares, a Tapada ganhou fama com as caçadas aos coelhos que a família real promovia e uma maior importância quando D. José I mudou a residência real para a Ajuda. 
Como espaço verde lisboeta surgiu no começo da Dinastia de Bragança, em 1645, e nessa altura era conhecido como Tapada de Alcântara. Para aproveitar as suas terras aí nasceram diversas plantações. Searas, olivais, vinhas, pomares e hortas, tudo ali coexistia, aumentando a área cultivada com a extinção da caça, em 1841. Em 1861  ganhou a presença do Observatório Astronómico da Ajuda. Mais tarde, por ocasião da 3ª Exposição Agrícola Nacional, D. Luís mandou construir o Pavilhão de Exposições, da autoria de Pedro de Ávila, também conhecido por Pavilhão de Caça. Depois, em 1917 foi a vez de ali se instalar o Instituto Superior de Agronomia, hoje em dia, a entidade que gere todo o seu vasto e valioso património vegetal.

Como não sabia exatamente ao que ia, a primeira visita, tendo sido expressiva, foi curta para descobrir tudo o que o espaço proporciona. A sensação mais marcante foi a de que, a dado momento, estava completamente esquecida de onde estava, de tal forma nos isola da cidade em que está mergulhada. Não fosse o tejo e a ponte que de alguns pontos se avista e o constante tráfego dos aviões que ali passam em fim de rota, seria fácil acreditar que estava no campo profundo. Mas nem tudo foi bom. Descobrir recantos peculiares e edificios bonitos e ao mesmo tempo ver tanto património largamente sub aproveitado, muito dele verdadeiramente devotado ao abandono, é triste. Mais do que triste, absolutamente incompreensível. Num país em que tanto se apela ao empreendedorismo em que tanta falta de dinheiro se reclama é impensável ter tanto espaço e património devotados ao esquecimento. Pela sua longevidade, história, envolvente e potencial, a Tapada da Ajuda merecia e merece melhor destino. Haja luz. E haja vontade! Por mim vou certamente voltar, com mais tempo.