11.7.16

Não vou à bola com futebol mas acredito no efeito borboleta


De todos os desportos, o futebol é inquestionavelmente o que menos espírito desportista revela. As querelas clubísticas, os golpes palacianos de balneário, a corrupção instalada há muito e a céu aberto. Já para não falar na sarrafada. As claques escoltadas e separadas como curros são o melhor exemplo do que não se devia ver onde existe desporto. Mas há ainda a cereja em cima do bolo: ver, após um golo, os goleadores a correrem campo fora a empurrar os companheiros de equipa que os saúdam. Se isto não é individualismo e antítese de espírito de equipa, não sei o que será. Aparentemente, na glória, o balneário desgalvaniza-se.
Mas verdade seja dita, no que toca a futebol, sou assumidamente uma leiga. Tão leiga que se contam pelos dedos das mãos os jogos a que assisti. O de ontem deve corresponder ao anelar da mão esquerda. Sou destra. No sentido da contagem, tenho a dezena quase cumprida.

O facto de, pelas mais diversas razões, não apreciar futebol em nada impede o facto de lhe reconhecer a virtude de unir multidões em torno dele. E se para juntar amigos à volta de uma mesa tiver que haver taças importantes para ganhar, então que venham elas! Para mim já é um motivo mais do que suficiente.
Sobre o que ontem se passou há pouco ou nada mais a dizer. Muito além do que se possa escrever, as imagens falaram por si. No caso e em certa medida, infelizmente, falaram por uma larga fatia de um povo. Mas nem nesse aspeto há grande novidade, como sabemos. As minhas cogitações são mais outras, ainda que sejam repetentes.

Somos os Maiores e os Melhores do Mundo por ganharmos a final da Liga Europa? 
A mesma Liga Europa onde nos arrastámos de quase derrota em quase derrota, até à vitória final? A mesma Liga Europa onde, em determinado jogo, vencemos com a mesma aritmética técnica que fez de Costa o Primeiro Ministro que ontem aplaudiu o resultado em Paris? Palavra de honra que os que nos torna tão bons e tão grandes é chegar a algum lado porque os outros fazem pior do que nós? 
Fui só eu que ouvi meio Portugal a insultar jogadores e treinador até passarmos às meias finais?

Unidos? Os portugueses são tudo e tudo podem porque são unidos? Brincais, senhores?
Somos unidos no pronúncio de vitórias? Unimo-nos na hora de cantar de galo? Um povo unido permite que um país seja há décadas desfalcado por políticos e banqueiros em total impunidade?... A noção de união dos portugueses tem por mote "mines das pequenas" e tremoços?
Sobre União: é pôr os olhos na Islândia, se faz favor.

Os jogadores da Seleção Nacional são heróis por ganharem a final de um campeonato?
Se para ser patriota tiver que dizer uma coisa dessas sou certamente a cidadã menos patriota de Portugal! Ou então o significado de Herói mudou no dicionário e não dei conta.
Chamem-me demagoga, mas para mim heróis deste país são, entre outros, os bombeiros que apagam fogos sem meios, os médicos e enfermeiros do sistema nacional de saúde que trabalham sem recursos, os padeiros, os empregados de mesa e os licenciados em cadeiras de call centers que ganham o ordenado mínimo e tentam governar a sua vida e das suas familias! 
Os jogadores da Seleção Nacional são trabalhadores, têm uma profissão e ganham - não tão mal quanto isso - por ela. A sua obrigação, como a de todos os trabalhadores, em todas as funções, é fazerem a toda a hora o seu melhor. Nem sequer foi o caso! Muito gostamos nós de andar até à última, à rasquinha, de calças na mão e depois ficar contentes por nos safarmos!

Se não há motivo para festejar, com pompa e circustância?
Há pois! Muitos! Ganhámos!
Ganhámos uma coisa inegavelmente importante, porque o mundo é como é e, queiramos ou não, o futebol move milhões! Milhões de pessoas e de muitas outras coisas, Sobretudo dos que enchem os cofres. Moveu emoções nos quatro cantos do mundo. E se eu gosto de grandes banhos de boas emoções! É de vibrações assim, constantes e consistentes, que o Mundo precisa. Tanto como o peregrino, de água no deserto.

Mas nem só de futebol vive o homem e nem tudo o que reluz é ouro. E a falta de autoconsciência e de lucidez é o que nos mantém, para além destes, noutros campeonatos, na cauda da Europa.
Para se ser bom, para se ser o melhor, é preciso mais do que vontade de ganhar. Isso temos sempre todos! Os bons e os maus. É preciso partir sempre para ganhar. É preciso ter brio em querer ser o melhor a cada etapa. E nós, os portugueses de gema, como tão bem sabemos, somos peritos em procrastinar. A corda no pescoço,  que tanta vezes nos agita para a vida, é a mesma que na maioria dos casos acaba por, a longo prazo, nos estrangular. 

Haja festa, haja celebração e alarido. Haja multidões a aplaudir quem mereceu e muito ganhar uma final que só pode envergonhar os anfitriões da festa. Uma vitória moral teria sido a mais injusta possível. O mal nunca deve prevalecer contra o bem! É por isso que acredito no "efeito borboleta". Quando após o golpe sujo a que o capitão da equipa foi sujeito vi aquela borboleta aparecer - e só quem priva comigo sabe o que me apavoram e repugnam aquelas borboletas em concreto! - não tive a mais pequena dúvida da simbologia positiva que trazia consigo. Não tive, de imediato e por um segundo sequer, a mais pequena dúvida de que aquela imagem, aquele acontecimento, foram uma absoluta profecia. E não, não brinco. Acredito em absoluto nos sinais que a Vida envia e na forma subliminar como comunica com cada um. Haja capacidade e atenção para a leitura.

Ronaldo não era o único jogador em campo de todo o campeonato. Não é o melhor do mundo só por marcar bons golos e menos ainda um herói da história nacional, só por ser um futebolista bem sucedido. Isso é o que se espera dele. Dos Heróis, até revisão do conceito, exige-se, espera-se, capacidade de superação e atos de bravura. Não é o caso, por muito bem que nos entretenha.
Mas o valor que tem, no que representa e à escala do que faz, tornam-no mais do que merecedor da taça que ontem ergueu. Foi também e muito por ele que ontem uma boa parte dos portugueses espumaram com o freio nos dentes, contra uns franceses mais chauvinistas que nunca! Foi acima de tudo por ele que ao longo da noite generosamente proferi o melhor vernáculo, próprio de uma costela portuense que nunca tive. Foi muito por ele que fui assobiar como doida para a janela, depois do apito final!

Ontem Portugal marcou pontos na história de futebol. Para o bem e para o mal, a minha moral da história é esta:

"O bater de asas de uma borboleta pode desencadear uma tempestade do outro lado do mundo"

Num oceano de más ondas, basta uma gota.












6.7.16

Project#6 | Ana Fernandes ✩ Menina da Rádio e Caçadora de Sóis

Conhecemo-nos há mais de 20 anos e foi só nesta conversa que fiquei a saber a forma imprevista como chegou ao ponto em que a conheci. Mais uma vez se comprova que as pessoas, mesmo as que já conhecemos há muito tempo, são um mundo eternamente por descobrir. 
De certa forma, ambas crescemos nos bastidores da rádio. Foi como colega da minha mãe que chegou até a mim, apesar dos anos que as separam.

Somos ambas filhas do Inverno, mulheres de Janeiro, Capricornianas puras, até nos vincos do ascendente. Workaholics por missão e devoção. Contemplativas dos silêncios da vida. Espeleologistas de almas. Em pequenas, ambas sonhávamos fazer programas sobre a natureza, quando crescêssemos. A mim, era "O Homem e a Terra" que me colava ao ecrã. 

Se pudéssemos ter escolhido o lugar para esta conversa teria sido o nosso sul. Tavira é mais uma das paixões comuns. Com a distância a ditar a condição, raptei-a numa tarde da sua segunda casa e fugimos até ao sol da Caparica. O resto... o resto é tudo o que se segue.

Ana Fernandes trabalha na RTP (antiga RDP) há mais de 20 anos... Neste dia confirmei, mais uma vez, que a vida é Sábia a trocar-nos as voltas. Basta estarmos atentos. Basta saber ouvir.





Ana, quando é que descobriste que a rádio era a tua praia?

Não foi uma espécie de epifania... A rádio sempre fez parte da minha vida, da minha identidade. O meu pai era jornalista da rádio. Se eu procurar nas memórias mais antigas lembro–me (e é um clássico, mas completamente verdadeiro) de desmontar os rádios a pilhas lá de casa. Estava totalmente convencida que viviam lá dentro uns pequenos liliputianos... e que o pai se transformava misteriosamente num deles quando saía de casa para ir trabalhar! (risos)

Mais tarde, fui muitas vezes, à Rua do Quelhas, onde nós as duas nos conhecemos. Adorava aquilo! O charme daquela casa da rádio, o diospireiro maravilhoso que vivia num pequeno pátio interior, ver o rio cá de cima, quando descia aquela rua íngreme...

Mais velha decidi que iria estudar Biologia, porque podia juntar duas paixões : o mar e os mamíferos aquáticos. Mas o curso foi uma enorme desilusão, demasiado teórico, sem grandes saídas a não ser dar aulas... Entretanto o meu pai adoeceu e morreu em pouco mais de um ano. Eu fui arrumar o gabinete dele, trazer as coisas. O diretor de informação da altura, o Carlos Mendes, foi conversar comigo, disse-me que estavam a precisar de sangue novo, de renovar a redação, se eu estaria disponível para experimentar... Sem pensar, disse-lhe imediatamente que sim! A paixão já lá estava, embora adormecida. E acabou por ser também uma espécie de terapia do luto, uma forma de me reconciliar com a memória do meu pai.




Imaginas-te a fazer outra coisa? Tens pena de ter deixado a tua vocação inicial para trás ou achas que os astros conspiraram mesmo a teu favor, para te colocar no verdadeiro caminho profissional? 

Não! 
Mesmo às vezes, quando estou aborrecida com alguma coisa ( e os últimos tempos não têm sido fáceis, a rádio é um microcosmos do resto do país e do mundo)… Não sei se foram os astros, mas não tenho nenhuma dúvida de que este é o meu caminho.




A rádio já foi importantíssima na vida das pessoas. Creio que não erro se disser que até mais do que a televisão. Durante muitos anos foi mais democrática, por ser mais acessível a quem não tinha muito dinheiro. Não vou sequer recuar há 60 anos atrás, para o sentido desta pergunta mas... desde que começaste a trabalhar neste meio de comunicação, notas muitas diferenças no comportamento da audiência? O que é que as pessoas esperam da rádio, hoje em dia? (é que eu, como leiga, sinto que a maioria das rádios se transformaram em pouco mais do que uma playlist). 

Ui! Acho que querem o que sempre quiseram: informação e entretenimento, momentos de descompressão … A rádio é rigor mas também emoção, afeto e empatia. O Mundo tem muitos tons, não é (felizmente!) a preto e branco. Quanto às playlist... bom, o zapping também é parte integrante da relação dos ouvintes com a rádio... Há muita coisa boa para ouvir na rádio, muitos programas de autor , que não são sujeitos à ditadura da playlist. Eu tenho sempre a rádio ligada. É a primeira coisa que faço quando acordo e a ultima, antes de ir dormir. Com o som mais baixo ou mais alto... está lá sempre. A rádio não exige exclusividade, permite fazer outras coisas ao mesmo tempo. 

Vou contar um episódio que aconteceu há uns meses. Quando o Portugalex ( o magazine humorístico da Antena 1 e 3 baseado na atualidade) fez dez anos, fizemos uma emissão especial, ao vivo, no Auditório da Escola Superior de Comunicação Social. Depois de acabar, quando estávamos a desmontar o equipamento, um dos professores que estava presente na sala veio contar-nos que se tinha cruzado com um ouvinte muito especial. O Sérgio, invisual, que mora na Amadora e que saiu do seu "aquário", do seu espaço de conforto, para ir assistir ao vivo à nossa emissão. Andou de comboio e fez um percurso que nunca tinha feito... por causa da rádio. Quero, queremos muito encontrar o Sérgio, de quem só sabemos isto.

Achas que a rádio mantém um lugar no futuro? 

Claro que sim! A rádio está mais portátil , quase todos os programas estão em podcast, à distância de um click. Pode escutar-se onde e quando se quiser, na plataforma que se quiser. Através da net e dos podcasts, muito do que se faz na rádio continua disponível depois da primeira emissão. Um exemplo recente: o relato do Nuno Matos e Alexandre Afonso, do penalti decisivo da seleção portuguesa no jogo com a Polónia, já deu à volta ao Mundo! É possível conceber novos programas e novas rubricas indo ao encontro das obrigações do serviço público, ter boas ideias e pôr mãos à obra, há espaço para a criatividade, para a irreverência, para a classe, para a magia. A rádio continua a ser essencial para ajudar-nos a entender um pouco melhor as encruzilhadas do mundo. Há tanto Mundo para descobrir e contar... Com liberdade e responsabilidade.



E em termos de mercado de trabalho, há muita malta nova a entrar nas ondas da rádio ou, para quem escolhe a comunicação social, a rádio é só um ponto de passagem, a caminho da televisão ou dos jornais? 

Hummm... Não há muita malta nova a entrar porque o mercado de trabalho está praticamente parado.... Quanto à rádio ser só um ponto de passagem...não quero generalizar, as generalizações são sempre algo injustas... Acho que há um pouco de tudo. Mas há uma coisa de que tenho a certeza: mesmo quem parte para outros meios, depois de experimentar a rádio, fica sempre com o "bichinho"!



Começaste por me revelar um facto que desconhecia em absoluto, acerca do teu percurso profissional, mas que no fundo tem tudo a ver com o outro lado que conheço de ti. Troca lá por miúdos, o que sonhavas fazer com a biologia? 

Desde miúda, era fascinada pelos documentários do Jacques Costeau, ficava presa às imagens daquele francês narigudo, de olhos azuis, nadando entre cardumes de peixe ou cercado por tubarões dentro de uma gaiola de ferro submersa... e foi crescendo comigo a ideia de que poderia ser uma espécie de Comandante Costeau de saias. O meu sonho era estudar os mamíferos aquáticos, as lontras e as focas, as baleias e golfinhos. Principalmente as baleias e os golfinhos que são animais socialmente conscientes, vivem em família e têm comportamentos tão complexos como, por exemplo, ensinar, cooperar e até chorar.




Que peso e significado tem a natureza, para ti? 

A natureza é... o meu pulmão externo. Sou uma pessoa de pessoas, sou cosmopolita, adoro a cidade, as cidades, não vivo sem livros, teatro, exposições, música, conversas, viagens... Mas preciso de momentos de solidão e preciso de escapadelas frequentes para longe disso tudo. Até no dia a dia, no trabalho, se estou bloqueada com falta de ideias, se sinto a angustia do papel em branco... nada melhor do que ir sentar-me com o computador num jardim, ou perto do mar. Funciona sempre.





Tens bicharada em casa. São adotados, foram comprados, oferecidos?...

Tenho uma gata e um cão, ambos adotados. A gata foi apanhada na rua, o cão foi adotado na União Zoófila. E tenho de me controlar para não levar mais bichos para casa. Sou incapaz de ficar indiferente ao sofrimento dos animais. 


 


Estamos numa altura do ano delicada para os pobres animais de companhia. Nem vale a pena perguntar-te o que achas do abandono de animais - mas podes falar, se quiseres! - mas pergunto-te: como costumas fazer com os teus, quando te ausentas de férias? Ou em trabalho, como acontece com frequência.

Acho o abandono de animais absolutamente odioso e revelador do caracter de quem o faz. O vinculo que se cria com um animal... o que eles nos ensinam, o afeto incondicional, a amizade, a solidariedade, a proteção, o consolo.... Os cães têm toda a ternura do Mundo no olhar. Os animais, em minha casa, são família. E tenho a sorte de ter uma família em que toda a gente gosta de animais. Costumamos organizar-nos para ficar sempre um de nós com eles. Mas já abdiquei de fins de semana fora ou já tive de alterar planos por causa da bicharada. Cá ainda vai demorar até se evoluir no sentido de permitir que os cães entrem ou estejam em determinados sítios, mesmo que sejam ao ar livre...

O que achas dos hotéis para animais? Já recorreste a algum?

Tenho amigos que já optaram pela solução do hotel para animais e correu bem. Eu, nunca recorri a nenhum por isso, confesso, não tenho opinião formada.




Enquanto falamos, estás farta de salvar estrelas do mar e caranguejos, trazidos pelas redes dos pescadores. Aparentemente, para muitos destes homens, a faina não é uma paixão, mas apenas um modo de vida. Se assim não fosse, devolviam ao mar estas preciosas vidas, apanhadas por infortúnio na rede que os alimenta. 
Como Capricorniana que és, nem te pergunto se gostas do teu trabalho! Mas o que é que te apaixona mais, no que fazes? 

Sou duplamente Capricorniana. Capricórnio com ascendente em Capricórnio! 
As pessoas. Sou, sem dúvida nenhuma, uma pessoa de pessoas. E acho mesmo (passe a imodéstia) que esse é o meu grande talento: a capacidade de criar empatia com as pessoas.




Apesar de teres nascido no coração do Inverno, és decididamente muito mais uma mulher do sol e do sal. Felizmente em Portugal não nos podemos queixar de falta dele. Mas se pudesses escolher outro país para viver, que país seria? O que te apaixona em concreto nesse lugar? 

Já pensei nisso várias vezes. Barcelona! É uma cidade de surpresas, em cada bairro, em cada rua, em cada esquina. As Ramblas, o Bairro Gótico, o Raval, a natureza, as montanhas, os parques e praias. A Cultura! Museus, galerias, obras de arte, design , obras de grandes arquitetos por todo o lado... Mas sobretudo a luz. Barcelona tem uma luz idêntica a Lisboa.


E em Portugal, se pudesses escolher outro lugar, continuavas a escolher Lisboa ou fugias daqui? 

Continuava a escolher Lisboa. Mas a pensar fugir com frequência (riso)




Por força da tua vida profissional já viajaste para destinos longínquos e com realidades de vida muito diferentes das nossas. Fala-me um pouco dessas experiências, do que mais te marcou e, inclusivamente, se mudou de alguma forma o teu olhar sobre o que te rodeia no dia a dia. 


Dava para um livro, Margarida. Ou vários... Mas vou escolher só um sitio e falar sobre ele. Talvez porque foi das experiencias mais difíceis e ao mesmo tempo mais gratificantes que já tive. Timor leste. Timor não é fácil, as condições de vida são duras, é uma realidade totalmente diferente da nossa. Se me permites, vou reeditar aqui um texto que escrevi em Maio, no dia do aniversário da Independência. Está lá tudo: Fui a Timor e mudei. 

A viagem é um pesadelo, quase dois dias entre aviões e aeroportos. Nos primeiros dias tudo é penoso e difícil: o jet lag que não deixa dormir, o calor e a humidade que fazem a respiração pesada, a sensação de estar a respirar debaixo de água, pó e mosquitos por todo o lado. Os efeitos da medicação para a malária também não ajudam a uma boa primeira impressão. A barreira da língua torna necessário aprender rapidamente o essencial em tétum, o básico, hau la hatene (não compreendo) e mesmo assim sucedem-se os episódios, como apontar qualquer coisa da lista para comer e a resposta ser: “tem…mas não há”. Um “sim, sim” convicto, na maior parte das vezes quer dizer… não. E depois sou mulher, malai (estrangeira) e com uma cor de cabelo estranha… Perdi a conta das vezes que me tocaram, no corpo, no cabelo, sem eu querer e das fotos que tirei com perfeitos desconhecidos. Não vale a pena olhar Timor com olhos ocidentais. Timor é Oriente e é assim mesmo. As mulheres, assim que atingem a puberdade, passam a tomar banho na praia completamente vestidas. É frequente ver crianças pequenas, muito pequenas, a descascarem fruta (apanhada da árvore) com catanas. Famílias inteiras deslocam-se empoleiradas em cima de motas, mas só os adultos usam capacete. Muitas casas têm chão de terra batida, cozinha-se a lenha, há gasolina (?) à venda em garrafas de plástico, na berma da estradada. Mais de 50% da população vive abaixo do limiar da pobreza. Em Timor conduz-se pela esquerda, ser peão é uma aventura, mas ao fim de algum tempo a gente habitua-se a olhar para o lado certo da estrada. É uma terra com paisagens da mais extraordinária beleza que se possa imaginar. As praias de água quente (juro que cheguei a transpirar dentro de água) e transparente, em tons de turquesa incríveis, os corais, as estrelas-do-mar, os peixes de todas as cores, as baleias, os golfinhos, as encostas do café e as madres-cacau, as planícies dos arrozais, os búfalos, os porcos, as vacas, os cabritos, as galinhas, os crocodilos, os insectos quase do tamanho de pássaros, mosquitos aos milhões, as tekis e os tokês (lagartos parecidos com as osgas, mas com muitas variedades e em tamanho XL, os nomes são onomatopeias do ruído que fazem). Em Timor aprendi o verdadeiro significado de abrasador, com temperaturas superiores a 44 graus e mais de 90% de humidade. Na época das chuvas, caiem paredes de água do céu, fica tudo inundado, água pelo joelho e meia hora depois a água desapareceu e está tudo seco outra vez. Timor tem o mangal, no litoral, que sobe da água salgada ou salobra, as orquídeas, as acácias rubras, as franjapani, os imbondeiros, os coqueiros, o azul, verde, amarelo, vermelho, laranja, rosa, uma explosão de cores e de cheiros. Timor tem o paraíso intocado de Jaco, as Uma Lulik (casas sagradas) de Tutuala, o charme de Baucau, a vista imponente de Dare, as trocas directas em Maubisse, as árvores dos katuas (anciãos) na marginal de Dili, tem as bonecas de Ataúro, tem os ró’s (barcos) típicos timorenses, tem homens e mulheres de boca vermelha como se estivesse em sangue ( por mascarem o betel – "malus" e a noz de areca – "bua", que tem efeito narcótico). Timor tem-me. Fui a Timor três vezes, dar formação aos jornalistas da Rádio Timor Leste. Trouxe da ilha cúmplices de vida, para a vida, não importa o tempo, nem a distância. Tenho a certeza que todos eles continuam a gostar desta mana malai, estranha, que fala rápido e muito alto (risos).

Fui a Timor e mudei. Quando cheguei à Ilha do Crocodilo, pela primeira vez, estava longe de imaginar que me ia apaixonar perdidamente por aquela terra. Timor é extraordinário como é extraordinário o povo que ali vive. Simplesmente. Hau are lafaek ia Tassi Timor (eu vi um crocodilo no Mar de Timor) e tenho saudades boot.





Sei que és, como eu, uma "adoradora do sol", como se fosse uma espécie de divindade. 
Tens memória de um nascer do sol que te tenha marcado em particular? E pôr do sol, onde viste o mais bonito? 

É tão difícil escolher... O nascer e o pôr do sol são espetáculos únicos e diferentes todos os dias. Houve um nascer do sol, à chegada ao Ilheu de Jaco, em Timor leste que me marcou. Porque foi extremamente difícil lá chegar, tivemos de nos levantar a meio da noite, chovia torrencialmente e estávamos quase a desistir e voltar para trás quase, quase a chegar ao objetivo. A estrada tinha abatido e havia um verdadeiro rio a travar-nos a passagem. De repente, no rádio do carro, começa a tocar o "Encosta-te a mim", do Palma. Parou de chover, as nuvens desapareceram e conseguimos, finalmente, descer a estrada, chegar à praia e assistir a um dos mais magníficos nascer do sol que já vi! (o sol , lá , nasce muito cedo, às 7.30 da manhã estávamos todos cheios de fome e a pensar que já era hora de almoço....). 

Pôr do sol... talvez não tenha sido o mais bonito, mas foi seguramente o mais exótico e mágico. No Kruger Park, na margem do Rio dos Crocodilos, com uma família de hipopótamos a tomar banho a uma dezena de metros de nós. O pôr do sol em África é sempre magnifico. Parece que se põe mais rápido, é como se, de repente, descesse uma cortina. Ou então na Praia da Fábrica perto de Cacela, lugar onde o por do sol é sempre mágico. Ali, já os vi em todos os tons, de todas as cores.





Se pudesses escrever uma mensagem numa garrafa, com um SOS ao mundo para os próximos 10 anos, o que escrevias? 

Cuidado com o planeta! É a nossa casa e só temos esta. Que queres ver quando abres os olhos?




✩ fim