este lugar não é sempre cor de rosa, por aqui não há sempre sol e nem tudo são flores.
também há dias cinzentos, chuva, cardos e urtigas.
é tudo isso que o faz uma boa parte de mim.

26.4.16

Medicina tradicional preventiva


As chagas, também conhecidas por capuchinhas, nastúrcios ou mastruço do Perú são originárias da América do sul de onde foram trazidas para a europa pelos conquistadores no século XVII. Eram muito utilizadas como planta medicinal em toda a região dos Andes.
Tanto as flores como as folhas e as sementes são comestíveis. O sabor é levemente apimentado e penetrante, semelhante ao do agrião, 
São ricas em vitamina C, glicocinatos, ácido fosfórico e oxálico, enzimas e componentes antibióticos que não afectam a flora intestinal. Existem inclusivamente estudos que comprovam que as chagas ajudam a promover a formação de células vermelhas ajudando assim a combater a anemia.
Hoje, ao almoço, algumas que colhi diretamente de um vaso na minha varanda, juntaram-se a uns couscous com pimentos laranja e mangericão. Foi como servir o sol à mesa.

6.4.16

Project#6 | Carmo Moser ✩ Apaixonada por corridas e viajante compulsiva

Foram as redes sociais que nos juntaram. Não sei como nem quando. Não sei se a descobri primeiro ou ela a mim. Sei que nos fomos descobrindo. Sei que foi a paixão comum pelos livros de infância que nos aproximou e nos fez amigas e que foi através dela que descobrimos tantos outros interesses partilhados. Sou particularmente admiradora do seu ar dócil e sereno, do seu discurso tranquilo e do indescritível talento que tem para criar.   

Carmo Moser, a 5ª convidada do Project#6, é designer, mãe, apaixonada por corridas, viajante compulsiva e fascinada por ilustração infantil.
Numa amena tarde deste Abril percorremos os "seus caminhos", por entre o perfume da esteva que começa a despontar, o som da água que saltita por entre as pedras e o intenso verde primaveril que se sobrepõe aos cada vez mais raros vestígios do rigor invernoso da Serra de Sintra.

Tenho a certeza de que tudo o que já viveu e experienciou até aos seus 36 anos dava um excelente livro. Não sendo essa a missão desta conversa, sei que vão compreender neste pequenino registo por que razão o digo.



Carmo, estamos no coração da tua serra e que é a serra que vive no teu coração. 
Que fascínio é este por Sintra? Quando começou?

Nasci em Madrid, mas ainda muito pequenina vim viver para a Eugaria, no sopé da serra de Sintra. Quando era criança, fartava-me de brincar por aqui. Tive uma infância maravilhosa, muito por “culpa” deste lugar fantástico! Nunca esquecerei as caminhadas pelos trilhos, os acampamentos com os meus primos e irmãos, as entradas à socapa no jardins do Monserrate, os passeios nas noites de verão para apanhar pirilampos... enfim, um sem-número de aventuras inesquecíveis. Depois fui crescendo e a serra começou a ficar para segundo plano. Entrei em Belas Artes e senti uma enorme vontade de conhecer todo um mundo novo. Foi uma fase da minha vida bastante citadina, em que adorava o rebuliço de Lisboa. Mas como costumo dizer, eu tenho uma “veia saloia” e essa fase citadina foi desvanecendo. Rapidamente voltei às origens. Em 2011, comecei a correr e descobri outra vez a “minha” serra. Desde então tem sido um namoro constante! Não tenho dúvida alguma que este lugar faz parte da minha vida... faz parte de mim!



Já me deste o mote para a pergunta seguinte. É também aqui, por estes caminhos e trilhos tantas vezes mágicos, que te dedicas a uma das tuas maiores paixões, a corrida, como acabaste de referir. Como é correr em Sintra? Que relação tens, nesse aspeto, com esta serra?

É um privilégio poder ter a serra de Sintra literalmente à porta de casa! É um lugar fascinante onde consigo encontrar serenidade... paz de espírito. Não há melhor que ir correr no meio de uma paisagem fabulosa, por entre árvores lindas, a ouvir os passarinhos e os riachos, a sentir os cheiros ou admirar o nevoeiro tão típico de Sintra e que eu tanto adoro! Estou sempre de “olho” nos tesouros que por aqui estão escondidos. No Outono perco a cabeça com as cores, com a vegetação, com os cogumelos... É sem dúvida alguma a minha estação preferida aqui em Sintra. E é de tal forma, que por vezes tenho de fazer um esforço para não estar sempre a parar para admirar estas preciosidades. No Verão adoro sentir os cheiros de madeira e da resina das árvores, que são muito mais intensos devido ao calor. Na primavera as flores, os fetos, os tons de verde... No inverno adoro sentir a chuva e o vento que faz as árvores rangerem; o chegar a casa gelada, beber uma boa chávena de chá e tomar um banho quentinho. Tudo isto faz parte desta minha adoração pela serra. Ahhh! E as rampas! As subidas por trilhos sinuosos, que são perfeitos para gastar energia quando os dias correm menos bem. No fundo, a serra de Sintra é o meu anti-depressivo! A natureza faz-me feliz; traz-me tranquilidade, mas também dá força! No meio da grandiosidade da serra sou apenas mais um elemento. Não sou mais, nem menos... sou apenas eu, sem artifícios.



Falemos agora desse "bichinho" da corrida. Isso é mesmo um bichinho ou essa ideia é um dos mais recentes mitos urbanos? Como e quando é que tudo começou para ti?

Se é um bichinho ou não, não faço ideia. Apenas posso garantir que hoje em dia a corrida faz parte de mim. Quem diria... Eu que achava que era um perfeito “saco de batatas”... Comecei a correr depois de um momento menos bom da minha vida. Em 2011 tive a “bela” surpresa de conhecer aquele sacana que começa com um “C” grande. Mas antes que este “C” passasse a dominar a minha vida, tentei encontrar algo que me ajudasse a superá-lo e felizmente encontrei um outro “C” muito maior! O “C” de corrida! Tenho a certeza absoluta que a corrida, a par da minha família, foi (e continua a ser) uma “bóia de salvação”.

Depois dessa tua partilha, é inevitável para mim fazer uma pergunta cliché. Perante esse desafio que te foi colocado, antes, durante e depois de superado, a tua visão da vida, do que valorizavas até então, mudou ou foi mais uma questão de consolidação da que já tinhas?

Não gosto de sobrevalorizar este momento menos bom da minha vida. Vejo-o como um desafio, como tantos outros que tenho vindo a encontrar nesta minha caminhada. Por muito negro que seja o cenário, acredito que todos estes desafios têm um lado positivo um lado mais luminoso e que ajudam no meu crescimento. Acredito que todas as “pedras” que tenho vindo a encontrar ao longo da minha vida, não apareceram por acaso e sei que de uma forma, mais fácil ou não, eu serei capaz de contorná-las.



Tens toda a razão! Passemos à tua outra grande paixão. Viajar. Que peso e significado têm as viagens na tua vida?

Viajar... Para mim viajar é como encontrar um tesouro! Sempre que viajo, volto muito mais rica... volto mesmo multimilionária! (risos) Pode ser um cliché, mas é tão verdade! Das viagens trago cheiros, cores, sabores, sons. Trago experiências e conhecimento que vou guardando e revisitando. E trago perspetivas de vida diferentes da minha, que me fazem abrir o campo de visão. Tenho tido o privilégio de viajar por Portugal e pelo mundo fora. Esta é uma paixão que foi despertada pelo meu marido, um viajante inveterado! Estamos sempre a alinhavar o próximo destino. Adoramos sonhar as viagens que gostaríamos de fazer. Não sei se vamos cumprir todos estes nossos sonhos, mas vamos sonhando, sonhando muito!




De todos os países que já conheceste - quantos foram ou quais foram, podemos saber? - qual foi o que te marcou mais e porquê? Eras capaz de te mudar para lá, de armas e bagagens?

Que pergunta difícil... Não consigo eleger o destino mais marcante. Mas não posso negar que tenho uma paixão enorme pelo Oriente. Nunca mais esquecerei as paisagens do Nepal, o rebuliço da Índia, as ruínas e as árvores majestosas de Angkor Vat no Cambodja, os sabores deliciosos da comida Vietnamita, a delicadeza da cultura japonesa, a floresta tropical em Chiang Mai na Tailândia, os bolinhos de massa de waffle (Gai Dan Dzai) que se vendem nas ruelas de Macau, os mercados em Shanghai... São tantas as boas recordações, que a vontade de conhecer outras “paragens” contínua sempre a crescer... Mas no final destas aventuras, adoro chegar a casa! Quanto mais viajo, mais tenho a certeza que Portugal é um país fantástico! Temos tanta coisa boa neste nosso cantinho! Só para dar um exemplo: continuo a achar que o Gerês é dos sítios mais bonitos do mundo. É de uma beleza indescritível e é aqui tão perto!



Ainda está por fazer a viagem da tua vida, ou sentes que já tiveste esse privilégio nas que já realizaste?

Prefiro pensar que a viagem da minha vida está sempre para vir! Assim o sonho não acaba! Ainda falta tanto, mas tanto para conhecer por este mundo fora... O Butão, o Laos, Myanmar, Argentina, Chile, Nova Zelândia...



És designer gráfica. A estética, o equilíbrio, a harmonia, a forma, a cor, são elementos determinantes no teu trabalho. Isso conduz-me à tua terceira grande paixão. A ilustração infantil - que é aliás uma paixão que partilhamos. Esse interesse nasceu verdadeiramente na tua infância ou acabou por ser uma descoberta posterior, quando escolheste o teu percurso profissional?

O meu avô paterno era artista. O meu pai, apesar de ter seguido economia, tinha uma verdadeira paixão pelas artes. Todos os meus 3 irmãos estão de alguma forma ligados a esta área! Julgo que esta minha paixão acaba por estar nos “genes”.




Que livros te marcaram na tua infância? O que te atraía mais neles? 

Tantos! E que pena que a minha mãe não tenha guardado todos eles. Mas ando a resolver este assunto: de há uns tempos para cá tenho tentado encontrar os livros que fizeram parte da minha infância. Sempre que vejo uma livraria daquelas empoeiradas, lá vou eu a correr. Para grande desespero do meu marido, perco horas e horas à caça de preciosidades. Sou uma verdadeira “respigadora” de livros infantis! (risos) Só para teres a noção desta minha “loucura”, por duas vezes fiz cerca de 100km só para ir a uma papelaria que sabia que guardava verdadeiros tesouros! De uma das vezes saí de lá com cerca de 30 livros! Não consigo explicar este meu fascínio... Por um lado sinto-me cativada pela estética das ilustrações, por outro fazem-me reviver momentos bons da minha vida... Talvez seja isto...



Tens algum ilustrador ou livro preferido? 

Mais uma daquelas perguntas difíceis de responder! É impossível escolher um ilustrador ou um livro preferido, porque há tanta coisa boa... “Um dia em cheio” do Gyo Fujikawa, os livros ilustrados pelo Alain Grée e pelo Richard Scarry, “A casa da carochinha” do Rui Palma Carlos, todos eles marcaram a minha infância. Mas são apenas alguns dos muitos livros que guardo na memória.
Entretanto tenho vindo a descobrir livros e ilustradores fantásticos. Adoro o trabalho da Madalena Matoso, da Catarina Sobral, da Isabel Minhós Martins, as ilustrações “mágicas” do Benjamin Lacombe ou o trabalho super detalhado do Roberto Innocenti; as ilustrações coloridas da dupla japonesa Tupera Tupera; as verdadeiras obras de arte do Katsumi Komagata. Nos tempos de faculdade descobri os livros infantis do Enzo Mari e da Maria Keil ... São tantos os nomes de ilustradores que admiro!
E nem nas viagens descanso desta minha paixão! Uma das coisas que gosto de fazer é trazer um livro infantil de cada destino que conheço. Muitos deles nem consigo ler, mas a magia das ilustrações fazem-me sorrir!



Tens dois filhos. dois rapazes, eles também têm essa relação com os livros?

Tenho dois filhos com personalidades muito diferentes! Como eu sou uma mãe muito justa (risos), cada um foi buscar uma da minhas paixões: o mais velho adora desporto e a vida ao ar livre. O mais pequeno tem uma veia artística. Para além de ter um jeito inato para o desenho, adora tudo o que seja livro ilustrado.



Como mãe, como é que vês a relação das crianças de hoje em dia com o mundo que as rodeia, nomeadamente no que se refere às atividades lúdicas? Sentes as pressões e os dilemas de que a maioria dos pais se queixam?

Tal como praticamente todos os miúdos da idade deles, os meus filhos gostam de jogar playstations, WII e afins... É uma realidade diferente da nossa infância, mas que julgo que não podemos “esconder” ou negar. E na verdade até podem tirar algo de positivo destas novas plataformas. Aquilo que o meu marido e eu tentamos fazer é dar a oportunidade de conhecer e descobrir o fabuloso que é folhear um livro, passear na praia, subir às árvores, apanhar uma chuvada num dia de inverno... Acredito que o equilíbrio é a palavra-chave! Nem sempre é fácil, mas isto de ser mãe (e pai) é mesmo assim: Um desafio enorme, mas do melhor que há!



Se te fosse conferido um poder especial, para mudar uma única circunstância ou episódio da tua vida até agora, mudarias alguma coisa? O quê? Porquê?

Não mudaria nada! (sorriso rasgado, tranquilo) Sou tão feliz que só posso agradecer todo este caminho que percorri até aqui!




✩ fim