este lugar não é sempre cor de rosa, por aqui não há sempre sol e nem tudo são flores.
também há dias cinzentos, chuva, cardos e urtigas.
é tudo isso que o faz uma boa parte de mim.


21.10.14

My kind of Oscar de La Renta


Num meio onde tantos criadores teimam em quase ridicularizar a beleza feminina, todas nós, mulheres que se prezam de o ser, ficamos um pouco mais pobres com a partida de homens como Oscar de La Renta, que de forma sábia e elegante, sempre a respeitaram e elevaram.
Este vestido que mora cá em casa não é uma criação sua, mas bem podia ser.  Não pelo preço, claro!, mas pelo romantismo dos detalhes. Foi comprado para uma ocasião muito especial que nunca chegou a acontecer e aguarda um momento ainda mais especial para se estrear. Em breve!


E as imagens do último legado de um dos grandes românticos de sempre

20.10.14

O que muda do que te muda


Tantas vezes tens um copo meio cheio e olhas para ele e apenas vês um copo meio vazio. A vida, como os copos, serve-se nas doses com que a olhamos. Há circunstâncias que mudas. Umas porque queres, outras porque aconteceu. A vida acontece muitas vezes à nossa frente. Antecipa-se, escorrega-nos das mãos mas, em algumas circunstâncias, em vez de se partir na queda, abre-se e oferece-nos um presente como aqueles ovos de chocolate das crianças. Depois há as outras vezes em que escorregamos nós e nem percebemos onde ou porquê, porque o piso era sólido e seco, regular e direito. Até o conhecíamos tão bem e os nossos passos eram tão certos. Esfolamos os joelhos, magoamos as canelas, fazemos nódoas negras, feios hematomas. Em algumas destas quedas andamos a passear com um bem precioso na mão. Nada mais frágil do que um coração fora de nós. Depois da queda-surpresa olhas para o chão que tens dentro de ti e só vês estilhaços. Baixas-te para apanhar os cacos maiores na esperança de conseguir colar tudo à pressa mas faltam sempre pequenas peças que foram parar a um lugar escondido dos teus olhos. Baixas os braços, encolhes os ombros, desistes da busca. Que se lixe. Que se lixe tudo, pensas e só ouves o teu eco. Estás vazio. Algumas vezes chegas mesmo a precisar de um ou outro ponto que trave o sangue e reconstrua a pele. Dói que se farta. Arde até a lavar as mãos. Até o que há de mais puro nos pode magoar na simples proximidade. Nem a água é inócua. Um dia olhas e já tudo sarou.
Há circunstâncias que mudas e há as circunstâncias que te mudam. Umas avisam-te outras não. Um dia quando olhas para o copo que tens à tua frente, tenha ele o que tiver, já aprendeste a arte do improviso. Mesmo que nada mude há muito que tudo mudou. Dentro de ti os olhos da alma têm bem calibrada a perspetiva. Olhas e, vejas o que vejas, sorris.



Na leveza do granito


19.10.14

Fim de tarde


... e um gin tónico com sabor a dias quentes de outono.

Espírito de domingo


O elitismo do elitismo

Mesmo sendo péssima a matemática, sou capaz de jurar que hoje de manhã, ao longo da margem norte do Tejo, se passeavam milhares de pessoas. Pessoas com camisolas iguais, por uma causa, pessoas a correr, pessoas a passear, pessoas a andar de bicicleta, pessoas a velejar. Turistas a visitar, a desfrutar, a fotografar. Quem chegasse a Portugal pela primeira vez, sobrevoando a zona, pensaria com facilidade que haveria por ali algum evento especial. E havia. Vai havendo, um evento espontâneo que paulatina mas consistentemente vai transformando a cultura de um povo. Porque o rio sempre existiu e com ele as margens e o sol, mas é inegável que nunca como agora os portugueses parecem te percebido o tanto que têm para desfrutar de borla, vivendo simplesmente com orgulho, a sua cidade. Provavelmente porque quando tinham mais dinheiro, era mais engraçado ir engrossar as multidões que faziam o mesmo em outras capitais, onde há muitos anos já se fazia jogging, comícios, piqueniques e envagelizações. Em Hyde Park ou Central Park, nas largas avenidas de Paris ou nas praças de Roma. Fazê-lo aqui? Nem pensar! Que coisa mais parola. Mas talvez a causa seja agora o que menos importa, na assinalada e assinalável mudança de comportamento. O que me alegra particularmente é perceber que temos vindo a ser capazes de perder os complexos provincianos que faziam de nós pseudo elitistas e turistas acidentais de uma cultura verdadeiramente urbana. Às vezes faz-nos bem ficar mais pobres na carteira.

17.10.14

tantas vezes. a vida.

às vezes não tens na ponta da língua a resposta que os outros esperam de ti como uma faca pronta a cortar o pão ou outra a barrar manteiga. às vezes uns sapatos espalhados pelo chão são só uns sapatos espalhados pelo chão. às vezes vestes a tua melhor roupa para ir só ao supermercado. às vezes chove no dia do teu casamento e nem por isso tens mais sorte e és mais feliz. às vezes sonhas filhos cor de rosa e eles saem cheios de espinhos e ensinam-te a arte da poda. às vezes estás cheio de sede enches um copo até a cima e esqueces-te dele em cima da bancada porque o telefone tocou e do outro lado alguém te saciou. às vezes quer-te quem não desejas. às vezes desejas quem não te quer. às vezes tudo coincide e nenhuma das coincidências é por acaso. às vezes tens o plano perfeito, estudaste o alinhamento ao milímetro, desenhaste o trajeto do caminho a régua e esquadro e antes de começares já tudo falhou. às vezes procrastinas, sais de mãos à abanar para o destino, tocas de ouvido e és aplaudido de pé na plateia da vida. às vezes era ali mesmo que ficavas num segundo que podia significar a tua eternidade. às vezes um segundo foi a eternidade que te bastou. às vezes tens a respiração ofegante só porque subiste uma escada e já nem te lembras em que ano foi que dormiste bem toda uma noite. às vezes perdes o fôlego e dás graças a uma divindande que desconheces por teres podido viver aquele momento. às vezes estás no sitio certo à hora certa com a pessoa certa. outras vezes o universo troca-te as voltas só para te fazer voltar a tentar de novo.

16.10.14

Hoje há


 

- doce de abóbora e poesia com restos - 

O avesso dos dias

Para lá da porta há sempre um espaço que é único. Para trás fica a rua, as gentes com quem nem sempre te apetece cruzar, a pior das rotinas a que te é imposta, os ruídos, os atropelos, os desencontros, as caras fechadas, o frio ou o vento que nem sempre te apetecem abraçar. Para lá da porta, do lado de dentro, há só tu ou nós, há aromas que só tu reconheces porque são teus, a essência perfeita que resulta dos banhos, dos perfumes, da roupa da tua cama, das alfazemas e sabonetes que têm as tuas gavetas, do teu ph e do teu adn. Há uma claridade que sabes que vem de ti, das cores que escolheste para te receber todos os dias. Há a nostalgia de alguns dias misturada com a alegria de outros. De vez em quando há vozes e risos. De vez em quando há silêncios momentâneos e em certos dias há silêncios profundos. Há a luz indireta dos teus candeeiros e a quente das tuas velas. Há a espessura dos teus edredons e dos teus turcos e um cheiro que te conforta num banho de espuma. Há a textura das tuas paredes, as confidências que só elas sabem e os seus inúmeros amparos.
Para lá da porta há sempre um espaço que te recebe e que é o verdadeiro mundo. Aquele que desenhaste milimetricamente para quando fechas a porta deixar do lado de fora o avesso de ti.

Tell me


How much do you really love polka dots, Margarida?..