31.12.11

Das últimas horas do ano #2

Por este recorte do mapa, um sol imenso e um frio adequado convidam a um casaco grosso, cachecol e botas de pêlo quentinhas, enquanto se desfruta de um, corrijo dois, cafés na esplanada. O desejo de me abandonar á leitura em dias assim, de namorar as horas e a quietude da vida, fez-me pegar num dos livros adiados e aventurar-me, mesmo antes do novo ano, aos prazeres da leitura. Duvido que houvesse melhor opção do que a destas páginas para terminar 2011 e começar um ano que, por razões que por enquanto a razão desconhece, me conduz a uma serena visão de futuro próximo.
Não sendo inédito em mim, há muito tempo que não devorava palavras que me obrigam a parar a meio a sua leitura e fechar a página para as deixar rodopiar dentro de mim, num sentimento que mais do que identidade me traz absoluta cumplicidade e plenitude.
Do eu solitário ao nós solidário, traz á conversa dois homens interventivos e pensantes do nosso tempo. Num diálogo sem entrelinhas nem meias palavras, percorrem de forma inteligente, atenta, cogitante e desassombrada os temas que inquietam o mundo e a atualidade. 
Frei Fernando Ventura é dos religiosos que me faz ter vontade de entrar e escutar dentro de uma igreja a Palavra que acredito e sigo mas com a qual, dita pela maioria dos que lá estão, não me identifico. Precisamente por ser mais do que um religioso, um Humanista. Por ser mais do que um homem de palavras conciliadoramente vagas, um homem que com uma lucidez invulgar fala sem pejo e hesitações palavras incómodas, acutilantes mesmo em alguns casos, e que a muitos colocam em causa e questionam.
Sou uma mulher de fé inabalável. De fé num Deus que não vejo mas sinto, como o Amor que me habita e a Vida que me rodeia. E para o que sinto não necessito de provas nem medidas. Mas é precisamente por ser uma mulher de fé que não acredito em fórmulas mágicas, em palavras mansas que buscam no agrado de gregos e troianos uma paz podre que assim jamais chegará. 
Mais do gostar, admiro gente como Frei Fernando Ventura, que na crueza de palavras desnudas, como sempre são as palavras que falam verdade, põe o dedo na ferida e aponta caminhos reais para uma realidade que continuamos a querer manter virtual. Gosto dessa paixão, dessa entrega, dessa energia de querer e acreditar que ainda é possível encontrar caminhos genuínos e sustentáveis para a Humanidade. 
A todos os que teimam apaixonar-se pela vida e acreditam que há um caminho diferente a percorrer, aconselho, vivamente esta leitura.
Não é preciso acreditar em Deus. Basta acreditar no Homem - o que para quem crê, é mais ou menos o mesmo...

Deixo-vos com um pequeno excerto. Um pequeníssimo e, acreditem, pouco ilustrativo aperitivo...

(...) resiliência, é esse o «palavrão» adequado para definir o novo estado de espírito que há que construir e alimentar. Resiliência é precisamente essa capacidade que alguns materiais possuem de acumular energia quando submetidos a stress sem entrar em rutura. Falar de resiliência da fé é falar da resiliência da vida, e é, assim, ser capaz de ver para além do visível e fazer da crise, de qualquer crise, uma oportunidade, uma possibilidade de ir mais longe. O que não nos mata faz-nos mais fortes. Só isso.

Á Verso de Kapa e ás minhas queridas amigas Maria João Mergulhão e Graça Dimas, os meus sinceros parabéns por este livro. E o meu Muito Obrigada!

1 comentário:

  1. Anónimo2.1.12

    Cara amiga. Muito obrigado pelas suas palavras sobre o livro. Um abraço de bom ano e boa "resiliência" :-)
    Joaquim Franco

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