30.12.11

Das coisas inesperadas que a vida nos dá

Viver há dois meses num hotel foi seguramente das coisas mais inesperadas - no meio de tantas - que este ano me proporcionou. Se me dissessem há um ano atrás que em breve viria a cruzar o meu caminho com o do hospitality riria, certamente. Ainda assim, habituada que vou estando ás surpresas que a vida me ofereceu no campo profissional, não duvidaria.
Mas o facto é que cruzou e cruza, cada vez mais e das mais diversas formas, e mais uma vez pude comprovar que me consigo realizar em áreas tão inesperadas quanto diversas daquelas que á partida ponderei e escolhi no inicio da minha carreira. A verdade é que sou uma apaixonada pelo trabalho e talvez  isso explique uma boa parte da minha facilidade de realização. 
Ao contrário do previsível, viver num hotel não tornou a minha vida mais vazia ou impessoal. Antes pelo contrário. Aproximou-me ainda mais de uma realidade com que passei a conviver desde há oito meses e que me abriu horizontes que, mesmo sem deles ter consciência, de certa forma, já moravam em mim.
Vivo num espaço especial a que não tenho nenhum pejo de chamar casa. Trendy, no seu espírito minimalista - está inclusivamente classificado como Design Hotel - e que me fez perceber de uma forma clara e cristalina que necessitamos realmente de muito pouca coisa para viver com qualidade o nosso dia a dia. O essencial é pouco e o essencial basta.
É um também um espaço de contrastes que nos permite, por exemplo nesta altura do ano, circular entre gente agasalhada e gente descalça, dependendo do seu ponto de origem. Ali convergem, desde o norte da Europa até aos nossos vizinhos de Espanha. Transversal é a atitude despojada e stressless, de quem gosta de aproveitar a calma e contemplar a vida.
Viver há dois meses num hotel tem-me permitido também o privilégio de estudar de outra forma quem por lá circula. Observam-se os tempos de permanência, os hábitos diários, as opções solitárias e as romanticamente cúmplices. Para mim, um delicioso laboratório comportamental, portanto.
Gosto sinceramente desta fase da minha vida. Ainda que esteja absolutamente certa - de forma tão intensa quanto inequívoca - de que me falta complementar uma importantíssima parte dela, sinto-a como uma antecâmara, como um ensaio geral de uma fase diferente, igualmente intensa mas muitíssimo mais feliz que está para vir.
Gosto deste mar que me rodeia, deste sol e desta luz constante, do ar que aqui respiro, de ouvir apenas e só os meus passos quando á noite percorro a rua principal até ao espaço que elegi para um café e uma leitura. Convivo bem, muito bem, com os inúmeros silêncios que há em mim embora alguém muito especial me faça cada vez mais falta. Gosto deste lado de aldeia da vida, com cheiro a lenha e gestos calmos que contrabalançam a menina de cidade, que gosta de agitação e de dias de trabalho intensos, que me habita. Gosto de aqui estar e gosto deste amor ás coisas singulares. Gosto sobretudo do que me permitiu descobrir em mim.
Costumo dizer que sou simultâneamente uma construtora e uma cuidadora. Costumo também dizer que a vida tem sido muito generosa nas oportunidades que me tem dado e faço questão de o agradecer, aproveitando milimetricamente o que de melhor delas posso aproveitar e com quem o posso partilhar.
Há oito meses, sem que o pudesse prever, a minha vida iniciou um novo rumo. Profissional mas também pessoal. Sei que aconteça o que acontecer nada, rigorosamente nada, voltará a ser igual ao que era antes.
Construir e cuidar são verbos que se passaram a conjugar com receber e acolher. Todos juntos, com o amor, a dedicação e a entrega que faço questão de ter em tudo, serão o mote do meu próximo e, quem sabe, definitivo caminho. Só o Tempo, meu ancestral e sábio amigo, dirá. Até o saber, farei sem pressas aquilo em que acredito.

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