12.12.11

Adolescência « e quiçá o post mais extenso da minha blogostória »


Crescer nunca foi nem nunca será uma tarefa fácil. Ser adolescente, por inerência e consequência, também nunca o será. Sobretudo porque quando adultos temos uma inexplicável tendência para esquecer que também por lá passámos, perpetuando de forma quase irracional o ciclo do famigerado conflito de gerações, complicando desnecessariamente a vida aos que por lá passam, num medir de forças que me parece já tão patético quanto desajustado nesta altura do campeonato da história, sabendo o que já sabemos, olhando para trás.
Tenho uma filha adolescente e não defendo demagogias. Também sucumbo muitas vezes á patetice de não me rever, ainda que contemporizando quase 30 anos de diferença, nas suas certezas e posições. Na sua impertinência e recorrente falta de humildade. Perco muitas vezes a paciência e a compostura? Perco, sim senhor! Mas a parentalidade obriga-nos a bem mais do que os cuidados básicos. Ser pai ou mãe obriga-nos a uma capacidade de entrega incondicional e a uma constante revisão da matéria dada. Ou de uma forma mais  curta e mais prática: quem não quiser ter trabalho, não os faça. 
Conviver, simultaneamente, paredes meias com todas as certezas absolutas do mundo e todas as perguntas existenciais a que ninguém responde, faz parte da adolescência e não é fácil.  Para a de hoje e a de há muito. Ter como principal bode expiatório os pais, também não. Os mesmos que oscilam entre santos e demónios quando representam o colo de que ainda não se abdica e ao mesmo tempo os braços de que é urgente libertar. Uma saudável relação amor-ódio que, ainda assim, tantas e tantas vezes provoca dolorosos desencontros a ambas as partes.
Mas é justamente por ser uma fase de tudo ou nada, de extremos, de fio da navalha e sem panos quentes que a adolescência é também uma fase tão importante de crescimento. Pessoal, familiar e em sociedade. Uma fase ímpar para que os pais desempenhem um dos seus principais papeis no crescimento dos filhos. E no seu próprio crescimento, também. Sim, senhores pais! Embora não se dêem conta, uma boa parte das vezes, agimos como verdadeiros adolescentes quando nos toca o papel de ser pais de uma vítima da puberdade: ora com birra para impor de forma déspota as ordens, ora hesitando e recuando entre pseudo sentimentos de culpa, tolhidos pelo medo de errar. E... voilá! Perante a adolescentice aguda dos papás, esfregam as mãos os meninos e, entre cobranças e guerra de mimo, tomam conta do pedaço. Ora enfrentando o tirano, ora abusando do condenado. 
Crescer nunca foi nem nunca será fácil. Até porque a última fantasia em que devemos acreditar é que há uma idade em que atingimos a maturidade para a eternidade. Crescer é um processo continuo, tanto mais privilegiado quando decidimos ser pais. Porque se é nossa tarefa amparar e fazer crescer os nosso filhos para   um mundo que se diz por aí é cada vez mais dificil [tese que, lamento, não defendo nem subscrevo] a melhor forma de os preparar é contar-lhes a história sem recurso a contos de fadas. 
Os sucessos resultam muitas vezes de uma boa sucessão de frustrações. A vida não acontece ao simples estalar dos dedos. Muitas vezes temos dúvidas e não raras vezes nos enganamos. Não fazemos sempre tudo certo e algumas vezes magoamos as pessoas a quem mais queremos. 
Enquanto pais, temos de decidir se queremos passar por super heróis, plásticas figuras de referência, personagens inatingíveis na vida dos nossos filhos ou se preferimos ser criaturas de carne e osso, que muitas vezes tropeçam e ainda esfolam joelhos nas quedas da vida. 
É que se das mais diversas formas andámos [e andamos] a trabalhar para lhes satisfazer caprichos necessidades, tantas vezes questionáveis, permitir que nos façam sentir culpados pelas opções e horas a menos a seu lado e ficar reféns de tão queridos-pequenos-grandes-ditadores-cheios-de-certezas [que um dia irão pelo seu pé, como a seu tempo nós fomos, descobrir andar um tanto ou quanto distantes da realidade] é no mínimo caricato. Ser adolescente é ter a idade certa para perceber que a moral das histórias que em pequeninos nos contavam para dormir é um bem essencial para nos manter acordados para a vida. Crescer não implica fazer tudo o que se quer e menos ainda acertar sempre que se tenta. Crescer significa fazer escolhas e fazer escolhas implica responsabilidade. Porque só quem é responsável pode ser livre. A famosa liberdade que a toda a hora, de forma intransigente [e tantas vezes castradora da liberdade de outrem], todo o adolescente reivindica.
E se não é esta a história que temos coragem de lhes contar, primeiro pelo nosso exemplo e depois pela coragem nua e crua de os incentivar a por em marcha nas suas vidas, então, usando uma das suas muitas expressões, temos pena, a história anda mesmo muito mal contada, inverteram-se os papéis e ninguém deu por nada. 
Cada coisa no seu sítio. Se queremos que os nossos meninos e meninas sejam mesmo felizes a valer, joguemos ao verdade ou consequência em vez de jogar ás escondidas, á cabra cega ou á apanhada. 
Ser adolescente é difícil?... Ah pois é... mas experimentem um dia destes ser pais para ver como elas vos mordem.
Meninos-e-meninas-pais-adolescentes, vamos lá deixar de nos portar como crianças assustadas... 
Bora lá crescer. Bora?

3 comentários:

  1. Tenho um filho por sinal pré adolescente, e achei este post fenomenal, muito obrigado tudo o que li vai-me concerteza ajudar na árdua tarefa de fazer do meu filhote um ser melhor :) Bjs

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  2. Dreams,
    É sempre bom saber que as nossas reflexões fazem sentido a outros. Obrigada pela visita :)

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