2.1.12

Desânimo vs Desmotivação



Ouço muitas vezes referência ao meu otimismo, á minha energia, força e resiliência para encarar as dificuldades do dia a dia e ultrapassar obstáculos. Seria hipócrita se não dissesse que é bom, muito bom, sentir tantas vezes que podemos, apenas pela vivência e partilha de algumas emoções, servir de inspiração ou exemplo a outras pessoas em situações semelhantes ás nossas. Mas não seria sincera se não dissesse também que, muitas vezes, o facto de agir assim, com essa predisposição e frontalidade para a vida, tem um duro e pouco doce reverso da medalha. O facto de se encarar dificuldades e momentos menos bons dessa forma não é, ao contrário do que muitos julgam ou possa parecer, feito com uma perna ás costas. Não, antes pelo contrário. Ter uma atitude positiva, procurar energia quando ela nos falta e ter força para resistir á adversidade, levantando-nos depois de cada queda - ou tantas vezes pior ainda, rasteira - com que a vida nos surpreende, não é um processo gratuito nem fácil. Antes, exige coragem é verdade, mas sobretudo esforço, muito esforço. E empenho e luta contra as dúvidas que, assim como a todos os outros, nos assaltam. Mais, é preciso não dourar a pílula: é muitas e muitas vezes um caminho que se percorre a sós, entre os nossos medos e os nossos fantasmas.
Encarar a vida com otimismo, é ter a capacidade de, não nos alheando da realidade, ultrapassar de forma ativa, interventiva e empenhada as nossas dificuldades. Não sofrer com isso não quer dizer exatamente o mesmo. Quem luta também sofre, e muito. A felicidade também é, e muito, construída de grandes momentos de perda, de dor, de dúvida e desnorte. A diferença entre a felicidade que uns têm e a felicidade que alguns dizem que lhes foge é, a maioria das vezes, apenas uma. A capacidade de nos entregarmos ou não a ela, como uma causa ou uma missão de vida.
Já houve alguns dias mais difíceis da vida em que desânimo tomou conta do espaço e se instalou. Houve, claro que houve. Mas entre o desânimo e a desmotivação há um vale gigante que separa dois mundos.
Se o desânimo é um estado legítimo e passageiro, próprio de uma vida onde os dias não são todos iguais e onde o vento nem sempre sopra de feição, já a desmotivação parece ser, cada vez mais, um estado de alma geral. Um estranho lugar-comum onde tantos se deitam á espera que a chuva passe. Falo de jovens e de adultos. 
Mais do que uma razão real e de fundo, gerada por problemas graves ou dificuldades intransponíveis, a desmotivação parece ser cada vez mais uma palavra de ordem e uma excelente desculpa para apontar o dedo aos outros e não fazer a nossa parte. Dessa, felizmente, nunca fui e, estou certa nunca serei, atacada.
Mais, olhando para a geração de jovens adultos que temos em ebulição, confesso que o que mais me assusta é ver gente com metade da minha idade - ou menos - tão "desmotivada"... Que anda esta geração de pais a fazer, pergunto-me eu... Se com tão poucos anos de vida vividos, e tantos por viver que têm pela frente, já andam cansados e a precisar de "cenouras" para fazer o caminho, a coisa  promete não ficar fácil.
Pergunto-me se em vez de desejar que em dias de frio, chuva ou temporal fiquem em casa confortáveis e quentinhos, para que não se molhem ou constipem, dermos aos nossos meninos e meninas um belo par de galochas [coloridas, vá!] e explicarmos que se a coisa piorar ainda dá para arregaçar as calças e atravessar a borrasca, não faremos com que o seu futuro precise de menos motivações e seja mais animado, produtivo e, sobretudo, feliz.
Tenho a certeza que, ainda que com o coração nas mãos e um cêgripe a jeito para alguma eventualidade, vale a pena mandá-los ir ver se chove, cada vez que são atacados pelo micróbio da desmotivação.

12 comentários:

  1. Li e meditei as suas palavras de que gostei bastante. É bom ver jovens com a sua visão da vida. É raro, infelizmente.
    Só à guisa de "bate papo" e sem pretensões, gostaria de referir que a vida sem obstáculos seria sensaborona, pois não teríamos oportunidade de conhecer as nossas potencialidades para os vencer; os dias sem sol, são necessários para que valorizemos a beleza da luz solar; uns olhos que não choram não sabem o que é lavar com lágrimas a dor do nosso semelhante. E poderíamos ir por aí fora. Isto só para concluir que deve continuar como é e não recear o "reverso da medalha".
    Um beijinho

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  2. Bem que gostaria hoje de tomar um cêgripe a ver se esta constipação parva passava. mas não posso. Vou antes beber um chá e esperar que os 4 passarinhos me dêem hoje uma boa noite, retemperadora.

    Não sou optimistra por natureza. Acho mesmo que sou filha do fado e da saudade. Mas pelos meus filhos tento ver as coisas de uma outra forma e sobretudo fazer pela vida... e não ficar apenas à espera que a chuva passe. A propósito... essas galochas devem ficar um sonho na minha minimini:)

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  3. Maria Clara,
    Não posso estar mais de acordo consigo. Obrigada pelas suas palavras e pela visita. Volte sempre. :)

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  4. Duchess... 4 passarinhos, é dose ;)
    Quanto ao otimismo, ao fado e á saudade... desconfio que sou pouco portuguesa.
    Os filhos... os filhos não mudam tudo, mas mudam muito na nossa forma de estar e olhar a vida. São uns presentes para o nosso crescimento.
    Quanto ás galochas... são um mimo!!! A minha patuda já não dá para este tamanho, mas fica linda com umas vermelhas que lhe ofereci ;)

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  5. MARAVILHOSO texto SÁBIA m.

    je t'embrasse :)

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  6. Gostei muito. Revi-me bastante, lutei contra um tumor cerebral com um sorriso e muitos me criticaram por isso. Também tive maus momentos e valeu-me a força que vem nem sei de onde. Se há recompensas para isso eu tive a minha. Não podia ter filhos e hoje tenho um que amo. Foi um caminho turtuoso, "andei muito à chuva" mas olho para trás e fico tão feliz por ter conseguido :)

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  7. Claudia,
    Muito, muito obrigada pela tua partilha. É bom conhecer histórias como a tua. São um exemplo e um incentivo.
    Parabéns por essa coragem e força de vida e também pelo mais recente fruto daí colhido :)

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  8. Querida M.,
    é por isto que para mim és uma inspiração. E se há dias menos bons para ti e a desmotivação já te bateu à porta é porque és real e ainda bem :) gosto da forma como vês e encaras as adversidades da vida.
    Tento todos os dias ser mais positiva, e confesso que estou a (re)aprender a fazê-lo, quero acreditar que consigo pois, quero que o meu filho ande à chuva e feliz(galochas já tem e são bem coloridas), não quero que encontre uma mãe cinzenta e com ar triste, desmotivada e sem vontade de lutar por mais.
    O virús da gripe atacou-me e o cêgripe ainda não fez o devido efeito, mas acredito que com a chegada da Primavera as coisas melhorem.

    Ao ler o teu post e alguns comentários, pergunto-me: que motivos tenho eu para estar infeliz? são tão pequenos comparados com outros, assim como o da Claúdia.

    Obrigada pelas tuas palavras e pela partilha. Obrigada pela força e pela luz que transmites. Bj**

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  9. Tanita,
    Não adies para a Primavera o que podes fazer no Inverno. Força. Sei que consegues. Sei mesmo, acredita :)
    Mais uma vez, muito obrigada pelas tuas palavras.
    Um beijinho grande,
    M.

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  10. Já me fazia falta passar por aqui...

    Acho que, às vezes, sou parte do grupo dos desmotivados... :(

    Preciso de arregaçar as mangas e vencer as adversidades...

    Obrigada pelas tuas palavras!

    :)

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  11. Sophie... long time, no see :)
    Vamos lá com isso. Além disso, seja que vento for, não sopra sempre do mesmo lado.
    Um beijinho

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