2.5.12

Portugal dos Pequenitos





Não fazia a minima ideia desta campanha até ontem ter começado a ver surgir nas atualizações online as noticias do estado caótico em que se encontravam os PD. Não vi televisão o dia inteiro e por isso uma única cobertura jornalistica deste triste episódio. Hoje de manhã cruzei os olhos com as capas de alguns jornais que misturavam carrinhos de supermercado com macas do Inem. 
Já o tenho dito, repito e não escondo que, ao contrário do que gostaria de sentir, considero que o povo português é pequenino, na sua tacanhez, chico-espertice, desenrascanso [o pior inimigo da qualidade profissional, savo rarissimas exceções] e avareza de ter muito fazendo muito pouco. 
Existem exceções - graças a Deus, Alá e Buda e o mais que se queira - claro que há. E os que são bons são mesmo MUITO BONS. Mas ou não estão cá, ou estão cá e lutam para sobreviver á mediocridade das invejas provincianas e golpes palacianos, ou mal damos por eles de tão ilustres incógnitos que são. Mas, no geral, repito, somos maus, pouquechinhos, remediadinhos. 
Esta campanha foi, na minha modesta opinião, uma vergonha e um atentado. Uma vergonha porque faz apelo ao melhor dos nossos piores espiritos miseristas. Quem vir as imagens que certamente passaram na comunicação social e não conhecer a realidade deste país, ficará certamente a achar que andamos aqui todos a saquear e pilhar para não morrer á fome. 
Um claro atentado porque mais uma vez prova que somos um povo estúpido que se recusa a servir o capitalismo que lhe enche a boca em conversas de café mas se serve dele quando isso o beneficia. Ou julgarão que o Sr. Jerónimo teve um ataque de altuismo e lhe apeteceu perder dinheiro para ajudar os pobrezinhos? Será dificil perceber que ou andamos todos os dias do ano a ser enganados com margens criminosas para poder ter golpes de marketing destes, ou são mais uma vez os produtores que pagam com margens esmagadas ou pagamentos diluídos de forma imoral no tempo muito disto? Afinal, o que queremos é resolver a crise ou alimentá-la?..
Merecemo-nos ou não todos uns aos outros?... 
Mais - e pior -  estou certa que muita daquela gente comprou bens que vai jogar ao lixo dentro de dias por absoluta incompatibilidade de encher o bandulho nos prazos de validade com tanta gula. É isto necessidade ou acefalia?...
Já agora, e por mero interesse cientifico, como quem "faz laboratório", gostava de ter visto o que enchia os carrinhos de tanto necessitado: leite, conservas, arroz, batatas, fruta, pão?... ou refrigerantes, bolicaus, aperitivos, refeições pré-confeccionadas, ultra processadas e com estreitos prazos de validade?
E quantos telemóveis tinha no bolso? Ligaram para a mulher da rede 91, para a tia da rede 96 e para a vizinha da rede 93 para saber se queria que levasse alguma coisa para si?  isto tudo em nome da poupança, claro está!
E quantas televisões têm em casa e quanto canais pagam?... 
Pergunto a quem viu noticias - houve jornalismo sério a cobrir isto?... alguém fez perguntas incómodas a patrões, empregados e clientes?....

Não defendo que no 1º de Maio o mundo deva parar em nome da história. O mundo é outro, precisa de outras regras, de outras mentalidades, de outras opções. Trabalhar no dia 1º de Maio, como no dia 25 de Abril, como no dia de Natal, como no dia 1 de Janeiro parece-me que têm que ser opções cada vez mais equacionadas, com responsabilidade, com sensibilidade e bom senso. Não me atrapalha que os Jerónimos e  os Belmiros convoquem gente para trabalhar nestes como noutros dias. É o mercado a funcionar. E num momento em que a cada dia os numeros de desemprego crescem de forma alucinante e assustadora, parece-me uma opção tão boa como outra qualquer, até para defender quem ganha ordenado. Mas nada do que se passou ontem tem a ver com isto. Foi um espetáculo triste, degradante, decadente. A prova provada que o cérebro dos portugueses ainda não saiu do dia 24 de Abril de 1974. E eu tenho pena. Muita pena. Mas é o que temos... E quanto factos não há argumentos.

22 comentários:

  1. Percebo-a e subscrevo quase na integra o que escreveu. Mas acredito que muitos daqueles que ontem lá fizeram compras não partilhem da mesma opinião. É que um desconto de 50% de desconto pesa, e muito, no orçamento familiar da esmagadora maioria dos Portugueses...

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  2. Pois é, querida.. tens toda, toda a razão! Não mudava nem uma virgula do teu texto. É o que temos..

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  3. Salvador, gostava de pensar que esses teriam sido a maioria, porque a verdade é que há gente a passar MUITISSIMAS dificuldades... mas não creio que tenha sido. Porque a verdade é que provavelmente esses não tinham ontem nem 50,00 para ir gastar de uma assentada...
    Em todo o caso, se houver vontade de espremer este assunto com jornalismo sério, e sem recurso a politiquices baratas, talvez nos próximos dias percebamos melhor quem foram os clientes que encheram os PD.
    Obrigada pelo seu comentário

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  4. A cenoura à frente do burro é uma história antiga... e pelo vistos a malta gosta. É o que temos e merecemos?

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  5. O meu post demonstra outra visão diferente da tua. Claro que o que se passou foi uma vergonha. Não pelo facto do Pingo doce ter aberto as portas no feriado (isso não me choca), mas em relação ao tal aproveitamento que ele e os outros grandes empresários fazem. Aproveitam a miséria do país e as dificuldades que as pessoas passam para encherem os bolsos.
    Relativamente a quem aproveitou o desconto, não critico, mesmo! também o faria. Não admito como cidadã que as pessoas tenham comportamentos selvagens. Por onde passei, não vi nada disso. Mas talvez tenha sido exceção.
    O teu texto está muito bom, Margarida, como sempre e demonstra outra visão da coisa.
    Beijinhos

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  6. É uma promoção de aproveitar. Mas realmente tem razão quanto à questão do civismo. Ontem aqui em casa fomos e aproveitamos para trazer bens que não passam de validade, nomeadamente de higiene.
    Mas houve muitíssima gente que trouxe tudo o que apanhou, que varreram literalmente as prateleiras. Nós só perguntávamos como é que ele iam comer aquilo tudo antes da validade acabar... Gente que levou 3kg de fiambre (meu deus, o mundo não acaba amanhã). O barato vai sair-lhes caro. Era tudo a ganância do trazer porque está a bom preço. Deve ter existido muitas pessoas que tudo o que ganharam no mês passado deixaram ali, mas isso eles é que sabem... As pessoas não tiveram bom senso. Porque se não apelassem ao seu lado mais selvagem tinha tudo corrido bem, muito mais pessoas conseguiam aproveitar a promoção e não tinha sido tão vergonhoso.
    Mas pronto, é o que temos. Mas ainda tenho esperança que a mentalidade melhore :p
    beijinhos!

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  7. Na verdade concordo com o que está aqui escrito. Mas eu tenho uma opinião muito ambígua, e pouco imparcial porque olho para a minha conta e lamento não ter aproveitado a promoção.

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  8. Rita, não nego que me constrange que haja quem com reais necessidades se tenha sujeitado a um mau bocado, sobretudo pela degradação da cena... e não gosto de ter razão quando as coisas são menos positivas. Preferia que me provassem o contrário... mas, neste caso, acho que não vão conseguir...
    Obrigada pela visita e comentário

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  9. Rui, parece que sim. Parece que sim...

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  10. Aline, gostei muitissimo d atua abordagem e vou tomara liberdade de a citar por aqui.
    Obrigada, pela partilha de ideias! Acredito que só assim se cresce para a cidadania

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  11. Beatriz. Não nego. E a quem não dá jeito preços mais baixos? E se me dava jeito aproveitar?... Talvez, não sei. Teria de ponderar se esta semana e para o que necessito realmente a médio/curto prazo necessitava de 100,00 em compras. A verdade é que talvez não chegue a gastar essa quantia em 15 dias... mas tenho consciência que nem toda a gente tem o tamanho do meu agregado - 2 pessoas.
    De qq forma, aborda a tal questão do excesso, da irracionalidade, que viu com os seus olhos. Se a isso juntarmos as grades de cerveja que já ouvi referir, e coisas similares... lá está, preferia não ter razão!
    Obrigada pelo comentário e partilha da experiência

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  12. Mariah, percebo. E, como digo, não tenho nada contra quem possa ter aproveitado, seja por necessidade, seja por espirito de racionalidade. Só gostava que tivessem sido a maioria.

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  13. Partilho a tua visão, inteiramente.

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  14. Ainda sobre o assunto: http://economia.publico.pt/Noticia/campanhas-no-comercio-vao-ser-cada-vez-mais-espectaculares-1544400
    Beijinhos

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  15. Essência... confesso que me sinto inquieta por ninguém vir aqui "contrariar-me"...

    Obrigada pela partilha do link!

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  16. Minha querida, concordo muito. Mas confesso assim baixinho que tive pena de não aproveitar. É que como deves calcular, 4 crianças é dose. As fraldas davam-me tanto jeito:)

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  17. Duchess, pois claro que sim! Claro que te percebo!!! Só tive uma e bem sei a renda que isso representa. Aliás, aqui fica um testemunho disso. Tenho o maior respeito!

    http://diasdeumaprincesa.blogspot.pt/2012/05/historia-do-meu-1-de-maio-no-pingo-doce.html

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  18. Contrariar é difícil, porque apesar do ponto de vista comprador ser aliciante ficar com as coisas pela metade do preço é certo que é um chamamento à loucura que se viu, ao descontrolo quase impulsivo de levar tudo ou qualquer coisa... Foi bem pensado... teoricamente quem trabalha teria recebido o vencimento há pouco tempo! Deu que falar... foi uma acção radical, um mal disfarçado de bem. Eu não fui porque só soube ao fim do dia... passei em frente a um (não fossem estar todos distraídos como eu) e assustei-me... pensei: não vou entrar nisto! AH...

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  19. ... mas pelo menos vieste aqui comentar e eu já tinha saudades de te receber nesta minha humilde casa ;)
    beijo, Sofia!

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  20. Este comentário foi removido pelo autor.

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  21. bom, mais duas perspectivas diferentes de olhar para a coisa:

    1_ como cliente pingo doce:
    chateou-me a coisa dos descontos,
    primeiro porque senti-me de alguma forma 'roubado' pelos outros dias em que lá fui e paguei sem descontos, depois, porque precisava de ir ao supermercado aqui da rua nesse dia e obviamente, por meia dúzia de iogurtes e água, ficou para outro dia.
    chateia-me ainda porque se a estratégia é ter lojas de proximidade (e por isso deixei de ir ao continente ou ao on-line), não percebo porque também querem chegar à estratégia do desesperado preço baixo. ir a todas normalmente dá asneira.
    por fim se querem proteger os produtores nacionais, não me parece que este tipo de descontos sejam bons (vai haver muito produtor a levar com a taxa de promoção em cima..).

    2_ como pseudo-estudioso-marketer
    mayday, pingo doce: foi uma imagem de confusão e histerismo. sim, foi.
    então e o lançamento de qualquer iCoisa? e os dias de saldos na Zara? ou os voucher do Ikea para os primeiros 50 clientes, ou o lançamento da colecção Versace da H&M..
    ahh, e os britânicos saldos no Harrods?

    aí já não é falta de civismo, irracionalidade, mesquinhez, país atrasado? ai é fashion, e divertido! neste caso, como é o pingo doce, e (à partida) bens de maior necessidade, já se subverteu o pensamento, que se quer simples: o consumidor compra pela vantagem competitiva. os que foram ao pingo doce porque é mais barato. os que vão ao primeiro dia do iphone, para serem os primeiros. sujeitam-se às mesmas 'humilhações', e pelo mesmo motivo: a vantagem/necessidade individual.
    em termos comerciais deve ter sido brutal: início do mês, contas com salários, devem ter feito tesouraria por 3 semanas, e a concorrência deve andar vazia esta semana (deve doer aos belmiros). quanto ao buzz, nem se fala. zero de comunicação paga: tudo viral, gratuito e passa palavra. simples. portanto funcionou!!

    claro, que na pele dos senhores de verde e preto, com voz melosa, tinha escolhido outro feriado (era óbvio - e escusado - proporcionarem o aproveitamento politico), e organizado a estrutura de forma mais ordeira. já agora associava 2% da receita a uma causa social. cinismo, mas fica bem e cala as criticas, como em todas as outras campanhas do tipo. e as causas agradecem.

    ps: o argumento que acho mais infundado: não se pode trabalhar no 1º de Maio? então e todas as pessoas empregadas na indústria do lazer (hotelaria, restauração, cinemas), ou de segurança (policia, saúde), que trabalham - especialmente - todos os fins de semana e feriados do ano.. pois, sei o que é isso.

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  22. [we]
    resumidamente: concordo integralmente com as tuas visões!

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