29.5.12

A irracionalidade da razão



Há por aí muito boa gente a experimentar um certo e estranho prazer em ter razão. Não falo da razão de provar com clareza e objetividade o conteúdo de uma argumentação. Essa é natural, fará mesmo parte da natureza humana que nos sintamos felizes por levar o nosso barco a bom porto e com isso atingir os nossos objetivos, sejam pessoais ou profissionais. É muito saudável e revelador de qualidades que, tanto em contextos sociais, como profissonais, como familiares, ouçamos dizer "tens razão". Crescemos todos, quando assim é. Mas não era a isso que me referia. 
Falo daquele prazer sub reptício e mesquinho de ver cair os outros, de confirmar a profetização de desgraças - sempre as dos outros, pois claro -  de ter ao seu alcance um momento de glória em que finalmente a voz engrossa e se sobranceia para dizer, com laivos mal escondidos de satisfação: eu não disse? eu não avisei?
A quem serve esta razão? De que serve o prazer de pisar em quem já sofre por ter fracassado ou ficado aquém de um sonho, de um desejo, de uma meta, seja por razões que lhe seja totalmente alheias ou por opções menos corretas ou conscientes da sua parte? E de que serve o prazer de ver acontecer um desfecho mau e previsível, mesmo a alguém que se, tenha a tudo custo e de toda a forma, posto a jeito para ele?... Não seria, em qualquer das circunstâncias, mais proveitoso termos estado enganados no nosso vaticínio ou na nossa previsão? Não seria muito mais saudável e positivo que os alvos das nossas pequenas vitórias nos tivessem provado, pela positiva, claro está, que era a nossa avaliação que estava errada?... 
Nada disto tem a ver com a justiça de a vida devolver a consequência dos nossos atos. É a Lei do Retorno, que pode tardar, mas nunca falha. Também nada tem a ver com o facto de termos de lamentar ou sentir piedade de quem, contribuindo para um desfecho indesejável seja do que for, se prejudica não só a si como a muitos outros. Mas sentir prazer e cantar vitórias por se confirmar aquilo que, mais do que prever, atirámos ao vento e a outros como uma espécie de praga ou profecia de quem é intocável, parece-me não só um claro sintoma de pequenez humana, como perigoso. Uma boa parte das vezes, a bem de muitas vidas e de uma sociedade melhor, mais valia termos o prazer de estar enganados. Mas isto digo eu, que  sou provavelmente ingénua...

4 comentários:

  1. Concordo com tudo... menos a última palavra.
    :)
    Adorei o título. Diz tudo!

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  2. Gostei do que li, gostei do blog
    BShell

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  3. Pois Margarida. Hoje, por acaso, sinto revolta em ver que há pessoas assim que só se sentem bem com o fracasso e queda dos outros. A Lei do Retorno... Será? Quero acreditar que sim, que essas pessoas não podem ficar impunes, pelo mal que causam aos outros e que sabem tão bem safar-se diariamente. A tal razão de que falas, não é ter razão no sentido de provar com justiça, mas o contrário. Alimentar o negativo o querer ver "cair os outros" como tão bem falas.
    A conclusão a que chego é que, por muito que não consigamos evitar a maldade de certas pessoas, podemos conhecê-las melhor e sabermos defendermo-nos delas.

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  4. Todos gostamos de ter um bocadinho de razão. Mas não gosto de ter razão quendo isso implica o mal de alguém querido.

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