17.5.12

Do verbo Ser | Carta aberta á Vida, que também lê blogs

Querida Vida,

Como bem sabes, sou do Sim e sou do Sol.
Sou do compromisso, com os outros e comigo. 
Sou da reciprocidade; não faço aos outros o que não gosto que me façam a mim; não tenho dois pesos e duas medidas. Pelo menos, esforço-me, em consciência, para que assim seja e agradeço que mo sinalizem se não o fizer. 
Sou da transparência e gosto de acreditar que mesmo que a curto prazo a honestidade possa ser penalizada ou  negligenciada, a longo prazo tem sempre as melhores contrapartidas. Pelo menos graças a isso eu, a minha almofada e o meu sono temos uma saudavel relação a três.
Sou da responsabilidade, da pessoal e da profissional. Não pratico o desporto de sacudir a água do capote e não procuro bodes expiatórios para as consequências das minhas decisões, ações e omissões. Mais, olhando para trás e sem sequer conseguir perceber se isso é bom ou mau, não mudava uma virgula no caminho que fiz até aqui. Se hoje sei que preferia ter feito outros em algumas circunstâncias, só o sei porque foram outros que fiz e com eles percebi melhor o que me servia e não servia. Incontornável, portanto. Mas pensando bem, minto. Há na minha história de vida uma única coisa que desejaria nunca ter feito - três bofetadas que dei á minha filha em momentos diferentes do crescimento. Não por todos os motivos que as podiam legitimar, mas porque não pode haver motivo que se sobreponha á macula de tocar num lugar intocável e de o fazer a quem, sendo o nosso mundo e mais além o universo, nem sequer tem tamanho para se defender. Não devia ter havido primeira, seria impensável existir segunda e a terceira terá sido imperdoável. Mas a vida é o que é e só tendo a humildade de aceitar os nossos erros e limitações podemos crescer e melhorar. Como não foi assunto que ela ou eu tenhamos guardado num quarto escuro por vergonha ou medo, está tratado com a dignidade que os assuntos que nos magoam devem ser tratados: comunicação, amor e humildade. Só daí nasce o perdão dos outros e para nós mesmos.
Sou da gestão de expetativas. Não estou em todas nem vou a todas. Umas vezes porque não sei, outras porque não posso, outras porque não quero. Mas quando estou, estou! E por vezes mesmo quando não posso estar de uma forma, estou de outra, mas não roo a corda a quem conta comigo.
Sou da continuidade. Relativizo a maioria das situações. Não estou só quando funciona, quando não dá trabalho ou quando não há problemas. Não desisto só porque não é exatamente como me apetecia ou dava jeito. Invisto nas situações e nas pessoas. Sou pela justiça e pelo direito ao contraditório. Mas não me é indiferente o curso dos acontecimentos. A fasquia é mais baixa e o grau de tolerância diferente para os que sabem e podem mais e para os que ainda andam á procura do fio á meada. E se com os segundos exploro em mim a tolerância e exercito a motivação, já com os primeiros, ao fim de uma ou duas abébias, torno-me implacável.
Sou da comunicação. O que se guarda por medo ou dor só constrói muros e ainda por cima tantas vezes assentes apenas em mal-entendidos. Só falando do que nos incomoda damos oportunidade a que os causadores do incómodo possam alterar o seu comportamento ou demonstrar o seu ponto de vista. Só da comunicação nasce a relação e a correta interpretação do que somos ou queremos ser.
Sou da liberdade. Sem liberdade não há caminho. Sem liberdade não há amor.
Não necessito que alguém me ame para me amar a mim própria, embora me pareça inquestionável que ter  tido uma infância acompanhada, protegida e pensada tenha tido grande responsabilidade nos níveis de segurança e auto-estima com que sinto bafejada.
Não necessito de companhia para almoçar, lanchar ou jantar, nem para ir ao cinema, a um concerto ou dar um passeio á beira mar. Fico feliz se a tiver - a vida tem outro sabor quando partilhada com as pessoas certas para cada momento - mas retiro saudável e genuíno prazer da minha companhia.
Não necessito de ter na minha vida um homem para estar motivada a todos os dias me sentir bem com o que visto, para me pentear, maquilhar, mimar com creme ou perfume, fazer a depilação. Também nunca necessitei de marido ou namorados que me pagassem contas, nem suspirei para que me oferecessem jóias, viagens, aquela casa ou aquele carro. Há quem o faça e tenha? Fixe! Bom proveito!
Não preciso de um ginásio para ter a disciplina de fazer exercício físico; não necessito de policias que me obriguem a fazer uma alimentação saudável e adequada em nome da saúde e do corpinho.
Não necessito de empregada que cuide da minha casa ou das minhas coisas.
Não é por não ter a casa dos meus sonhos que trato mal a que tenho ou me desmazelo no seu cuidado, muito pelo contrário, mas também não contraí empréstimos ao consumo para a redecorar ou tornar noutra, nem para fazer as viagens que ainda não fiz, nem ter os gadgets que até quem pode menos que eu tem.
Reciclo como quem pratica uma religião e pago os impostos e todas as minhas despesas com escrupulosa pontualidade. Não desperdiço comida e sou atenta ao consumo desnecessário de água, luz e gás.
Não preciso de ir á missa nem a nenhum templo para ter uma fé inabalável e respeito rigorosamente todas as religiões. Sabes bem que ás vezes te chamo Deus, outras Luz, outras Vida. Vai dar ao mesmo.
Nunca precisei de ter um encontro imediato com a morte, nem de temer pela vida de alguém, para passar a dar valor aos pequenos nadas que são tudo na vida. O sol, a chuva, o som do vento nas árvores, uma joaninha que pousa na mesa do lado, o canto de um pássaro, a cor de uma onda quando enrola, uma música que entra na nossa vida no momento exato. Também nunca precisei disso para não me esquecer de todas as formas que tenho ao meu alcance para dizer quanto amo, cuido e protejo todos os que me são importantes.
Não preciso de estar apaixonada para ser arrebatada pela intensidade de uma lua cheia, nem para ficar inebriada a ver um céu estrelado até ser surpreendida e deixar-me comover pela magia de uma estrela cadente.
Não guardo rancor nem alimento ódios de estimação pelos que não sendo de bem nem pelo bem, se atravessam no meu caminho. Não esqueço, mas isso é outra coisa e no limite não tenho dentro de mim nada que me impeça de perdoar a quem o mereça. Não carrego na minha bagagem, por opção de vida, nenhum peso de carga negativa.
Não sofro menos do que os que não arriscam por medo de falhar, por medo de sofrer, por medo da sombra. Sofro o mesmo e se calhar há casos em que sofro mais. Mas não gosto de sofrer, não tenho feitio para mártir, nem para a auto comiseração. Mas vê lá tu como a vida é bizarra, por estes tempos dói-me tudo. Não há nada que não doa - nem os abdominais, e tu bem sabes quanto os detesto fazer, mas nesta guerra do ou ganham os 41 ou ganho eu, não dá para assobiar para o lado e dar tréguas, que as distrações já ganharam demasiado terreno.
Sou reconhecida e grata á vida pela saúde férrea que tenho, e pela saúde de todos os que me rodeiam, como o sou pela família que me ampara e pelos amigos que me aconchegam. Em tudo o que posso, essa gratidão é expressa em reciprocidade, na entrega do melhor de mim a quem tanto me dá.
Não estou sempre certa. Não estou sempre bem. Não estou sempre disponível. Faço questão que conheçam as minhas dificuldades e as minhas limitações. Sobretudo, sou intransigente em que as respeitem, porque é o que faço com as dos outros, concorde ou não com as suas opções.
Não tenho grande mérito em muitas das coisas que custam muitíssimo a outros, que as querem ou esforçam por colocar em prática nas suas vidas. Trouxe de origem os chips da disciplina, organização, auto-motivação e determinação. Dão um jeito do caraças, verdade seja dita!
Ao longo da minha vida tenho sido mencionada pela força, coragem, entusiasmo e determinação que, ao que parece, são inspiradores para muitos. Se o sou fico feliz, mas não tenho nem nunca tive pretensões de dar cartas sobre coisas tão sérias na vida. Se a observação do meu caminho for útil a alguém, excelente, mas se me perguntarem por fórmulas limito-me a falar da minha experiência. Não tenho a menor dúvida de que cada um de nós tem um caminho e que o que serve a cada um, para além dos principios e valores estruturais da vida, não se vende em versão fastfood nem prêt-á-porter. Dá muito mais trabalho do que isso e é a isso que uma boa parte não está disposta. Porque tomar a vida nas próprias mãos dá trabalho, cansa e muitas vezes frustra. Até chegar á velocidade de cruzeiro, a maioria de nós pena, e muito! Eu que o diga!
Já esfolei muito joelho, já fiz feridas profundas. Umas sararam á custa da minha saliva, outras com os pensos rápidos e os hirudóids de beijos, colos e ouvidos que a vida me tem proporcionado na devida altura. 
Mas vamos lá falar a sério, Vida. Tu que sabes que não sou budista mas acredito na reencarnação, que não sou católica mas que sei que Cristo morreu por nós, que não vou a Fátima mas que acredito em milagres, tu que sabes que não preciso ver para crer e que me move a profunda convicção de que a vida é uma caminhada de crescimento e ascensão espiritual, diz-me lá, Vida... não podemos passar ao módulo seguinte? Não te parece que aquela coisa de dar valor ao que se tem, fazer todos os dias o melhor que se pode e sabe, de não lixar a vida a ninguém, de lutar perante as adversidades, de manter a fé e os níveis de autoestima e motivação mesmo quando nos foge o chão, de ser humilde perante os erros e os resultados, de não ter pretensões de perfeição mas não desistir de melhorar e de desbravar caminho na escuridão, tu diz-me lá, Amiga... essa merda não está toda preenchida, já com diversas revisões da matéria dada?...
Eu por acaso disse--te que queria ser Mestre de alguma coisa?... Disse? Epá, se te disse tu ignora, que só pode ter sido alguma bebedeira pré-parto, com líquido amniótico, que tu bem sabes o que penei para ver a luz ao fundo do túnel, que a luta começou logo aí, para chorar tive de levar porrada á séria e tudo, lembras-te?.. E cá para mim, ninguém me tira esta, é por isso que eu não consigo ver cenas como a do Titanic a encher de água os corredores.
Mas voltando á vaca fria que eu não quero que te distraias: bora passar ao módulo seguinte? Bora?... Sem desafios do tamanho do Universo, sem brincar á cabra cega, á apanhada, ás escondidas, ao dá e tira - desculpa lá, mas embora eu saiba que o inferno é aqui, sempre ouvi dizer que quem dá e tira vai para o inferno, e tu não és disso! 
Mas olha, estou mesmo a falar a sério, não achas que já está na hora de passar aquela parte do ser estupidamente feliz sem ter de custar tudo assim para lá de uma tonelada?... Não te parece que aqui a amiga se porta bem com´ó caraças desde pequenina e já merece um bónus para além daqueles por que já te é reconhecida e grata? Não te parece que está na altura daquele package prestige?...
Eu sei que temos falado muito ultimamente - aliás, nos últimos dias, além das conversas contigo, pouco mais do que É um café se faz favor. Quanto é? Muito obrigada. tem sido - mas bateu-me aqui uma coisa dentro e achei que também te devia escrever, que eu sei que tu também andas nestas coisas das redes.
Amiga, tu sabes que sou da paz, do zen, do o Tempo tudo esclarece e resolve, do acreditar, do não baixar os braços. Sou mesmo! Tu sabes que não é conversa da treta! Mas sabes o que é?... É que me parece um estúpido desperdício ter tanto para dar á vida e aos outros - com o que eu sei que tu sabes que eu sei e posso dar - e andar aqui a marcar passo. E não me venhas com aquelas cenas das vidas passadas e do que temos de pagar porque, das duas uma, ou fui o Hitler e está tudo explicado, ou já tenho saldo para só voltar a pagar contas lá para os sessenta. Pode ser?... Estamos conversadas?... 
Módulo seguinte - Estupidamente feliz. Versão esforço light - Eu nem te peço o Nirvana! 
Agora sou eu que te digo: vê se te focas e faz-me lá isso, que nem é favor e tu bem sabes!




Nota, a quem me lê: ponderei não disponibilizar comentários a este post. Mas a opção de escrever este texto aqui e não numa folha A4, que guardasse numa gaveta para memória futura, faz a diferença. Porque este é, efetivamente, o meu diário de bordo. Porque não me incomoda partilhar a intimidade do seu conteúdo. Porque um blog que é público e é respeitado, como este é e tem sido ao longo dos anos, faz-se de partilha em ambos os sentidos. Esse é para mim, um dos maiores prazeres nesta casa. 
No entanto, também pelo conteúdo, nenhum dos eventuais comentários a este post terá resposta da minha parte. Obrigada.


11 comentários:

  1. Curvo o pescoço e mantenho este silêncio em sinal de respeito.

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  2. Sorrisos, lágrimas, beijos e uma vontade enorme de te abraçar por mais nada saber fazer aqui e agora...

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  3. Querida Daisy, adorei o texto. Completo, sincero e complexo. Também deu para rir e como te compreendo! A vida é assim mesmo, muitas vezes não percebemos porque acontecem certas coisas e essa treta do "o tempo explica tudo" pode ser desesperante contudo li uma coisa já no fim com a qual não concordo e que é um pensamento que sempre me anima quando estou em baixo quando dizes "pagar as contas para lá dos sessenta..." não preferes pagar tudo por adiantado, agora que tens força e ter uma velhice tranquila, sem sobressaltos e feliz? Pensa nisso!

    Beijo grande

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  4. Adorei o teu desabafo. Se me identifiquei, certamente que sim. E deixo aqui, um abraço apertadinho :)

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  5. É a primeira vez que aqui comento, embora leia frequentemente este teu blogue. Quanto ao que acabei de ler, nada mais te direi a não ser que me fez chegar uma lágrima ao olho (muitas, para ser honesta).
    Bora é uma expressão que, também eu, utilizo com um carinho muito próprio e à qual sorri quando aqui a encontrei. Bora é bom e se assim é, não vejo porque não o arriscares uma nova etapa da tua vida. A vida é tua, a motivação é tua e não precisas de autorização: enche o peito de ar, abre a porta e vai-te a ela, porque a Vida é um Bora Ser conjunto de tudo, onde o amanhã nada mais é que uma continuidade ou uma consequência do presente. Atreve-te!
    Uma beijinho.

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  6. Muito bom, cheio de sentimentos e emoções. Parabéns...

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  7. E esta certeza enorme, que guardo dentro de mim, que a VIDAAA, sim ELA, a quem escreves esta carta, leu e gostou...e vai-te ouvir, minha doce e querida M. que guardo no <3.
    GosToTEEE !!!

    Nota: ELA vai surpreenderTE, que eu sei :-)

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  8. Minha querida Margarida, impressionante este teu desabafo/reflexão.
    Eu gostava de ser como tu, ter esta capacidade de análise e coerência, perante a vida!!
    É que ela, por vezes leva-nos para caminhos que nós não gostamos efectivamente, parece madrasta e não mãe. E como todas as mães, nem sempre tem razão...
    Beijinhos.

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  9. O meu silêncio e o meu respeito fica aqui expresso. Genial quem escreve aquilo que tantos queremos dizer. Bem hajas.

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  10. Excelente texto Amiga.

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  11. texto impressionante ...sincero e transparente...espero que a voda realmente nao faça ouvios mouços e te eleve ao módulo seguinte

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