3.9.12

Os cães ladram mas a caravana não passa!


Há muito tempo que me faz confusão a recorrência com que ouço as pessoas falarem e ambicionarem o fim da crise. Sabemos bem que esta senhora - que há conta de tanta fama já tem quase personalidade jurídica, - tem umas costas de nadadora de alta competição onde vão repousando sem pejo todo o tipo de atrocidades sociais, jurídicas e económicas dos últimos tempos. Corta-se a direito no que bem se quer e melhor se entende, tudo em nome da correção e equilibrio das finanças públicas, e nas privadas também não vai sendo exceção. É claro que todos temos noção de que as coisas andam pretas - eu que o diga, que sei tão bem a que sabem estas revoluções - que o dinheiro deixou de ser resistente às lavagens e que anda cada vez mais curto. Mas a verdade é que não é a primeira vez que o mundo passa por uma história assim e, nunca como antes, apesar de não parecer, houve tanta rede para poder aparar as quedas. Dúvidas? Revisão da matéria dada, por favor.

O que me parece acontecer hoje em dia é que diminuimos drasticamente a nossa resistência à frustração. Durante os anos em que andámos embebedados com falsas estabilidades financeiras, graças à venda livre de alcool pelas entidades bancárias, em apeteciveis shots e cocktails que patrocinavam casas, carros, mobilias, viagens, obras, tudo e mais alguma coisa, tudo em nome da felicidade eterna e da estabilidade dos mercados chupistas, à conta dessa brincadeira, e do que nos ensinaram as três gerações anteriores, a vida estava garantida e com ela todo o conforto que almejavamos era nosso por direito adquirido, a esforço zero, de preferência.

Pois que agora, aqui d´el rei que nos enganaram, que nos disseram que nos bastava a todos ser doutores e engenheiros para comprar a casa de sonhos e poder pagá-la, mais todos os outros empréstimos que contraímos em montantes dez vezes acima das nossa possibilidades e a pagar numa vida inteira de suaves prestações! 
Quem nunca contraiu um crédito que atire a primeira pedra! Eu não atiro! Mas o problema foi a grosseira negligência em que tantos e tantos se deixaram enredar e não foi para comer... foi para, como alguém que conheci já dizia há uns bons anos atrás, ter o minimo e indispensável para parecer que temos muito. Para Ter em vez de Ser. Pois que a história estava mal contada, estava sim senhor e, perdoem-me a crueza, só não foi vendo quem não quis ver....

Comecei por dizer que há muito tempo que me faz confusão ouvir as pessoas falar da crise apenas numa perspetiva ansiosa, como quem vigia a toda a hora o relógio, para ver quando passa. Porque o que para mim é mais evidente é que não podemos estar à espera que passe para continuarmos a fazer ipsis verbis o mesmo. Porque cá para mim, que nem risco uma de economia nem arrisco uma conta de cabeça, a coisa não vai passar se esse for o nosso único objetivo: ficar à espera que passe para fazer de conta que nada se passou. Passou, senhores! Passou e passa todos os dias por alguma coisa. E vai continuar a passar, se o que mais desejamos é que os mercados ressuscitem, para o consumo não sustentável nos continuar a entupir de doces superfluos.  Será assim tão dificil perceber que tudo o resto está a margem deste problema e vem a reboque?

O que esta senhora nos pede não é que nos sentemos à espera que o tempo a resolva. É que mudemos todos os paradigmas da vida que conhecemos na história do segundo pós-guerra. Para mim é mais do que clara a sua mensagem... Ai querem esperar sentados que eu me vá embora?... Então, se não gostam de se sentar na relva ou na terra batida, é melhor começarem a construir os bancos com as próprias mãos! 
O que me parece é que anda demasiada gente preocupada em dizer que foi enganada em vez de lançar mãos à obra. O pior é quando perceberem que há coisas que já não voltam mesmo! Para o bem e para o mal.

Em consonância com o que penso, este discurso (demagógico, para muitos, bem sei!), aqui.

17 comentários:

  1. Não diria tanto. Mas com esta crise aprendi mais do que em 10 anos: aprendi a rever prioridades, a distinguir o supérfluo do essencial, contentar-me com a casa que tenho e o carro que tenho (sem ambicionar ter outro); mais do querer ter isto ou aquilo, o meu objetivo mensal é conseguir pagar as contas mas não queria que faltasse nada ao meu filho.

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  2. Haverá sempre quem nunca aprenda... a memória é curta e a ganância não tem limites.

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  3. @Aline, eu também quero que não falte nada à minha filha, mas como o que me preocupa é o essencial, desconfio que não vale a pena perdermos o sono... :)


    @Rui, curta, curtissima!!! E talvez por causa disso a ganância vá acabar por dar um valente tropeção... veremos!

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  4. Querida BTW,

    Se é verdade que é indesmentível o que aqui apontas, e que o próprio comentário da Aline confirma, é preciso também ter o discernimento para para perceber que não foram as pessoas, os pobres contribuintes desta espécie de país os responsáveis por esta crise que se abateu sobre nós e que pouco tem a ver com a crise que existe um pouco por todo o lado.

    As crises, que existem um pouco por todo o lado, são independentes ainda que basicamente iguais. E são iguais porquê? Porque os mesmos erros foram cometidos um pouco por toda a parte e por isso a crise é quase universal. Mas não universal num todo. Não há uma crise universal. Há é uma crise individual em muitos países... É essa a universalidade da crise!

    Eu acho, mas cada um pode achar o que quiser, por enquanto sem pagar imposto, que a crise por cá deve-se ao muito que roubam - são milhões, minha linda, muitos milhões - esta corja de políticos, delapidando o país até não haver mais nada para roubar ou desviar, e à especulação bancária.

    As pessoas foram cegas durante anos - e continuam na mesma - votando sempre numa cambada de corruptos, de interesseiros, e sempre de cara alegre. Mas se é verdade que são co-responsáveis também é verdade que não foram elas que encheram os bolsos e que, agora, de bolsos cheios, vêm "mandar postas de pescada" sobre a maravilhosa - era assim tão maravilhosa ou parecia mais maravilhosa do que era na realidade? - vidinha que tínhamos antes. Pois, de bolso cheio todos sabemos apontar o dedo mas a verdade é que pagamos impostos exorbitantes para aquilo a que temos direito (quase nada, diga-se).

    Há muita gente a passar mal, cada vez mais gente a passar mal e cada vez pior, tal como há muita gente a viver cada vez melhor. Praticamente não há meio termo.

    E o que é isso do essencial? Podes explicar-me? É ter que comer? É ter onde dormir? Ir ao cinema é essencial? E jantar fora? também pode ser ou isso já é um luxo?
    E férias? Temos direito a férias? E onde? Em casa? Ou podemos ir passar 15 dias ao Algarve (ou outro lado qualquer)? Ou passar para o sul da Caparica já é um luxo a que só os ladrões deste país têm direito?

    Eu não vejo a coisa assim, BTW!
    O Estado tira-nos tudo. Ficamos com o quê? Resta-nos trabalhar, comer e dormir?

    Rapariga, entre 2/3 e 3/4 do que tu custas à tua empresa acaba no Estado em impostos, directos ou indirectos. Achas que é isto o justo? É para isso que trabalhas? Que trabalhamos todos?

    http://ensaiossobreavidanaterra0.blogspot.pt/2010/09/um-labrador-para-ocde-please.html

    http://ensaiossobreavidanaterra0.blogspot.pt/2012/06/demoraram-mas-chegaram-la.html

    As pessoas, as que se esforçam e produzem, deviam ter direito a mais que um emprego, água, comida e um local onde dormir. Deviam poder gozar a vida e se quisessem fazer algumas loucuras, porque não?

    A verdade é que quem tem um trabalho dito normal é que paga sempre estas crises. Muita gente fora dos trabalhos ditos normais vivem muito para além do essencial e ninguém lhes aponta o dedo mas já é fácil apontar o dedo aos comuns "normais".

    Mas, como comecei por dizer, não deixas de ter alguma razão. Só que as razões maiores estão para além disso... (na minha opinião)

    Beijo (vá, três para compensar...)

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  5. Margarida: brilhante o teu texto, esmagador, mas absolutamente verdadeiro o discurso desse Homem. Concordo em absoluto, desde antes da "Famosa" crise. De que me serve ter dinheiro para ir todos os dias jantar fora, se, na verdade, sou tão mais feliz a cozinhar, com amor, para o meu filho. Aprendi isso em miúda, muito miúda: ter o necessário para o essencial. O que tu levas daqui, deste plano, desta vida, não é o carro, a casa, é o que vives de verdade, a felicidade. E sim, anda muita gente a viver ao contrário, há muito, muito tempo. Prefiro que o meu filho passe tempo comigo, do que com uma ama só para poder ter um carro novo aos 18. Não. O carro não o abraça. Muito obrigada pelo texto. E pela partilha.

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  6. Anónimo4.9.12

    simplesmente maravilhoso, não diria melhor! obrigada, levei! beijo, Joana

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  7. M.,
    Adorei o teu texto e o discurso.

    Esquecendo que o sr. é político podemos dizer que o que ele diz é a pura das verdades, vivemos para encontrar a felicidade, esteja ela onde estiver.

    Mas. para muitas pessoas a felicidade é terem sempre mais e mais: uma casa maior e melhor, um carro melhor, roupas melhores... se concordo? não, em absoluto, mas é um modo de vida. Talvez mais tarde se apercebam que "a vida rapidamente se vai" e não há nada que tenhamos cá na terra que levemos connosco a não ser o que vivemos, o que amámos e o quanto fomos felizes.
    Mas deixo para eles, esses que acham que o consumo é uma forma de felicidades, o poder de perceberem isso, talvez tarde demais, infelizmente.

    Também gostei de ver a cara (de enjoo) de alguns dos que estavam a ouvir o Sr. Presidente do Uruguai.

    E nada disto passa na comunicação siocial, só o importante, o que comanda a vida que podemos ver a olho nú: a do dinheiro.

    Bj** e obrigada pela partilha e pelas palavras.

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  8. Querida Margarida, muito bom este teu texto, igual a ti própria!
    Mais do que falar da crise, tu ti«ocas aqui num ponto fulcral: o que é essencial para o nosso bem-estar e qualidade de vida.
    E como tu bem sabes, o bem-estar é um índice que mede o desenvolvimento de um país. São os chamados IDH.
    E por vezes são tão, mas tão pessoais!
    Beijinhos grandes.

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  9. Querido Miguel, como alguém que eu conheço costuma dizer, só me lixas!
    Desconfio que com um comentário destes vou dar uma resposta maior do que o post, que é coisa para a qual tu sabes que não tenho muita vocação para fazer por aqui. Prefiro uma boa conversa, com direito a contraditório em direto, mas ainda assim, aqui vai:

    Sei, conheço bem as tuas opiniões sobre a culpa dos politicos e sabes que em parte concordo. Mas sabes também acho que temos exatamente os politicos que merecemos. Enquanto os politicos andaram a distribuir dinheiro a torto e a direito, com subsidios para tudo e mais alguma coisa, ninguém teve uma visão critica nem andou preocupado. Para mim, é como pegar na história da cigarra e da formiga, "ai cantaste durante todo o Verão? agora dança!"

    No que deixei no post, falo pela minha análise, que é obviamente apenas uma opinião. E não é por não estar a ter as minhas dificuldades. O que acontece é que vim de familias humildes, de gente que sempre teve de trabalhar para ter o que teve e tem. Sou neta de costureira, alfaiate, padeiro e gente do campo. Os meus pais tiveram profissões mais confortáveis, mas aos 50, o meu pai viu a empresa onde trabalhava há quase 30 anos falir do dia para a noite, e foi aos 50 que abriu a sua empresa, da qual ainda vive hoje e onde trabalha 12h por dia. O meu pai tem 70. Sou filha única, e se é verdade que nunca me faltou nada, também é verdade que nunca nada me caiu do céu. Carta e carro, por exemplo, só tive já a minha filha tinha 1 ano - tem 13, agora - e nunca me senti menos ou infeliz ou pior que alguém. Andei muito de transportes e acho que só me fez bem. Quando tirei o curso, havia gente cujos pais tinham bem menos possibilidades e ia de carro todos os dias... lá está, carta, carro, seguro, combustivel e muitas vezes acima do que as pessoas podiam... acho que não preciso alongar mais este ponto.

    Sinceramente, estou-me nas tintas para os politicos e politicas deste país. Só durante 3 anos de trabalho soube o que era ter subsidio de férias. Não estou à espera que o estado me financie seja o que for. Neste momento estou, mais uma vez desempregada a lutar com unhas e dentes para colocar em prática um projeto com cabeça, tronco e membros para me dar trabalho a mim e a mais gente. Sei o que é fazer equlibrio no trapézio sem rede. Já o fiz, nos últimos anos, muitas vezes. Para mim, nisto tudo que vejo a acontecer, há zero de novidade. Saber que posso contar, caso necessite, com a ajuda dos meus pais é obviamente um grande apoio, mas não penso nisso como solução e sei que se não a tivesse outras soluções encontraria.

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  10. O que é o essencial? Só te posso responder o que é para mim: alimentação, saúde e educação, conseguir transmitir à minha filha que a maior parte da felicidade é inteiramente gratuita e ensinar-lhe a ser adaptável ao meio ambiente e às circunstâncias. A alimentação que lhe é importante - a saudavel, confecionada em casa, é a mais barata. A saúde, posso dizer-te que tenho há muitos anos um seguro de saúde e continuo a ir aos hospitais públicos sempre que preciso - que felizmente, é muito pouco; educação: frequenta um colégio desde os 3 anos, por uma opção que é conjunta e familiar, mas se tiver de um dia para o outro de ir para uma escola pública vai, sem pensar duas vezes. E vai igualmente bem, que tenho a certeza que em muitos aspetos, só ficará a ganhar.

    Não estou nada preocupada se vai tirar um curso numa faculdade reconhecida, aqui ou fora de portas, nem se vai ter carro aos 18, como diz a Paula, ou se tem telemóvel da marca X, ou outras coisas da marca Y. Se tenho e não me faz falta, pode ter; porque não?; mas se não tenho a felicidade dela não periga em nada. Ensino-a, através do meu exemplo, a dançar consoante a música e a não andar sempre frustrada com o que não tem mas antes satisfeita pelo tanto que tem e pode sempre ter, a custo zero.

    Sinceramente, tenho pena de ver a memória coletiva tão apagada da sua própria história. Já vivemos todos com muito menos do que agora parece ser realmente imprescindivel. Sabes o que dariam as pessoas que a esta hora vivem debaixo de bombardeios para ter uma vida tão dificil como a nossa, que é em paz?...

    A mim parece-me que um terramoto pode levar-nos a todos muito mais do que o Sócrates, o Passos ou o diabo que os carregue a todos. Quando isso acontece, como se sobrevive, num país onde estamos sempre revoltados e à procura de culpados? Acho que ao termos sido um povo privado de guerras e catástrofes ficámos mais frágeis, mais diminuidos na nossa capacidade de sobreviver. Somos como uns meninos mimados, caprichosos, que se não têm sempre a boca doce com um rebuçado fazem birra, porque a vida lhes fica logo amarga.

    A mim preocupa-me muito menos a crise e preços do petróleo do que a de escassez de água que se pode verificar daqui a poucos anos. Sinceramente, as minhas preocupações com o essencial estão uns furos mais à frente. E se sei que a parte que posso fazer é infima, educar a minha filha para a adaptação às circunstâncias e à sobrevivência é uma parte importante do meu papel como mãe.

    Sem qualquer juízo de valor para quem nos próximos tempos se andar a manifestar por aqui e por ali, contra as medidas do governo e as obrigações ditadas pela Troika, comigo não contem. A mim não me vão ver mexer um dedo. Primeiro, por coerência, se decidi que não volto a votar enquanto a politica não for uma coisa séria e com responsabilização civil e criminal pelos resultados, também não vou opor-me a nada. Segundo porque o que me é essencial a mim e à minha filha não é encontrar culpados, mas aprender a viver de acordo com as circunstâncias, lutando, continuando a fazer a nossa parte para melhorar as nossas.

    O Estado tira-nos tudo, é verdade. Mas quando andou a dar tudo não foi menos criminoso, nem menos irresponsável. A diferença é que andava tudo calado, com o tal rebuçado. Além disso, para mim a relação com o estado é igual a qualquer outra. Só estamos na relação que queremos, como queremos e com quem queremos. Se é disfuncional, mais vale cortar o cordão umbilical. Ficar à procura de culpados parece-me uma perda de tempo. Pelo menos para mim, e como sabes, sei bem o que é fazer um divórcio amigável.

    E com isto tudo foi um discurso. Se te der para responder, força, que bem te conheço, mas a tréplica não vai por aqui, mas ao vivo e a cores, em frente a uns pimentos padron, que as outras almas que por aqui passam e fazem a fineza de comentar, não têm que levar com as nossas dissertações. VALE?... ;)

    4 beijos, que essa coisa gosto aos pares... que não sou tia, sabe?... :P


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  11. p.s. tal como previa, o comentário teve de ir em duas postas, por limitação de carateres, do blogger. Só tu, para me fazeres isto!

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  12. Paula, é isso, claro que é isso!

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  13. Tanita, de facto, as carinhas de enjoados dizem tudo, sobre o estado bruto e embrutecido em que muita gente ainda está. É uma pena e tem um preço, pago regiamente por muitos de nós.

    A comunicação social só divulga o que lhe interessa, ao sabor de interesses de tantos outros. Felizmente a informação é cada vez mais fácil de circular, de outras formas mais isentas.

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  14. Querida Turista.
    É por isso que acho que o essencial não tem de ser igual para todos. O essencial mesmo é que as pessoas encontrem o equilibrio entre o que desejam, o que podem ter e o que lhes é essencial e acessório. Havendo compromisso e consistência com o que somos e não uma obcessão com o que queremos parecer, a coisa ajusta-se com naturalidade. É nisso que para mim reside o bem-estar e não numa fórmula mágica aplicavel a todos.

    Beijinho grande!

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  15. *obsessão!

    perdão pela gralha!

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  16. :)

    Depois respondo-te com tempo, BTW, ok?

    beijinhos com saudades

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