15.3.11

Querido Silêncio


Eu sei que a beleza e o silêncio parecem ser mundos perdidos. Não sei se será porque o coração de muitas pessoas vagueie entre uma sala de troféus e um museu com figuras de cera ( e as assuste que, ao pararem, de desvaneçam as brumas e fique mais nítido tudo o que lhes falta). Muitas fogem do silêncio como se ele não as levasse ao encontro de si. Acordam com as noticias da rádio. Vão para o trabalho com as noticias de trânsito. Tomam café ou almoçam, a correr, por entre noticias da televisão. Regressam com as noticias. E adormecem, no sofá, embalados por elas. O silêncio, até há pouco, resumia-se a um minuto, por homenagem, diante da morte de alguém (e, mesmo assim, vai sendo substituído por salvas de palmas)

Ora, eu acho que o silêncio está à beira da extinção. O silêncio que nos permite meditar. E sentir. E contemplar, com júbilo, com espanto e com surpresa. O silêncio que nos permita sentir a presença de alguém, juntinho a nós e que, mesmo entre o burburinho dos gestos, nos escute, sem falarmos.

Não sei se do silêncio se chega mais depressa à beleza. Sinto que sim. Mas acho que não chega estar vivo para se ser feliz. Precisamos de ser imaginados, com encantamento, por alguém.
Não precisa de ser um arquitecto, excêntrico ou visionário. Nem uma mãe, por fora para sempre, ao pé de nós. Mas alguém que nos permita meditar, que nos aconchegue ao mundo, discretamente, que - entre o burburinho dos gestos - nos escute, mesmo sem falarmos e, de surpresa, se transforme na nossa lagoa do silêncio.

Eduardo Sá

9 comentários:

  1. Querida Margarida, eu adoro o silêncio. Vivo actualmente rodeada por ele e cada vez gosto mais desta beleza :)

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  2. Manuela,
    Faz parte de uma boa parte de mim ;)

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  3. sempre tão bem escolhidos estes excertos.
    gosto muito do silêncio e do que as ideias sobre ele nos trazem.
    obrigada :)

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  4. Aqui em casa é ver-me baixar o volume às TV's e rádios, para tentar estar em paz a fazer o que quer que seja. Não há alma que aguente.

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  5. Por vezes esse silêncio é sempre interrompido por um qualquer e involuntário som… logo, eu só conseguir sentir esse silêncio na sua plenitude uma vez por ano.
    Tu sabes onde é... já te disse. É mais que um silêncio, é uma desmedida paz.

    Beijo!

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  6. Eu gosto do silêncio de preferência à noite, pendurada na minha janela a contemplar o céu e a ver o rio. E é das poucas alturas em que o frio na cara não me incomoda e em que sou sou eu com os meus pensamentos

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  7. Queria muito esse silêncio , que o Eduardo tão bem descreve . Tantas vezes nos esquecemos de parar e ficar em silêncio .

    Obrigada , por este lindo post .

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  8. Há silêncios tão confortáveis - como aqueles que partilhamos com as pessoas que mais amamos, como aquele que desfrutamos sozinhas com um prazer delicado.

    No silêncio somos mais nós e por isso é que muitos se escondem por detrás de burburinhos e falatórios vãos. é no silêncio que ouvimos o mais intimo de nós e isso assusta muitas pessoas.

    Para mim o silêncio é dos melhores remédios... e das melhores terapias :)

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