- a simplicidade de um pequeno-almoço mais-que-perfeito -
26.4.16
Medicina tradicional preventiva
As chagas, também conhecidas por capuchinhas, nastúrcios ou mastruço do Perú são originárias da América do sul de onde foram trazidas para a europa pelos conquistadores no século XVII. Eram muito utilizadas como planta medicinal em toda a região dos Andes.
Tanto as flores como as folhas e as sementes são comestíveis. O sabor é levemente apimentado e penetrante, semelhante ao do agrião,
São ricas em vitamina C, glicocinatos, ácido fosfórico e oxálico, enzimas e componentes antibióticos que não afectam a flora intestinal. Existem inclusivamente estudos que comprovam que as chagas ajudam a promover a formação de células vermelhas ajudando assim a combater a anemia.
Hoje, ao almoço, algumas que colhi diretamente de um vaso na minha varanda, juntaram-se a uns couscous com pimentos laranja e mangericão. Foi como servir o sol à mesa.
13.4.16
10.4.16
9.4.16
6.4.16
Project#6 | Carmo Moser ✩ Apaixonada por corridas e viajante compulsiva
Foram as redes sociais que nos juntaram. Não sei como nem quando. Não sei se a descobri primeiro ou ela a mim. Sei que nos fomos descobrindo. Sei que foi a paixão comum pelos livros de infância que nos aproximou e nos fez amigas e que foi através dela que descobrimos tantos outros interesses partilhados. Sou particularmente admiradora do seu ar dócil e sereno, do seu discurso tranquilo e do indescritível talento que tem para criar.
Carmo Moser, a 5ª convidada do Project#6, é designer, mãe, apaixonada por corridas, viajante compulsiva e fascinada por ilustração infantil.
Numa amena tarde deste Abril percorremos os "seus caminhos", por entre o perfume da esteva que começa a despontar, o som da água que saltita por entre as pedras e o intenso verde primaveril que se sobrepõe aos cada vez mais raros vestígios do rigor invernoso da Serra de Sintra.
Tenho a certeza de que tudo o que já viveu e experienciou até aos seus 36 anos dava um excelente livro. Não sendo essa a missão desta conversa, sei que vão compreender neste pequenino registo por que razão o digo.
Carmo, estamos no coração da tua serra e que é a serra que vive no teu coração.
Que fascínio é este por Sintra? Quando começou?
Nasci em Madrid, mas ainda muito pequenina vim viver para a Eugaria, no sopé da serra de Sintra. Quando era criança, fartava-me de brincar por aqui. Tive uma infância maravilhosa, muito por “culpa” deste lugar fantástico! Nunca esquecerei as caminhadas pelos trilhos, os acampamentos com os meus primos e irmãos, as entradas à socapa no jardins do Monserrate, os passeios nas noites de verão para apanhar pirilampos... enfim, um sem-número de aventuras inesquecíveis. Depois fui crescendo e a serra começou a ficar para segundo plano. Entrei em Belas Artes e senti uma enorme vontade de conhecer todo um mundo novo. Foi uma fase da minha vida bastante citadina, em que adorava o rebuliço de Lisboa. Mas como costumo dizer, eu tenho uma “veia saloia” e essa fase citadina foi desvanecendo. Rapidamente voltei às origens. Em 2011, comecei a correr e descobri outra vez a “minha” serra. Desde então tem sido um namoro constante! Não tenho dúvida alguma que este lugar faz parte da minha vida... faz parte de mim!
Já me deste o mote para a pergunta seguinte. É também aqui, por estes caminhos e trilhos tantas vezes mágicos, que te dedicas a uma das tuas maiores paixões, a corrida, como acabaste de referir. Como é correr em Sintra? Que relação tens, nesse aspeto, com esta serra?
É um privilégio poder ter a serra de Sintra literalmente à porta de casa! É um lugar fascinante onde consigo encontrar serenidade... paz de espírito. Não há melhor que ir correr no meio de uma paisagem fabulosa, por entre árvores lindas, a ouvir os passarinhos e os riachos, a sentir os cheiros ou admirar o nevoeiro tão típico de Sintra e que eu tanto adoro! Estou sempre de “olho” nos tesouros que por aqui estão escondidos. No Outono perco a cabeça com as cores, com a vegetação, com os cogumelos... É sem dúvida alguma a minha estação preferida aqui em Sintra. E é de tal forma, que por vezes tenho de fazer um esforço para não estar sempre a parar para admirar estas preciosidades. No Verão adoro sentir os cheiros de madeira e da resina das árvores, que são muito mais intensos devido ao calor. Na primavera as flores, os fetos, os tons de verde... No inverno adoro sentir a chuva e o vento que faz as árvores rangerem; o chegar a casa gelada, beber uma boa chávena de chá e tomar um banho quentinho. Tudo isto faz parte desta minha adoração pela serra. Ahhh! E as rampas! As subidas por trilhos sinuosos, que são perfeitos para gastar energia quando os dias correm menos bem. No fundo, a serra de Sintra é o meu anti-depressivo! A natureza faz-me feliz; traz-me tranquilidade, mas também dá força! No meio da grandiosidade da serra sou apenas mais um elemento. Não sou mais, nem menos... sou apenas eu, sem artifícios.
Falemos agora desse "bichinho" da corrida. Isso é mesmo um bichinho ou essa ideia é um dos mais recentes mitos urbanos? Como e quando é que tudo começou para ti?
Se é um bichinho ou não, não faço ideia. Apenas posso garantir que hoje em dia a corrida faz parte de mim. Quem diria... Eu que achava que era um perfeito “saco de batatas”... Comecei a correr depois de um momento menos bom da minha vida. Em 2011 tive a “bela” surpresa de conhecer aquele sacana que começa com um “C” grande. Mas antes que este “C” passasse a dominar a minha vida, tentei encontrar algo que me ajudasse a superá-lo e felizmente encontrei um outro “C” muito maior! O “C” de corrida! Tenho a certeza absoluta que a corrida, a par da minha família, foi (e continua a ser) uma “bóia de salvação”.
Depois dessa tua partilha, é inevitável para mim fazer uma pergunta cliché. Perante esse desafio que te foi colocado, antes, durante e depois de superado, a tua visão da vida, do que valorizavas até então, mudou ou foi mais uma questão de consolidação da que já tinhas?
Não gosto de sobrevalorizar este momento menos bom da minha vida. Vejo-o como um desafio, como tantos outros que tenho vindo a encontrar nesta minha caminhada. Por muito negro que seja o cenário, acredito que todos estes desafios têm um lado positivo um lado mais luminoso e que ajudam no meu crescimento. Acredito que todas as “pedras” que tenho vindo a encontrar ao longo da minha vida, não apareceram por acaso e sei que de uma forma, mais fácil ou não, eu serei capaz de contorná-las.
Tens toda a razão! Passemos à tua outra grande paixão. Viajar. Que peso e significado têm as viagens na tua vida?
Viajar... Para mim viajar é como encontrar um tesouro! Sempre que viajo, volto muito mais rica... volto mesmo multimilionária! (risos) Pode ser um cliché, mas é tão verdade! Das viagens trago cheiros, cores, sabores, sons. Trago experiências e conhecimento que vou guardando e revisitando. E trago perspetivas de vida diferentes da minha, que me fazem abrir o campo de visão. Tenho tido o privilégio de viajar por Portugal e pelo mundo fora. Esta é uma paixão que foi despertada pelo meu marido, um viajante inveterado! Estamos sempre a alinhavar o próximo destino. Adoramos sonhar as viagens que gostaríamos de fazer. Não sei se vamos cumprir todos estes nossos sonhos, mas vamos sonhando, sonhando muito!
De todos os países que já conheceste - quantos foram ou quais foram, podemos saber? - qual foi o que te marcou mais e porquê? Eras capaz de te mudar para lá, de armas e bagagens?
Que pergunta difícil... Não consigo eleger o destino mais marcante. Mas não posso negar que tenho uma paixão enorme pelo Oriente. Nunca mais esquecerei as paisagens do Nepal, o rebuliço da Índia, as ruínas e as árvores majestosas de Angkor Vat no Cambodja, os sabores deliciosos da comida Vietnamita, a delicadeza da cultura japonesa, a floresta tropical em Chiang Mai na Tailândia, os bolinhos de massa de waffle (Gai Dan Dzai) que se vendem nas ruelas de Macau, os mercados em Shanghai... São tantas as boas recordações, que a vontade de conhecer outras “paragens” contínua sempre a crescer... Mas no final destas aventuras, adoro chegar a casa! Quanto mais viajo, mais tenho a certeza que Portugal é um país fantástico! Temos tanta coisa boa neste nosso cantinho! Só para dar um exemplo: continuo a achar que o Gerês é dos sítios mais bonitos do mundo. É de uma beleza indescritível e é aqui tão perto!
Ainda está por fazer a viagem da tua vida, ou sentes que já tiveste esse privilégio nas que já realizaste?
Prefiro pensar que a viagem da minha vida está sempre para vir! Assim o sonho não acaba! Ainda falta tanto, mas tanto para conhecer por este mundo fora... O Butão, o Laos, Myanmar, Argentina, Chile, Nova Zelândia...
És designer gráfica. A estética, o equilíbrio, a harmonia, a forma, a cor, são elementos determinantes no teu trabalho. Isso conduz-me à tua terceira grande paixão. A ilustração infantil - que é aliás uma paixão que partilhamos. Esse interesse nasceu verdadeiramente na tua infância ou acabou por ser uma descoberta posterior, quando escolheste o teu percurso profissional?
O meu avô paterno era artista. O meu pai, apesar de ter seguido economia, tinha uma verdadeira paixão pelas artes. Todos os meus 3 irmãos estão de alguma forma ligados a esta área! Julgo que esta minha paixão acaba por estar nos “genes”.
Que livros te marcaram na tua infância? O que te atraía mais neles?
Tantos! E que pena que a minha mãe não tenha guardado todos eles. Mas ando a resolver este assunto: de há uns tempos para cá tenho tentado encontrar os livros que fizeram parte da minha infância. Sempre que vejo uma livraria daquelas empoeiradas, lá vou eu a correr. Para grande desespero do meu marido, perco horas e horas à caça de preciosidades. Sou uma verdadeira “respigadora” de livros infantis! (risos) Só para teres a noção desta minha “loucura”, por duas vezes fiz cerca de 100km só para ir a uma papelaria que sabia que guardava verdadeiros tesouros! De uma das vezes saí de lá com cerca de 30 livros! Não consigo explicar este meu fascínio... Por um lado sinto-me cativada pela estética das ilustrações, por outro fazem-me reviver momentos bons da minha vida... Talvez seja isto...
Tens algum ilustrador ou livro preferido?
Mais uma daquelas perguntas difíceis de responder! É impossível escolher um ilustrador ou um livro preferido, porque há tanta coisa boa... “Um dia em cheio” do Gyo Fujikawa, os livros ilustrados pelo Alain Grée e pelo Richard Scarry, “A casa da carochinha” do Rui Palma Carlos, todos eles marcaram a minha infância. Mas são apenas alguns dos muitos livros que guardo na memória.
Entretanto tenho vindo a descobrir livros e ilustradores fantásticos. Adoro o trabalho da Madalena Matoso, da Catarina Sobral, da Isabel Minhós Martins, as ilustrações “mágicas” do Benjamin Lacombe ou o trabalho super detalhado do Roberto Innocenti; as ilustrações coloridas da dupla japonesa Tupera Tupera; as verdadeiras obras de arte do Katsumi Komagata. Nos tempos de faculdade descobri os livros infantis do Enzo Mari e da Maria Keil ... São tantos os nomes de ilustradores que admiro!
E nem nas viagens descanso desta minha paixão! Uma das coisas que gosto de fazer é trazer um livro infantil de cada destino que conheço. Muitos deles nem consigo ler, mas a magia das ilustrações fazem-me sorrir!
Tens dois filhos. dois rapazes, eles também têm essa relação com os livros?
Tenho dois filhos com personalidades muito diferentes! Como eu sou uma mãe muito justa (risos), cada um foi buscar uma da minhas paixões: o mais velho adora desporto e a vida ao ar livre. O mais pequeno tem uma veia artística. Para além de ter um jeito inato para o desenho, adora tudo o que seja livro ilustrado.
Como mãe, como é que vês a relação das crianças de hoje em dia com o mundo que as rodeia, nomeadamente no que se refere às atividades lúdicas? Sentes as pressões e os dilemas de que a maioria dos pais se queixam?
Tal como praticamente todos os miúdos da idade deles, os meus filhos gostam de jogar playstations, WII e afins... É uma realidade diferente da nossa infância, mas que julgo que não podemos “esconder” ou negar. E na verdade até podem tirar algo de positivo destas novas plataformas. Aquilo que o meu marido e eu tentamos fazer é dar a oportunidade de conhecer e descobrir o fabuloso que é folhear um livro, passear na praia, subir às árvores, apanhar uma chuvada num dia de inverno... Acredito que o equilíbrio é a palavra-chave! Nem sempre é fácil, mas isto de ser mãe (e pai) é mesmo assim: Um desafio enorme, mas do melhor que há!
Se te fosse conferido um poder especial, para mudar uma única circunstância ou episódio da tua vida até agora, mudarias alguma coisa? O quê? Porquê?
Não mudaria nada! (sorriso rasgado, tranquilo) Sou tão feliz que só posso agradecer todo este caminho que percorri até aqui!
✩ fim ✩
3.4.16
27.3.16
6.3.16
Project#6 | Luísa Almeida ✩ Produtora Biológica
Lembro-me perfeitamente do primeiro dia em que conheci a Luísa Almeida. Estaríamos provavelmente nesta mesma época do ano, há uns 3 ou 4 anos, e eu visitava o Mercado Gourmet do Campo Pequeno. A banca da Luísa era logo a primeira, assim que se começava o circuito. Apaixonei-me pela imagem da Quinta, pelas agora tão conhecidas caixinhas de madeira brancas, com corações pretos. Havia ainda outra curiosidade. O meu pai nasceu e cresceu numa aldeia com o mesmo nome: Arneiro. Quis saber se seria na mesma zona. Foi a Luísa quem me respondeu.
Eu sei que ela não se lembra e nem nunca mais voltei a contar-lhe essa história, mas na altura perguntei-lhe se não precisava de mão de obra para os seus campos. Claro que estava a brincar. Para se trabalhar no campo é preciso muito mais do que boa vontade. Para lidar com a dureza da jorna é preciso muito mais do que querer fugir da cidade. É também, e muito, por isso que sempre admirei a sua garra para deitar mãos a um projeto assim.
De lá para cá, acompanhei tão de perto quanto possível o seu trabalho. Como consumidora regular dos seus produtos, que compro semanalmente no Mercado Biológico do Príncipe Real e como visitante da Quinta, nos cada vez mais famosos e concorridos eventos que faz duas vezes por ano.
Por tudo isto, ao pensar o Project#6, era inevitável que não pensasse em si. A Luísa concedeu-me esse privilégio. Tenho a certeza que, depois de lerem a entrevista, não serei a única a estar-lhe grata por isso.
Luísa, é inevitável começar por esta pergunta: Qual é a história desta quinta e a da sua relação com ela?
Tinha 5 anos quando o meu pai resolveu comprar uma Quinta. Depois de 30 anos no Brasil, estava decidido a tornar-se agricultor, assim como o meu avô já o tinha feito há 20 anos.
Um dia meteu-me no carro e disse que íamos à nossa nova Quinta, muito perto da Quinta dos meus avós. A casa estava meia degradada e os campos pouco cuidados. Fiquei meia decepcionada, porque não tinha nada a ver com a Quinta dos meus avós...
Lembro-me que da primeira vez que cá dormimos as coisas não correram muito bem, o jardim tinha umas palmeiras muito altas de onde desciam ratos que invadiam a casa à noite. Ir à casa de banho num dia de chuva obrigava a levar o chapéu de chuva, a água caía quase como na rua. Para chegarmos à Quinta pelo caminho mais curto tínhamos que passar com o carro por dentro do rio. Subir e descer e rezar para não ficarmos atolados, o que acontecia com frequência, e lá vinha o trator puxar o carro com uma enorme corda. Uma aventura!
E foram mesmo muitas as aventuras que vivi na Quinta durante a infância. Apesar de filha única tinha muitas vezes a companhia dos meus primos. A constante procura pelos tesouros que tínhamos a certeza que existiam enterrados por aí, os passeios à descoberta de casas abandonadas ou de caminhos perdidos. Tinha aí uns 11 anos quando o meu pai resolveu comprar-me um cavalo e durante uns anos passeei por montes e vales, eu e o meu cavalo, sozinhos a passo, trote ou galope. Adorava aqueles passeios.
E aos poucos, enquanto os fins de semana e as férias eram passadas na Quinta, as obras infindáveis transformavam uma casa velha numa casa confortável, as terras incultas em pomares de pêra Rocha. Lembro-me de achar absurda aquela ideia de plantar tantas pereiras, como íamos nós conseguir comê-las todas?…
Ao chegar à adolescência as coisas mudaram muito. Vir para a Quinta aos fins de semana passou a ser um enorme tormento. Todas as desculpas serviam para ficar em Lisboa.
Quando chegou a altura de escolher o curso, ao contrário do que o meu pai “sugeria”, Agronomia seria o ultimo curso que eu poderia tirar. “- Nunca na vida!" O campo, a agricultura, estavam a anos- luz das minhas intenções de vida para o presente e para o futuro. Mal sabia eu...
E esta aventura (foi uma aventura? é uma aventura?) da produção biológica, como e quando é que surgiu?
A vida dá mesmo muitas voltas. Se aos 18 anos era impensável imaginar que um dia poderia viver na Quinta, aos 24 foi para cá que vim morar definitivamente quando casei. E nunca mais de cá saí. Foi aqui que nasceram os meus quatro filhos.
Apesar de tudo continuava sem me identificar com o mundo da agricultura. Abri uma livraria em Torres Vedras, a Index. Foi uma época super interessante, de leituras e cultura... de contato com muitos escritores.
Mas a vida continuava a dar voltas e o que foi impensável durante anos, começou a tomar sentido quando percebi depois de mais voltas que a vida deu, que, ou vinha tomar conta da Quinta ou acabaria por a vender.
Sabia que não a queria vender e decidi pôr mãos à obra.
E foi essa decisão que me fez começar esta enorme Aventura no mundo da Agricultura Biológica.
Se era para ser Agricultora então só fazia sentido que fosse em modo biológico. Se ia “usar” a terra para tirar o meu sustento então havia que a respeitar. Se ela me ia dar eu tinha que retribuir.
E pronto, a verdade é que a terra é com certeza nossa mãe e acho que é nela que sinto a mãe que se despediu de mim quando tinha 22 anos. E descobri que a terra também é pai porque esta Aventura tem-me levado por caminhos inimagináveis, tem-me aproximado do meu pai como nunca aconteceu enquanto nos pudemos ver e tocar.
E esta terra tem-me dado imensas alegrias. É uma Aventura enorme, hoje com os meus filhos já adultos, esta terra são eles, são os meus pais. É talvez, o meu modo de me redimir.
E como é que define a sua relação com a terra, com a natureza, com os elementos? Ou seja, quando se está mergulhado desta forma, numa atividade como esta, vive-se pacificamente com as constantes vicissitudes ou aprende-se a conviver, a gerir um dia de cada vez?
Foi a terra que me ensinou que tudo tem o seu tempo. Sou uma ansiosa incorrigível, tudo tinha que ser agora, a espera não combina comigo, ou melhor não combinava. Foi a terra e a natureza que me obrigaram a aprender a esperar, a esperar que tudo cresça ao seu próprio ritmo. Aprendi que só posso contar com o agora nas coisas que dependem só de mim. Enquanto muitas das vezes, em que estamos dependentes de outros, sentimos que podia ser diferente, quando estamos dependentes da natureza sentimos que ela faz sempre o melhor que pode.
Se a minha ansiedade me faz muitas vezes ter alguma dificuldade em lidar com os timings dos outros, sempre soube que não há como fugir aos timings da natureza e dos seus elementos. Se chove durante 2 meses seguidos, se vem aí uma tempestade, se precisamos de mais água e não há, se o calor é tanto que queima os nossos morangos, aí não há nada a fazer senão esperar. E é engraçado mas essa é a única espera que não me causa ansiedade. Porque tenho perfeita consciência de que não há nada que se possa fazer.
O que é que a move todos os dias? Ou, perguntado de outra forma: ao fim de cada dia, o que é que conta mais?
Ao fim de cada dia conta saber que trabalhamos para mostrar que é possível vencer sem cedências. Que é possível fazer respeitando a natureza e os homens. Que é possível perdurar com verdade e ética. Que é possível defender sempre os princípios porque nos regemos.
Falemos um bocadinho do outro lado, do lado do cliente. Quem é o cliente do produto biológico? É um cliente vai-e-vem? É um cliente consciente? Fiel? Informado?
Ser “cliente de produto biológico” pode ser muito ou muito pouco.
Acho que se pode ser consumidor biológico de muitas maneiras diferentes, e acho também que no dia em que se toma a decisão de passar a comprar produtos biológicos, numa evolução natural, tudo começa a mudar na nossa vida. Não terá muito sentido ser consumidor de produtos biológicos e mais cedo ou mais tarde não nos passarmos a preocupar com o ambiente, com o nosso modo de estar, desde a quantidade de garrafa de água que compramos, até ao modo como vivemos o nosso dia a dia.
Num primeiro momento normalmente começa por ser uma decisão “egoísta”, centrada em nós e na nossa família, ou porque queremos comer de um modo mais saudável, ou porque queremos voltar a sentir o sabor de outros tempos. Numa segunda fase é natural que se comecem a pôr em causa outras coisas, como a quem comprar e por ai fora.
Serão, não tenho duvida clientes muito fieis. É muito difícil para alguém que comece a consumir biológico voltar atrás.
Acho que a evolução natural de um consumidor biológico é tornar-se um cidadão muito mais participativo e preocupado com o todo.
Quanto aos nossos clientes em particular são maravilhosos. E não digo isto para “engraxar”. Digo-o porque é absoluta verdade.
Estão dispostos a pagar preços justos porque acreditam, como nós, que os agricultores (tanto nós como os nossos fornecedores) o merecem, escolhem sempre primeiro português, não se importam de partilhar as folhas das couves com os caracóis, se a courgette é torta, se as laranjas não têm o melhor aspeto do mundo. Apoiam uma agricultura biológica que não se limita a não usar químicos, mas que opta por diversificar as culturas, por fazer rotações e pousios e que quer continuar a evoluir no sentido do respeito absoluto pela natureza e sempre a pensar na herança que vai cá deixar.
Quem acompanha este projeto há algum tempo sabe que os vossos eventos sazonais - o Dia Aberto, na Primavera/Verão e a Sopa da Pedra, no Outono/Inverno - têm uma alma muito especial. A Luísa é alma por detrás deles? Como é que surgiu a ideia de os realizar e qual foi o principal objetivo?
Fui eu realmente a primeira alma destas festas, mas entretanto já há um monte de gente que participa com a mesma alma que eu. Acho que o êxito destes dias, e êxito aqui significa que todos os que cá venham consigam sair de coração cheio, se deve ao facto de todos nós pormos aqui a nossa alma.
Porque o que interessa nestes dias, e foi para isso que os inventámos, é que ficando a conhecer a Quinta fiquem também a conhecer a sua alma.
Na Quinta do Arneiro há sempre projetos novos a fervilhar... e mais uma vez andam a cozinhar novas ideias... podemos levantar um bocadinho a tampa deste tacho que está a apurar?
É verdade! Projetos e ideias não faltam (risos) e é verdade que estamos a muito pouco tempo de abrir um restaurante, uma mercearia e uma academia. Conseguir abrir este espaço é conseguir tornar o sonho realidade. Desde o primeiro dia deste projeto que queria chegar aqui. Queria que houvesse aqui sempre uma refeição à espera de quem nos quer vir visitar. Que pudessem perceber o bem que se pode comer usando os produtos da horta, os produtos da época, usando os ingredientes mais frescos e simples. E como é fácil repetir em casa. Queria ter um espaço onde as pessoas pudessem vir aprender mais sobre tudo isto e tudo isto é tanta coisa que nem imaginam.
E a Luísa? Quem é a Luísa?...
Isto do quem somos depende tanto da fase da vida em que estamos …
Eu fui uma miúda frágil e com muito poucas defesas, cheia de inseguranças. Fui aprendendo a acreditar em mim, aprendi a não ter medos, a lutar pelos meus objectivos.
Na adolescência era, ou pretendia ser, uma rebelde. Sempre contra tudo e todos, como é próprio.
Sempre vivi mais no futuro do que no presente. Traço uma meta e luto por ela. A vida ensinou-me que se quero atingir um objetivo o tenho que fazer por mim. Tornou-me mais dura, é verdade, mas sei que se não fosse assim não tinha conseguido chegar aqui.
Sou principalmente criativa, muito mais emocional do que racional. Sou muito atenta aos pormenores. Tenho mau feitio, dizem… eu acho que sou exigente. Comigo e com os outros. Tenho um redemoinho sempre dentro da cabeça, as ideais brotam como pipocas a estalar, o que faz com que se queixem de que mudo de ideias muitas vezes. Eu não mudo de ideias assim tão depressa, as coisas é que demoram muito tempo a acontecer!
Claro que hoje sou um concentrado de tudo o que a vida me deu e do que eu dei à vida.
Mas acho que me foram dadas duas principais missões na terra. Uma que comecei muito cedo: ser mãe. Apesar de ser uma desajeitada emocional, desde sempre tive um desejo enorme de ser mãe e ter muitos filhos. Não sou uma mãe das que dá colo toda a vida, mas quero que os meus filhos sintam em mim o seu porto seguro até ao fim.
Outra, que comecei já meio tarde, aqui na Quinta, com o meu pai a rir descaradamente lá do céu e a dizer: “ afinal quem tinha razão era eu!”.
Entretanto correu a vida, fui tirando daqui e dali, melhorei numas coisas, piorei noutras. Cheguei a conclusões que me fizeram mudar rumos e modos de estar.
Olhando assim de cima, o que me resume é que fiz sempre questão de ser parte ativa da minha vida.
Uma coisa que é certa é que a vida me deu muito mais do que eu lhe dei a ela. Nunca peço nada porque acho que a vida só não dá se não puder.
E como é que a Luísa, Mulher-Mãe-Empresária, olha para os desafios da famosa globalização?
Ui… tenho a minha teoria para este mundo ocidental que é o nosso.
Nos últimos 70 anos fo-mo-nos transformando, pouco a pouco em gente egoísta unicamente preocupada com o nosso umbigo.
Fomos conseguindo criar sociedades cada vez mais “evoluídas”, que exploram os recursos naturais até à exaustão e que pelos vistos não se lembram que são finitos, que não se importam minimamente que a mão de obra que produz tudo a preços “extraordinários” seja a dos escravos do sec XX e XXI. O que queríamos era ser cada vez mais ricos, viver cada vez melhor, ter cada vez mais direitos. Aqui neste pequeno pedaço do mundo ( Ocidente) iríamos usufruir para todo o sempre dos recursos, do trabalho, da bondade do resto do mundo que continuaria a trabalhar para nós e a oferecer-nos os seus recursos quase de graça. Até o lixo que fazemos, absurdamente mais do que o deles, é-lhes enviado, porque claro que uma sociedade evoluída não pode ficar com o lixo no jardim.
Objetivo principal: Ganhar cada vez melhor, pagar cada vez menos pelos bens. Um contra-senso que tem que acabar mal.
Não me parece que seja uma forma sustentada e sustentável de crescer. Não me parece que o que anda por aí seja uma crise.
O que me parece é que - e felizmente antes que nós demos cabo do que ainda resta - a natureza porque é a tal mãe, se está a revoltar e a por-nos no lugar.
"Parem de gastar!" é a ordem. Parem de gastar os recursos deste planeta. Parem de achar que são os donos disto tudo. Parem de se comportar como gente mimada.
E por isto tudo, acho que os tempos que aí vêm vão ser os tempos da verdade. Vai ser um enorme desafio, vai ser duro, vai ser muito difícil mas não vamos ter alternativa.
Quem vai conseguir viver melhor nos tempos que aí vêm são aqueles de nós que já conseguiram ou vão conseguir reaprender a viver com pouco.
"Não dêem este planeta como seguro.” É exactamente isto que nos está a ser lembrado. Ou vamos a bem ou a mal. É assim que acontece quando é preciso educar.
Seguindo um pouco essa linha de pensamento... desde sempre precisamos de modelos, de pessoas que nos sirvam de guia, de inspiração, de bússola. Tem alguém que de alguma forma tenha tido ou tenha esse papel na sua vida? Quem são os grandes Mestres para si? Acha que há algum modelo de herói moderno?
Assim de repente, quando me pergunta quem é o meu guia, é o meu pai. Penso nisso muitas vezes. O meu pai que morreu quando eu tinha 31 anos e com quem nunca consegui ter uma relação “pacífica”. Nunca pensei como ele e continuo a não pensar. Era raro concordar com ele e continuo a achar o mesmo. Imaginou-me alguém que não fui, tínhamos “guerras” amiúde. Por que é ele o meu guia? Porque era uma pessoa intocável nos seus princípios. Porque me ajudou a perder os meus medos e inseguranças obrigando-me sempre a enfrentar o touro. E porque no fundo estou a continuar um trabalho que ele começou.
A minha fonte de inspiração na vida? São muitos, todos os que admiro, todos os que fazem melhor que eu.
Se tenho um herói ? Tenho sim. Os meus heróis são todos os que trabalham para deixar um mundo melhor, todos os que insistem em defender causas que muitas vezes parecem perdidas, todos os que não vão pelo caminho mais fácil, mas pelo mais duradouro e justo. Todos os que lutam pelas suas convicções. Todos os que nascem,vivem e morrem com dignidade. Todos os que não se rendem a poderes sejam eles quais forem e que seguem o seu caminho. Talvez tenha dois heróis com nome. Uma prima que independentemente de um turbilhão de provas que a vida lhe deu, viveu até ao ultimo momento, talvez até sem se aperceber , como uma heroína. Ultimamente e independentemente do lado religioso, tenho um novo herói. O Papa Francisco.
Aligeiremos agora com uma pergunta mais divertida, no mundo vegetal, que árvore, legume ou fruto seria? Porquê?
Acho que seria o tomate. Porque tem muita personalidade. Pertence ao verão e não se deixa enganar. Ok, até o podem produzir no Inverno, mas não lhe conseguem tirar o sabor que ele insiste em só dar quando o sol lhe bate em cima. Depois é, talvez, o produto da horta mais multi facetado, dá para transformar de mil e uma maneiras e faz a diferença em qualquer cozinhado onde entra.
E depois a cor, gosto muito do vermelho vivo do tomate.
Como é que imagina tudo isto que a rodeia daqui a 20 anos, estes campos, esta casa, estas ideias que germinam, prestes a começar? Tem algum sonho especial que gostasse de ver realizado nos próximos anos?
Uma das minhas principais motivações é fazer deste um projeto duradouro. Hoje em dia o prazo de validade é sempre muito curto. Pensam-se os projetos para durarem 10 anos e depois acabou, venha outro. É também este viver para o efémero que me faz muita confusão. O sermos fiéis a uma marca a uma empresa, às pessoas.
Mais do que imaginar, tem a ver com sonhar. Gostava muito que os meus filhos seguissem o caminho. Gostava muito de poder estar lá em cima a rir-me à descarada e a vê-los aqui a trabalhar e a fazer este projeto continuar. Os 30 hectares da Quinta em produção plena, as terras verdes e floridas, uma pequena mata aqui, outra ali, galinhas a pôr ovos, ovelhas a pastar, os cabazes a chegar a casa dos nossos clientes todas as semanas. O restaurante a continuar a servir refeições, numa grande azáfama. A academia a dar cursos com temas sempre inovadores.
Um pequeno hotel onde as pessoas venham ficar para assistir aos cursos e trabalhar na terra. Um programa anti-stress do melhor que há.
E os meus filhos aqui a trabalhar, ou se não for essa a opção de todos, então que venham com os netos para que possam usufruir disto tudo...
Se for para ser será. Nunca peço nada à vida porque acho que a vida só não dá se não puder. No que não depende de mim fica o desejo de que haja quem faça e quem continue.
✩ fim ✩
Subscrever:
Mensagens (Atom)
































































