Rever fotografias de 2012. E ficar cheia de saudades e de vontade de voltar brevemente.
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24.11.14
27.7.14
Sabor a férias no Caramulo. Reeditado.
Há uns anos, durante muitos e muitos anos, havia uma casa de granito que a frondosa e robusta hera abraçava. A hera era a casa de muitos pássaros que nela escondiam o lar a que chamamos ninho. A casa era uma casa com história que construiu parte da história da minha vida. De manhã, a casa cheirava a cera acabada de passar na tijoleira vermelha e lustrosa que cobria o piso de cima. Do lado de fora, quando abríamos a porta, o dia cheirava a bucho, a cedro, a hortelã silvestre e a relva molhada. Ao pequeno almoço havia pequenas vieiras em porcelana da Vista Alegre recheadas com mel e doces caseiros. Depois do pequeno almoço, descíamos o caminho traçado pelas lajes de lousa, emoldurado pelo verde do cuidado jardim e protegido pela sombra das imponentes árvores. Lá em baixo, havia uma pedra grande que em sonora alegria renovava a fria água da piscina onde mergulhávamos. E havia um pequeno riacho, a que descíamos, usando da habilidade que a experiência nos fora dando para fugir às urtigas, e onde apanhávamos pequenas rãs. Durante a tarde, para fazer a digestão, íamos muitas vezes apanhar amoras. Mais tarde, ao fim do dia, quando o corpo cansado dos mergulhos repousava, íamos dar um passeio até ao tanque da casa que tinha o milharal. De lá, trazíamos oferecidas as maçarocas de milho verde que eram escolhidas a dedo, depois de muitos dedos de prosa que ecoavam na estrada deserta, por entre o coro do fio de água indiferente à nossa presença e o porco que grunhia, lá mais adiante.
Ao jantar, da cozinha vinha truta grelhada, carne com um sabor diferente do da cidade, generosas tigelas cheias de papos de anjo, as amoras lavadas, libertas do pó do Verão, e as maçarocas, assadas, que comíamos à mão.
Hoje, com manteiga aromatizada com gengibre, raspa de limão e funcho fresco. E no final um sorriso enorme, misto de saudade e prazer.
22.7.14
O ADN da saudade
Mal se tinham inaugurado as nove da manhã e já o sol oferecia vinte e um graus. No carro a companhia mais recente, naquele modo repetitivo que sempre me acontece quando compro um CD novo. A música preferida toma conta do espaço. Subo o volume. Acompanho a letra que tanto gosto de cantar. Será sempre impossivel ignorar o peso da música e da dança na minha vida. Vieram comigo, não sei muito bem alojadas onde, mas entranhadas na alma, seguramente. Fazem parte do meu ADN. É tão diferente a vibração do corpo, quando cantamos. Nem vou falar do que sinto, quando danço! Mas cantar tem o mesmo efeito de uma relaxante massagem, mas neste caso, a massagem é no espírito. Não será por acaso que diz o povo que, quem canta, os seus males espanta. E de repente, embalada neste ritmo, sinto-te tão perto, avó. Se há imagem impressiva que guardo de ti é a das tuas cantorias. Curiosamente, sendo a costura o teu oficio, foi sempre a cozinhar que te ouvi cantar mais. Suponho que na costura a concentração, o brio e o preceito em que eras exímia, te aperreassem mais a alma. Mas no meio dos tachos, com a mão na massa, eras tão livre. E tão feliz! No meio do Zambujo, juntas-te a mim e vejo-te sobre a bancada de mármore da mesa no centro da cozinha, erguendo a pirâmide de farinha, abrindo a cratera no seu centro, nela depositando as lascas de margarida, as pedras de sal grosso que brilhavam, o ovo que desmaiava como lava, lava que continhas entre os teus dedos, envolvendo tudo, na massa que depois tendias. E dali nascia um tesouro que embrulhava carne picada com chouriço, generosamente aromatizada de salsa... os melhores pasteis de massa tenra do mundo! Hoje estiveste comigo, cantámos juntas, bem sei. E se alguma dúvida houvesse do que de ti guardo nos meus genes, ao olhar o espelho da pala que me protegia da luz que me trazia as lágrimas aos olhos, as sardas atiçadas pelo sol que encontrei e o brilho dos teus olhos - o brilho, não a cor do teu límpido e inigualável verde! - ali refletidos, foi a ti que espelharam, não a mim.
20.6.14
| As cidadãs anónimas de Lisboa*
« Se pensarmos nos Jacarandás floridos, na sua dança aérea e azul, Lisboa parece estes dias uma composição sonhada por Chagall ou Matisse. Lisboa deve às árvores que possui, às árvores de que se esquece, uma parte eloquente da sua beleza. Elas guardam, para nós, a cor, o alfabeto vegetal do silêncio, o atalho secreto da alegria.
O seu movimento parado é uma ilusão, pois as árvores são extraordinárias viajantes que se deslocam através de distâncias incalculáveis. Chegaram aqui vindas do Cáucaso, da Sibéria, do Tibete, da América... por ventos, por correntes marítimas, nos grandes invernos... ocultas nos pés dos escravos, escondidas algures na trouxa de um distraído mercador ou entre o pelo dos animais... E se estão ao pé de nós, sabemos também que estão sempre a partir. São fluídas. Mudam de casca e de casa. Morrem. Migram da noite para o dia.
Aprendemos a contar por elas as estações do ano e da nossa vida. Há as árvores da infância. As do nosso bairro, anos mais tarde. Há uma árvore que avistamos de relance em situações que depois não esquecemos mais. (...)
Lisboa tem uma população admirável de árvores. Algumas estão classificadas e têm um estatuto semelhante ao do património construído classificado. Tudo isto está muito bem. Mas quando andamos pelas ruas de Lisboa e nos cruzamos com árvores, elas não têm identificação alguma, são cidadãs anónimas! Raros são aqueles que as tratam pelo nome próprio (...) »
in O Hipopótamo de Deus
- José Tolentino Mendonça -
* numa homenagem a todas elas, à estação que amanhã muda e a todas as pessoas que conhecem quase todas as árvores e aves pelo nome, como conhecia o meu avô.
14.1.14
2.1.14
Começar o ano com o pé esquerdo... ou a receita errada!
A ideia era fazê-lo no Natal. Mas no Natal já havia muitos doces e ainda havia o bolo do pai. Decidi por isso que começar o ano com ela à nossa mesa seria ainda mais perfeito. Afinal de contas, mais do que um tronco de Natal, aquela era a torta da avó. A torta que a minha avó fazia e tão bem... e seria perfeito ter a companhia dela na nossa mesa de inicio de ano. O mote para este desejo foi ter reencontrado a torteira antiga que a minha mãe lhe oferecera há muitos e muitos anos e onde sempre me lembro de ter visto ser servida a dita torta vestida de tronco.
Embora tenha a certeza de o ter, não faço ideia onde pára o livro onde a minha avó tomava nota das suas receitas. Como boa cozinheira que era, a minha avó era mais mulher de tocar de ouvido, mas tenho a certeza de que a sua receita de tronco de Natal estava escrita numa daquelas páginas daquele livro amarelado pelo tempo.
Mas não encontrei e em má hora me lembrei de fazer uma pesquisa na internet onde dei com esta receita que me pareceu credível, mais a mais, por ter a insígnia de uma marca. Puro erro!
Basicamente, tudo o que havia para correr mal, correu. Mesmo sabendo que o meu forno não é de confiança, desta vez até o pobre esteve inocente... E para quem percebe minimamente de cozinha, dava para perceber, à medida que ia seguindo os passos, que a coisa não ia correr como devia, mas ainda assim, insisti. A dado momento, quando percebi que a consistência da pseudo torta era mais uma espécie de brownie do que outra coisa, podia ter salvo a empreitada... mas em vez de pensar e parar a tempo, pensei e segui para bingo e o resultado foi pouco menos do que desastroso. Nem a p*** da cobertura saiu bem, apesar do meu querido chocolate Lindt para culinária!
Mas se é verdade que a grande motivação deste sobremesa que prometi para dia 1 era ter a companhia da minha avó Fernanda, não deixa de ser curioso que por ter corrido tão mal ela também tenha estado presente. A minha avó era uma cozinheira de mão cheia, mas havia dias em que tudo corria mal e em que, como ela sempre dizia "andava o diabo na cozinha!". Pois, no dia 1 também andou na minha...
Apesar de tudo, consolei-me com a decoração - um bocadito Sweet Paul style - e só pelo trabalho e despesa que tive, arranjei coragem de a levar para casa dos pais e agora partilhá-la por aqui.
E, repito, se tivesse parado a tempo e tivesse cortado a pseudo massa de torta aos quadradinhos antes de a enrolar, tinha feito uns belos brownies que se tinham comido com prazer, porque o sabor estava bom e a consistência perfeita para um. Mas, depois de enrolada, a sobreposição de camadas ficou uma bomba de chocolate... quase insuportável!
... Enquanto me lembrar desta, só faço sopinha!
21.7.13
Smoothie de Amora e Saudades vossas!
É tempo das carnudas Amoras! A mim, fazem-me lembrar férias da infância, no campo, os dedos picados pelas Silvas e belas taças onde as mergulhávamos com pedras de gelo, para refrescarem.
A ausência por aqui tem sido longa, muito longa, para os laços - tantos e tão especiais! - que tenho com esta boa parte de mim. Mas por agora, por muito que as saudades se manifestem, o único compromisso que posso assumir é o da intermitência por estas bandas.
Vou aparecendo, sempre que o tempo me permitir. E um dia destes partilho o motivo súbito - mas bom, muito bom! - de tão longa ausência.
Saudades de todos aqueles que aqui, ao longo de tanto tempo e de forma tão especial se foram fazendo presentes. Tenho saudades vossas. Juro, de coração! :)
17.3.13
Destes dias
Destes dias a que as emoções roubaram as legendas e que carregaram a bagagem de certezas. Destes dias tão meus.
10.3.13
Amanhã
Amanhã reencontro-Te, meu Querido Sul. E mesmo que a chuva nos faça companhia, vão ser seis dias de Sol, dentro de mim.
20.2.13
Doces memórias
Ainda de volta dos ovos de galinha a sério que o pai arranjou, e porque é um dos poucos doces que ele aprecia - e muito! - e porque era um dos muitos doces que a minha avó fazia bem - e muito! - e porque sinto que ela tem andado por perto, e porque há dias em que a saudade aperta mais, e porque uma das suas formas de nos dizer infinitas vezes como e quanto nos amava era a cozinhar para nós, ontem lembrei-me que estava na altura de fazer o meu primeiro pudim de ovos. E fiz. E, tenha sido por sorte ou porque a mão dela me tenha conduzido, para mim, ficou exatamente igual aos seus!
Ovos: 12
Leite: 1 lt
Açúcar: 275 g
Batem-se muito bem os ovos e mistura-se o açúcar. Bate-se muito bem até ficar uma mistura aveludada. Por último deita-se o leite e envolve-se tudo. Vai ao forno, cerca de 45 a 50 minutos, em banho maria, numa forma caramelizada.
Nota: esta quantidade de ingredientes requer uma forma de pudim grande; no meu caso, como era a estreia, fui surpreendida com uma porção que excedia a forma que tinha e acabei por fazer dois pudins iguais a este :)
23.1.13
Neve
Nunca gostei de ski. Toda aquela parafernália que se distribui entre mãos e pés foi sempre para mim uma coisa contra-natura. Sempre me disseram que era fácil, até porque gosto e sei andar de patins, logo, coisa de manter o equilíbrio, não me é particularmente difícil... Pois sim! Vão. Vão lá... não esperem por mim.
Para brincar na neve e tirar bom partido dela não preciso de extensões. Basta um belo equipamento contra o frio, um tobogã a preceito e neve fofa para dar largas à imaginação. Foi assim que sempre me diverti. E muito!
22.1.13
30.12.12
Há um ano
@praia do amado
Há um ano era assim que se passavam os últimos dias e horas do ano.
Saudade, Querido Azul.
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