Não me levem a mal e menos ainda me interpretem mal, mas há algum tempo que constato um estranho boom, uma curiosa moda, que traz a palavra parentalidade na ponta da língua de muita gente.
Que é verdade que ninguém nasce ensinado para a ser pai e mãe, parece-me incontornável. Tão incontornável quanto o facto de ser importante ter a humildade de aceitar e desejar saber mais, fazer melhor, de geração para geração. Mas daí até o assunto ter uma abordagem de B-A-BA, de ABC da Sabedoria dos cronistas que a expõem, numa linguagem que em muitos casos (diria eu que assustadoramente demasiados) roça a conversa para atrasados mentais, como se de repente a humanidade tivesse perdido a memória coletiva e cada um de nós a memória da sua história pessoal, começa a parecer-me ridículo.
Que os ternurentos petizes sejam um desafio, é bom e desejável. Mas daí a tornarem-se numa espécie de "admirável mundo novo", com direito a manual de instruções como se de produtos em série se tratassem, convenhamos, dá que pensar!...
É natural que não me cativem particularmente os tão aclamados e generalizados baby blogs. A minha filha tem 13 anos, já passei a maré. Apesar de tudo, gosto de ler as aventuras e desventuras de bebés e progenitores - mais progenitoras, pois claro, que os homens andam lá fora a lutar pela vida e não se seduzem muito com estas coisas de escrever sobre fraldas - sobretudo no caso de blogs que sigo há mais tempo, mesmo antes do nascimento das atuais estrelas do pedaço :)
Nos blogs do género, que espreito ou acompanho mais de perto, há de tudo. Mães de primeira viagem, mães de família numerosa - hoje, dois filhos numa casa já é multidão! - mães leigas mas muito informadas e mães formadas em áreas da maior valia para esta missão. O único critério que me interessa é ser gente de carne e osso. Para folhetins vintage, cor de rosa, ou ligo a televisão ou compro Hola!
O que mais me estimula no ser humano é a sua inesgotável capacidade de aprender errando. Tenho particular apreço por gente genuína e a mais profunda admiração por gente que humildemente reconhece que se engana.
Mais do que de gente que afirma, indica e dita, gosto de gente que expõe de forma honesta a sua experiência de vida e com ela se confronta, afronta e interroga. Gosto de gente que interpela e se interpela, que se desafia e que abre o peito às balas.
Mas muito do que se vai lendo, sobre o famigerado tema da parentalidade por estes dias, tem o peso de dogma. Uma boa parte das vezes são nada mais do que frases feitas, bonitas, redondas, inchadas de boas intenções, inspiradas em tardes bucólicas ou em livros resgatados de uma estante próxima.
Fala-se das adoráveis criancinhas que temos por casa como se fossem sempre uns rebuçados docinhos de chupar, sempre cooperantes, logo lhes expliquemos as coisas com palavras dóceis e fáceis, mesmo que em forma de hermesetas (ou eventualmente disfarçadas com xanax) , como se o dia a dia de uma mãe, de um pai, de uns pais, fosse possível sem um cabelo fora do lugar, só por haver diálogo.
Quem é mãe de um sabe que é impossível. A partir de dois, desculpem lá que vos diga ou vos traumatize se estão a pensar seriamente aumentar a prol, esqueçam lá isso, meus senhores!
Toda a gente sabe que o diálogo não chega. Os patamares de linguagem são diferentes, os objetivos são diferentes, há coisas que uma criança legitimamente quer, mas que nem pode ter nem consegue compreender (e menos ainda aceitar com falinhas mansas) que não vai ter. E isto digo eu, na tranquilidade da minha experiência, que nunca soube o que era uma birra na minha filha! Mas o diálogo não chega! Os meninos que temos em casa não são vaquinhas de presépio que dizem que sim a tudo, com a cabeça. E ainda bem, digo eu, sem pingo de hipocrisia! Porque é em casa - deve ser em casa! - que testam os seus e os nossos limites, a liberdade e a autoridade. E se assim não for, - deixem-me lá agora saborear o sensação de dar bitaites genéricos, qual opinion maker encartada - preocupem-se com os efeitos colaterais e ao retardador, senhores pais! Salvo raras exceções, esse é um comportamento contra natura. Foi graças ao incoformismo e preserverança das espécies que a humanidade sobreviveu até à data. Sem espinhas!
Quem vive em família, a dois ou monoparental, sabe que cada casa, cada ninho, é palco de sucessivas guerras e armistícios, sempre em nome de uma paz que se deseja seja duradora e eficaz. Ser pai e mãe é um trabalho duro, em muitos momentos incompreendido pelos que mais e melhor nos deviam perceber e ajudar, demasiadas vezes sem retorno imediato, que exige a resiliência dos bravos e a paciência dos santos e que muitas vezes provoca desencontros com as pessoas que mais amamos - os filhos. Não me levem a mal, senhores amigos dos dogmas da parentalidade, mas dourar a pílula é maldade...
Se ao escrever o que por aí se escreve se pretende fazer um serviço público, não falem em português suave. Chamem os burros pelos nomes e não caiam na distraída tentação de fazer mães e pais, seres humanos de carne e osso (e muito sangue!) sentirem-se extra terrestres ou carrascos, por não conseguirem ter sempre um sorriso plácido e cândido estampado no rosto, nem um cabelo exímiamente penteado.
De boas intenções está o inferno cheio. E de modelos perfeitos e inatingíveis desconfio que também, por sinal...
