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28.10.14

O longo caminho das escolhas

Se é verdade que desde os tempos mais remotos o conceito e a sua experiência moveram a humanidade, de poetas a filósofos, nunca tanto como agora se falou em Felicidade. 
Aparentemente, nos tempos que correm, parecemos todos ligeiramente infetados - uns de forma mais severa do que outros - com um vírus altamente contagioso que nos leva a necessitar estar sempre inspirados por algo ou alguém e a viver num estágio aspiracional constante. De uma forma algo caricata, «Ser Feliz» passou a ser a resposta automática e lógica à pergunta, «O que desejas para ti?». Mas que diabo, pergunto-me: em algum tempo, alguém teve como meta e ambição ser infeliz? Ser feliz esgota por si a condição do que somos ou queremos nesta vida? E o que é isso de Ser Feliz? Um package de luxo ou uma pomada que se compra? Somos todos felizes da mesma maneira? Alguém é feliz a todo tempo? 

A ser uma meta e uma condição indispensável à vida - e defendo que é, em parte, pelo menos quando queremos experienciar em pleno quem somos - parece ter sido esquecido um importante detalhe. É que a Felicidade, como tudo o resto, é fruto de um caminho que se percorre. E que esse caminho, como todos os caminhos, é feito de escolhas. Se as fazemos bem ou não, a cada passo, cabe a cada um avaliar. Mas são precisamente essas escolhas, e os resultados delas, que nos permitem aferir o nosso grau de conforto com nós próprios. É a esse grau de conforto que genericamente chamamos Felicidade. Só que tudo isso, obviamente, dá trabalho. E, acima de tudo, obriga a passarmos um bom tempo connosco. 

Se de uma forma geral toda a gente quer ser feliz, muito poucos o querem ou conseguem ser consigo mesmos. Ao primeiro beliscar de horas ou fases menos boas, aos primeiros amargos de boca depois do fim de momentos aparente ou efetivamente felizes, o comportamento recorrente é fugir de si próprio para longe. Convocam-se os amigos a todas as horas mortas, introduz-se o máximo ruído e vibração aos dias, entopem-se as emoções com doses industriais de paliativos, ainda que provisórios. Tapam-se as fendas e os buracos entretanto abertos com betume rápido feito de pessoas. Para a maioria, vale tudo menos conhecer-se bem a si próprio e tentar perceber de onde se veio, onde se está e para onde se quer ir. Resulta precisamente daí o tão atual  sucesso das chamadas pessoas inspiradoras. É um fenómeno dos nossos tempos e há que encará-lo de frente. Há fome e há vontade de comer. No ecossistema social cada um se alimenta como pode. 
Só que até na Felicidade, como em tantos outros objetivos da nossa cultura, o facilitismo e o imediatismo são palavras de ordem. No fundo, no fundo, queremos ser felizes como A, B, ou C, mas queremos chegar lá com as nossas escolhas. Queremos o melhor de dois, três ou quatro mundos, escolhendo dar passos opostos. Queremos os resultados mas não queremos os investimentos que os proporcionam. Ou porque dão trabalho ou porque preferimos os prazeres imediatos aos retornos que por vezes demoram. E menos ainda arriscar a investir no que possa não vir depois.
Seria bom que a Felicidade funcionasse por proximidade. Ou por osmose. Ou por injeção intravenosa. Mas não funciona. A Felicidade, para quem a ambicione e da forma como ambicione, está nas mão de cada um. Não se vende e não se ensina. Não se compra. Aprende-se na vida com as decisões que tomas. Ou não. Mas és tu que escolhes.

19.10.14

O elitismo do elitismo

Mesmo sendo péssima a matemática, sou capaz de jurar que hoje de manhã, ao longo da margem norte do Tejo, se passeavam milhares de pessoas. Pessoas com camisolas iguais, por uma causa, pessoas a correr, pessoas a passear, pessoas a andar de bicicleta, pessoas a velejar. Turistas a visitar, a desfrutar, a fotografar. Quem chegasse a Portugal pela primeira vez, sobrevoando a zona, pensaria com facilidade que haveria por ali algum evento especial. E havia. Vai havendo, um evento espontâneo que paulatina mas consistentemente vai transformando a cultura de um povo. Porque o rio sempre existiu e com ele as margens e o sol, mas é inegável que nunca como agora os portugueses parecem te percebido o tanto que têm para desfrutar de borla, vivendo simplesmente com orgulho, a sua cidade. Provavelmente porque quando tinham mais dinheiro, era mais engraçado ir engrossar as multidões que faziam o mesmo em outras capitais, onde há muitos anos já se fazia jogging, comícios, piqueniques e envagelizações. Em Hyde Park ou Central Park, nas largas avenidas de Paris ou nas praças de Roma. Fazê-lo aqui? Nem pensar! Que coisa mais parola. Mas talvez a causa seja agora o que menos importa, na assinalada e assinalável mudança de comportamento. O que me alegra particularmente é perceber que temos vindo a ser capazes de perder os complexos provincianos que faziam de nós pseudo elitistas e turistas acidentais de uma cultura verdadeiramente urbana. Às vezes faz-nos bem ficar mais pobres na carteira.

19.9.14

Preto no branco

Poucas coisas devem ficar tão unanimemente bem aos homens como uma camisa branca. 
Por mim, confesso, adoro ver um homem de camisa branca e acho que não há rigorosamente homem nenhum que não fique bem, melhor, mais bonito ou mais elegante com uma. E isto seria só por si um contra senso já que, como também é unanimemente sabido, o branco não ajuda seja quem for quando as medidas já são volumosas. Mas neste caso, dá-se o caso do branco ser sempre um fator valorizador e não o contrário. Claro está que quanto melhor for o pano melhor o efeito - embora seja sempre útil não esquecer que no melhor pano cai a nódoa. Um bom algodão, com um vinco bem feito. Um bom linho, desalinhado o quanto baste. Depende do perfil. Depende da ocasião. 
Há depois aqueles homens que adotam o branco, a camisa branca, como imagem de marca. Quaisquer que sejam as razões que assistam à opção, confesso que em contrapartida esta já é uma ideia que me agrada menos. Tornar rotina o que nos diferencia e melhora pode ser uma faca de dois gumes. E sempre desmobilizador da imaginação, pelo menos para mim. Uma farda foi coisa que nunca me encantou, se calhar porque no meu imaginário esconde alguma coisa ou anula outras tantas, mais interessantes, como a multiplicidade de que todos somos feitos por dentro. Venham os dias às riscas, ou até mesmo de preto, e brindemos ao branco como um balão de oxigénio, como um recurso sempre garantido, para estarmos bem.
Há depois também quem adote o preto como imagem de marca. Nesse caso, normalmente, num look completo, denso e intenso. Misterioso, crêem provavelmente os seus donos e senhores. Será, talvez, na opinião de muitos. E gostos não se discutem, digo eu. Mas há sem dúvida algo de paralelo nesta obsessão entre vestir sempre branco ou sempre preto. E não será apenas estética, atrevo-me a dizer. Anyway, pouco importa. Confesso que sou particularmente fã de uma e outra, embora ambas com peso conta e medida e, acima de tudo, com sentido estético e de ocasião. Saber ser e estar é fundamental, em tudo na vida.
Se é verdade que me revejo nos padrões é bem mais verdade que sou cada vez mais adepta das cores sólidas na roupa. O resto pode muito bem ficar para os acessórios. Como já dizia Ivone Silva, com um vestido preto, eu nunca me comprometo.
Também sou definitivamente fã de pessoas sólidas, mas isso já era outra conversa e dava pano para mangas.

7.7.14

Nenhuma notícia acontece só aos outros

Fez este fim de semana uma semana e fui das que, no meu FB pessoal, partilhei algumas consternadas letras sobre o assunto. Não pelo facto de a mãe ser uma figura pública, não pelo facto de ele ser jovem e a morte, aparentemente, ser estúpida, mas pelo facto de ser uma mãe, como milhares de outras mães que vêm um filho partir estupidamente. Porque sou mãe. E porque para um pai ou uma mãe, perder um filho, é a coisa mais contra natura que existe. Foi uma dissertação generalizada, não alheia ao facto de, no caso, ser despoletada pela noticia de quem era, mas igualmente não alheada do drama diário que se vive no anonimato e do qual, todos os dias da minha vida, sou grata por não fazer parte.

Sucede que o caso em apreço me mereceu, logo em seguida, algumas outras cogitações. Perante a morte anunciada e confirmada publicamente, à dor associava-se como indissociável o pedido de respeito pelo silêncio. Nisto, nada de estranho, nem de reprovável. Muito antes pelo contrário. Mas emergindo do meio de onde emergiu, a constatação que me toca e indigna é a da coexistência de dois pesos e duas medidas.

É verdade que a falta de ética prolifera no mundo de hoje, sem pedir licença ou manifestar pudor. Da política ao desporto, passando pela igreja, justiça e mundo empresarial, as regras estão aparentemente subjugadas a um sem numero de factores que fazem tábua dos mais básicos valores que aprendemos como vitais à vida em sociedade. O jornalismo, infelizmente, muitas vezes, no topo da lista. Em nome da verdade, devasse-se a vida privada, invade-se o espaço físico, mental e moral. Inquire-se, vasculham-se fontes (tantas vezes de veracidade duvidosa, mas que importa?), divulgam-se suspeitas, condena-se e ponto final. Há gente com ética em todas as profissões? Há, pois, sim senhor! Felizmente!

Não se trata , pois, aqui de julgar a mulher-mãe como profissional, nem tão pouco de sobrepor dissertações sobre ética à sua dor. Judite de Sousa pediu contenção e respeito pela sua perda. Eu percebo. Todos percebemos. O que talvez menos se perceba é que, uma semana depois, isso ainda seja assunto. Ou melhor, talvez perceba, porque a razão de fundo se prende com a óbvia subversão das regras do jogo.
Ontem à noite, Marcelo Rebelo de Sousa, interpelado a esse respeito, mantendo acesa a noticia não-noticia - convenhamos, todos os dias morrem jovens de 29 anos deixando atrás de si interrogações sem resposta e dores dilacerantes nas suas familias e amigos - assinalava pela positiva e com manifesto regozijo, aquilo que nas suas palavras foi o facto de a classe jornalistica ter-se portado de forma exemplar, na forma como acompanhou, respeitou e deu cobertura ao desenrolar dos acontecimentos deste caso específico...

Nenhum juíz quer ser penalizado, em assunto que lhe diga respeito, por uma sentença mal dada e viciada da mais pura ausência de bom senso. Nenhum advogado deseja, em causa própria, ver arrastar-se no tempo o seu processo por excesso de manobras de expediente dilatório. Nenhum médico deseja estar nas mãos de um colega que ignore a forma como sofre, mais do que física, moral e emocionalmente, e que o trate como não se trata um cão. Nenhum empresário interioriza como medida de progresso e produtividade que imponham à sua mulher ou à sua filha prazos úteis para assumir uma maternidade desejada...

Nenhuma noticia acontece só aos outros. O sol, quando nasce, é para todos. A ética também devia ser.