19.10.14

O elitismo do elitismo

Mesmo sendo péssima a matemática, sou capaz de jurar que hoje de manhã, ao longo da margem norte do Tejo, se passeavam milhares de pessoas. Pessoas com camisolas iguais, por uma causa, pessoas a correr, pessoas a passear, pessoas a andar de bicicleta, pessoas a velejar. Turistas a visitar, a desfrutar, a fotografar. Quem chegasse a Portugal pela primeira vez, sobrevoando a zona, pensaria com facilidade que haveria por ali algum evento especial. E havia. Vai havendo, um evento espontâneo que paulatina mas consistentemente vai transformando a cultura de um povo. Porque o rio sempre existiu e com ele as margens e o sol, mas é inegável que nunca como agora os portugueses parecem te percebido o tanto que têm para desfrutar de borla, vivendo simplesmente com orgulho, a sua cidade. Provavelmente porque quando tinham mais dinheiro, era mais engraçado ir engrossar as multidões que faziam o mesmo em outras capitais, onde há muitos anos já se fazia jogging, comícios, piqueniques e envagelizações. Em Hyde Park ou Central Park, nas largas avenidas de Paris ou nas praças de Roma. Fazê-lo aqui? Nem pensar! Que coisa mais parola. Mas talvez a causa seja agora o que menos importa, na assinalada e assinalável mudança de comportamento. O que me alegra particularmente é perceber que temos vindo a ser capazes de perder os complexos provincianos que faziam de nós pseudo elitistas e turistas acidentais de uma cultura verdadeiramente urbana. Às vezes faz-nos bem ficar mais pobres na carteira.

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