1.6.14

Voar*


«Sei de uma rapariga que voa. Chama-se Natsumi Hayashi, é fotógrafa e vive em Tóquio. Digo que ela voa por ver as suas fotografias, que tanto gosto. A bem dizer não tenho outras provas. Mas nas suas fotografias, acreditem, ela está sempre a voar. E são muitas centenas de imagens, a horas diferentes, em lugares distantes. Onde quer que se faça ver, Natsumi Hayashi levita, como se pudesse deslocar-se em voo. Às vezes, surge um registo por dia, no esplêndido diário, em forma de blogue, que ela mantém. 

Às vezes, perguntam-me onde é que no mundo está a poesia. Acho que todos sabemos como o mundo pode ser um lugar prosaico e violento, sem fulgor nenhum, uma máquina de tortura para as questões do espírito, uma parede implacável que nos derruba. Mas não será apenas isso o mundo. E mesmo quando ele se parece reduzir dolorosamente a isso, não podemos esquecer que todos os dias ele é salvo. A mim faz-me bem reler o poema que Jorge Luís Borges escreveu sobre aqueles que salvam o mundo. Chama-se Os justos:

Um homem que cultiva seu jardim, como sugeria Voltaire
O que agradece que na terra haja música
O que descobre com prazer a etimologia
Dois empregados que num café do Sur jogam um silencioso xadrez
O ceramista que premedita uma cor e uma forma
O tipógrafo que compõe bem esta página, que talvez não lhe agrade
Uma mulher e um homem que leem os tercetos finais de um certo canto
O que acaricia um animal adormecido
O que justifica ou quer justificar um mal que lhe fizeram
O que agradece que na terra haja Stevenson
O que prefere que os outros tenham razão
Essas pessoas, que se ignoram, estão salvando o mundo

No sentido do poema de Borges, em não tenho dúvidas de que as fotografias de Natsumi Hayashi estão a salvar o mundo. O primeiro juízo que se faz sobre elas é que são estranhas. Olhamos repetidamente para perceber o que nelas acontece, como é que a situação que relatam foi reproduzida. É verdade, que se pode arrumar depressa o assunto dizendo: está bem, é uma miúda aos pulos em contextos diversos de um quotidiano urbano, nada mais. Porém, dizer isso, anula o trabalho de restauração do mundo que está a ser posto em prática. As imagens de Natsumi Hayashi documentam o sonho que todos temos, pois, como Ícaro, o herói grego, também nós aspiramos por sair do nosso labirinto. Ícaro experimentou sair com umas asas de cera e penas fabricadas por Dédalo, seu pai. E nós? A história humana, a grande e a pequena história humana, não passa de um estaleiro imenso ao serviço da invenção de asas. Natsumi Hayashi como que nos ajuda a pedir: o voo nosso de cada dia, nos dai hoje. é uma oração necessária. Sim, é possivel a cada um de nós erguer-se do peso das coisas, transcender, perfurar a cápsula de penumbra e desânimo que se abate sobre a vida, elevar-se, recolocar-se perante a linha límpida do horizonte.»

José Tolentino Mendonça, 
in O hipopótamo de Deus


* num Março distante, na Carrapateira, e um novo Junho para abrir as asas de par em par
                                                              «o voo nosso de cada, nos dai hoje», por oração

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