6.3.16

Project#6 | Luísa Almeida ✩ Produtora Biológica

Lembro-me perfeitamente do primeiro dia em que conheci a Luísa Almeida. Estaríamos provavelmente nesta mesma época do ano, há uns 3 ou 4 anos, e eu visitava o Mercado Gourmet do Campo Pequeno. A banca da Luísa era logo a primeira, assim que se começava o circuito. Apaixonei-me pela imagem da Quinta, pelas agora tão conhecidas caixinhas de madeira brancas, com corações pretos. Havia ainda outra curiosidade. O meu pai nasceu e cresceu numa aldeia com o mesmo nome: Arneiro. Quis saber se seria na mesma zona. Foi a Luísa quem me respondeu. 
Eu sei que ela não se lembra e nem nunca mais voltei a contar-lhe essa história, mas na altura perguntei-lhe se não precisava de mão de obra para os seus campos. Claro que estava a brincar. Para se trabalhar no campo é preciso muito mais do que boa vontade. Para lidar com a dureza da jorna é preciso muito mais do que querer fugir da cidade. É também, e muito, por isso que sempre admirei a sua garra para deitar mãos a um projeto assim. 

De lá para cá, acompanhei tão de perto quanto possível o seu trabalho. Como consumidora regular dos seus produtos, que compro semanalmente no Mercado Biológico do Príncipe Real e como visitante da Quinta, nos cada vez mais famosos e concorridos eventos que faz duas vezes por ano. 

Por tudo isto, ao pensar o Project#6, era inevitável que não pensasse em si. A Luísa concedeu-me esse privilégio. Tenho a certeza que, depois de lerem a entrevista, não serei a única a estar-lhe grata por isso.



Luísa, é inevitável começar por esta pergunta: Qual é a história desta quinta e a da sua relação com ela?

Tinha 5 anos quando o meu pai resolveu comprar uma Quinta. Depois de 30 anos no Brasil, estava decidido a tornar-se agricultor, assim como o meu avô já o tinha feito há 20 anos. 
Um dia meteu-me no carro e disse que íamos à nossa nova Quinta, muito perto da Quinta dos meus avós. A casa estava meia degradada e os campos pouco cuidados. Fiquei meia decepcionada, porque não tinha nada a ver com a Quinta dos meus avós...
Lembro-me que da primeira vez que cá dormimos as coisas não correram muito bem, o jardim tinha umas palmeiras muito altas de onde desciam ratos que invadiam a casa à noite. Ir à casa de banho num dia de chuva obrigava a levar o chapéu de chuva, a água caía quase como na rua. Para chegarmos à Quinta pelo caminho mais curto tínhamos que passar com o carro por dentro do rio. Subir e descer e rezar para não ficarmos atolados, o que acontecia com frequência, e lá vinha o trator puxar o carro com uma enorme corda. Uma aventura! 
E foram mesmo muitas as aventuras que vivi na Quinta durante a infância. Apesar de filha única tinha muitas vezes a companhia dos meus primos. A constante procura pelos tesouros que tínhamos a certeza que existiam enterrados por aí, os passeios à descoberta de casas abandonadas ou de caminhos perdidos. Tinha aí uns 11 anos quando o meu pai resolveu comprar-me um cavalo e durante uns anos passeei por montes e vales, eu e o meu cavalo, sozinhos a passo, trote ou galope. Adorava aqueles passeios.
E aos poucos, enquanto os fins de semana e as férias eram passadas na Quinta, as obras infindáveis transformavam uma casa velha numa casa confortável, as terras incultas em pomares de pêra Rocha. Lembro-me de achar absurda aquela ideia de plantar tantas pereiras, como íamos nós conseguir comê-las todas?…
Ao chegar à adolescência as coisas mudaram muito. Vir para a Quinta aos fins de semana passou a ser um enorme tormento. Todas as desculpas serviam para ficar em Lisboa.
Quando chegou a altura de escolher o curso, ao contrário do que o meu pai “sugeria”, Agronomia seria o ultimo curso que eu poderia tirar. “- Nunca na vida!" O campo, a agricultura, estavam a anos- luz das minhas intenções de vida para o presente e para o futuro. Mal sabia eu... 



E esta aventura (foi uma aventura? é uma aventura?) da produção biológica, como e quando é que surgiu?

A vida dá mesmo muitas voltas. Se aos 18 anos era impensável imaginar que um dia poderia viver na Quinta, aos 24 foi para cá que vim morar definitivamente quando casei. E nunca mais de cá saí. Foi aqui que nasceram os meus quatro filhos. 
Apesar de tudo continuava sem me identificar com o mundo da agricultura. Abri uma livraria em Torres Vedras, a Index. Foi uma época super interessante, de leituras e cultura... de contato com muitos escritores. 
Mas a vida continuava a dar voltas e o que foi impensável durante anos, começou a tomar sentido quando percebi depois de mais voltas que a vida deu, que, ou vinha tomar conta da Quinta ou acabaria por a vender.
Sabia que não a queria vender e decidi pôr mãos à obra.
E foi essa decisão que me fez começar esta enorme Aventura no mundo da Agricultura Biológica.
Se era para ser Agricultora então só fazia sentido que fosse em modo biológico. Se ia “usar” a terra para tirar o meu sustento então havia que a respeitar. Se ela me ia dar eu tinha que retribuir. 
E pronto, a verdade é que a terra é com certeza nossa mãe e acho que é nela que sinto a mãe que se despediu de mim quando tinha 22 anos. E descobri que a terra também é pai porque esta Aventura tem-me levado por caminhos inimagináveis, tem-me aproximado do meu pai como nunca aconteceu enquanto nos pudemos ver e tocar. 
E esta terra tem-me dado imensas alegrias. É uma Aventura enorme, hoje com os meus filhos já adultos, esta terra são eles, são os meus pais. É talvez, o meu modo de me redimir. 



E como é que define a sua relação com a terra, com a natureza, com os elementos? Ou seja, quando se está mergulhado desta forma, numa atividade como esta, vive-se pacificamente com as constantes vicissitudes ou aprende-se a conviver, a gerir um dia de cada vez?

Foi a terra que me ensinou que tudo tem o seu tempo. Sou uma ansiosa incorrigível, tudo tinha que ser agora, a espera não combina comigo, ou melhor não combinava. Foi a terra e a natureza que me obrigaram a aprender a esperar, a esperar que tudo cresça ao seu próprio ritmo. Aprendi que só posso contar com o agora nas coisas que dependem só de mim. Enquanto muitas das vezes, em que estamos dependentes de outros, sentimos que podia ser diferente, quando estamos dependentes da natureza sentimos que ela faz sempre o melhor que pode. 
Se a minha ansiedade me faz muitas vezes ter alguma dificuldade em lidar com os timings dos outros, sempre soube que não há como fugir aos timings da natureza e dos seus elementos. Se chove durante 2 meses seguidos, se vem aí uma tempestade, se precisamos de mais água e não há, se o calor é tanto que queima os nossos morangos, aí não há nada a fazer senão esperar. E é engraçado mas essa é a única espera que não me causa ansiedade. Porque tenho perfeita consciência de que não há nada que se possa fazer. 



O que é que a move todos os dias? Ou, perguntado de outra forma: ao fim de cada dia, o que é que conta mais?

Ao fim de cada dia conta saber que trabalhamos para mostrar que é possível vencer sem cedências. Que é possível fazer respeitando a natureza e os homens. Que é possível perdurar com verdade e ética. Que é possível defender sempre os princípios porque nos regemos. 
E saber que se um dia tiver que cair que caí de pé.



Falemos um bocadinho do outro lado, do lado do cliente. Quem é o cliente do produto biológico? É um cliente vai-e-vem? É um cliente consciente? Fiel? Informado?

Ser “cliente de produto biológico” pode ser muito ou muito pouco. 
Acho que se pode ser consumidor biológico de muitas maneiras diferentes, e acho também que no dia em que se toma a decisão de passar a comprar produtos biológicos, numa evolução natural, tudo começa a mudar na nossa vida. Não terá muito sentido ser consumidor de produtos biológicos e mais cedo ou mais tarde não nos passarmos a preocupar com o ambiente, com o nosso modo de estar, desde a quantidade de garrafa de água que compramos, até ao modo como vivemos o nosso dia a dia. 
Num primeiro momento normalmente começa por ser uma decisão “egoísta”, centrada em nós e na nossa família, ou porque queremos comer de um modo mais saudável, ou porque queremos voltar a sentir o sabor de outros tempos. Numa segunda fase é natural que se comecem a pôr em causa outras coisas, como a quem comprar e por ai fora. 
Serão, não tenho duvida clientes muito fieis. É muito difícil para alguém que comece a consumir biológico voltar atrás. 
Acho que a evolução natural de um consumidor biológico é tornar-se um cidadão muito mais participativo e preocupado com o todo. 
Quanto aos nossos clientes em particular são maravilhosos. E não digo isto para “engraxar”. Digo-o porque é absoluta verdade. 
Estão dispostos a pagar preços justos porque acreditam, como nós, que os agricultores (tanto nós como os nossos fornecedores) o merecem, escolhem sempre primeiro português, não se importam de partilhar as folhas das couves com os caracóis, se a courgette é torta, se as laranjas não têm o melhor aspeto do mundo. Apoiam uma agricultura biológica que não se limita a não usar químicos, mas que opta por diversificar as culturas, por fazer rotações e pousios e que quer continuar a evoluir no sentido do respeito absoluto pela natureza e sempre a pensar na herança que vai cá deixar.




Quem acompanha este projeto há algum tempo sabe que os vossos eventos sazonais - o Dia Aberto, na Primavera/Verão e a Sopa da Pedra, no Outono/Inverno - têm uma alma muito especial. A Luísa é alma por detrás deles? Como é que surgiu a ideia de os realizar e qual foi o principal objetivo?

Fui eu realmente a primeira alma destas festas, mas entretanto já há um monte de gente que participa com a mesma alma que eu. Acho que o êxito destes dias, e êxito aqui significa que todos os que cá venham consigam sair de coração cheio, se deve ao facto de todos nós pormos aqui a nossa alma. 
Porque o que interessa nestes dias, e foi para isso que os inventámos, é que ficando a conhecer a Quinta fiquem também a conhecer a sua alma.


[imagens de arquivo pessoal do evento Sopa da Pedra 2014]


Na Quinta do Arneiro há sempre projetos novos a fervilhar... e mais uma vez andam a cozinhar novas ideias... podemos levantar um bocadinho a tampa deste tacho que está a apurar?

É verdade! Projetos e ideias não faltam (risos) e é verdade que estamos a muito pouco tempo de abrir um restaurante, uma mercearia e uma academia. Conseguir abrir este espaço é conseguir tornar o sonho realidade. Desde o primeiro dia deste projeto que queria chegar aqui. Queria que houvesse aqui sempre uma refeição à espera de quem nos quer vir visitar. Que pudessem perceber o bem que se pode comer usando os produtos da horta, os produtos da época, usando os ingredientes mais frescos e simples. E como é fácil repetir em casa. Queria ter um espaço onde as pessoas pudessem vir aprender mais sobre tudo isto e tudo isto é tanta coisa que nem imaginam. 




E a Luísa? Quem é a Luísa?...

Isto do quem somos depende tanto da fase da vida em que estamos … 
Eu fui uma miúda frágil e com muito poucas defesas, cheia de inseguranças. Fui aprendendo a acreditar em mim, aprendi a não ter medos, a lutar pelos meus objectivos. 
Na adolescência era, ou pretendia ser, uma rebelde. Sempre contra tudo e todos, como é próprio. 
Sempre vivi mais no futuro do que no presente. Traço uma meta e luto por ela. A vida ensinou-me que se quero atingir um objetivo o tenho que fazer por mim. Tornou-me mais dura, é verdade, mas sei que se não fosse assim não tinha conseguido chegar aqui. 
Sou principalmente criativa, muito mais emocional do que racional. Sou muito atenta aos pormenores. Tenho mau feitio, dizem… eu acho que sou exigente. Comigo e com os outros. Tenho um redemoinho sempre dentro da cabeça, as ideais brotam como pipocas a estalar, o que faz com que se queixem de que mudo de ideias muitas vezes. Eu não mudo de ideias assim tão depressa, as coisas é que demoram muito tempo a acontecer!
Claro que hoje sou um concentrado de tudo o que a vida me deu e do que eu dei à vida. 
Mas acho que me foram dadas duas principais missões na terra. Uma que comecei muito cedo: ser mãe. Apesar de ser uma desajeitada emocional, desde sempre tive um desejo enorme de ser mãe e ter muitos filhos. Não sou uma mãe das que dá colo toda a vida, mas quero que os meus filhos sintam em mim o seu porto seguro até ao fim. 
Outra, que comecei já meio tarde, aqui na Quinta, com o meu pai a rir descaradamente lá do céu e a dizer: “ afinal quem tinha razão era eu!”. 
Entretanto correu a vida, fui tirando daqui e dali, melhorei numas coisas, piorei noutras. Cheguei a conclusões que me fizeram mudar rumos e modos de estar. 
Olhando assim de cima, o que me resume é que fiz sempre questão de ser parte ativa da minha vida. 
Uma coisa que é certa é que a vida me deu muito mais do que eu lhe dei a ela. Nunca peço nada porque acho que a vida só não dá se não puder. 

 


E como é que a Luísa, Mulher-Mãe-Empresária, olha para os desafios da famosa globalização?

Ui… tenho a minha teoria para este mundo ocidental que é o nosso. 
Nos últimos 70 anos fo-mo-nos transformando, pouco a pouco em gente egoísta unicamente preocupada com o nosso umbigo. 
Fomos conseguindo criar sociedades cada vez mais “evoluídas”, que exploram os recursos naturais até à exaustão e que pelos vistos não se lembram que são finitos, que não se importam minimamente que a mão de obra que produz tudo a preços “extraordinários” seja a dos escravos do sec XX e XXI. O que queríamos era ser cada vez mais ricos, viver cada vez melhor, ter cada vez mais direitos. Aqui neste pequeno pedaço do mundo ( Ocidente) iríamos usufruir para todo o sempre dos recursos, do trabalho, da bondade do resto do mundo que continuaria a trabalhar para nós e a oferecer-nos os seus recursos quase de graça. Até o lixo que fazemos, absurdamente mais do que o deles, é-lhes enviado, porque claro que uma sociedade evoluída não pode ficar com o lixo no jardim. 
Objetivo principal: Ganhar cada vez melhor, pagar cada vez menos pelos bens. Um contra-senso que tem que acabar mal. 
Não me parece que seja uma forma sustentada e sustentável de crescer. Não me parece que o que anda por aí seja uma crise. 
O que me parece é que - e felizmente antes que nós demos cabo do que ainda resta - a natureza porque é a tal mãe, se está a revoltar e a por-nos no lugar. 
"Parem de gastar!" é a ordem. Parem de gastar os recursos deste planeta. Parem de achar que são os donos disto tudo. Parem de se comportar como gente mimada. 
E por isto tudo, acho que os tempos que aí vêm vão ser os tempos da verdade. Vai ser um enorme desafio, vai ser duro, vai ser muito difícil mas não vamos ter alternativa. 
Quem vai conseguir viver melhor nos tempos que aí vêm são aqueles de nós que já conseguiram ou vão conseguir reaprender a viver com pouco. 
"Não dêem este planeta como seguro.” É exactamente isto que nos está a ser lembrado. Ou vamos a bem ou a mal. É assim que acontece quando é preciso educar. 



Seguindo um pouco essa linha de pensamento... desde sempre precisamos de modelos, de pessoas que nos sirvam de guia, de inspiração, de bússola. Tem alguém que de alguma forma tenha tido ou tenha esse papel na sua vida? Quem são os grandes Mestres para si? Acha que há algum modelo de herói moderno?

Assim de repente, quando me pergunta quem é o meu guia, é o meu pai. Penso nisso muitas vezes. O meu pai que morreu quando eu tinha 31 anos e com quem nunca consegui ter uma relação “pacífica”. Nunca pensei como ele e continuo a não pensar. Era raro concordar com ele e continuo a achar o mesmo. Imaginou-me alguém que não fui, tínhamos “guerras” amiúde. Por que é ele o meu guia? Porque era uma pessoa intocável nos seus princípios. Porque me ajudou a perder os meus medos e inseguranças obrigando-me sempre a enfrentar o touro. E porque no fundo estou a continuar um trabalho que ele começou. 
A minha fonte de inspiração na vida? São muitos, todos os que admiro, todos os que fazem melhor que eu. 
Se tenho um herói ? Tenho sim. Os meus heróis são todos os que trabalham para deixar um mundo melhor, todos os que insistem em defender causas que muitas vezes parecem perdidas, todos os que não vão pelo caminho mais fácil, mas pelo mais duradouro e justo. Todos os que lutam pelas suas convicções. Todos os que nascem,vivem e morrem com dignidade. Todos os que não se rendem a poderes sejam eles quais forem e que seguem o seu caminho. Talvez tenha dois heróis com nome. Uma prima que independentemente de um turbilhão de provas que a vida lhe deu, viveu até ao ultimo momento, talvez até sem se aperceber , como uma heroína. Ultimamente e independentemente do lado religioso, tenho um novo herói. O Papa Francisco. 

 

Aligeiremos agora com uma pergunta mais divertida, no mundo vegetal, que árvore, legume ou fruto seria? Porquê?

Acho que seria o tomate. Porque tem muita personalidade. Pertence ao verão e não se deixa enganar. Ok, até o podem produzir no Inverno, mas não lhe conseguem tirar o sabor que ele insiste em só dar quando o sol lhe bate em cima. Depois é, talvez, o produto da horta mais multi facetado, dá para transformar de mil e uma maneiras e faz a diferença em qualquer cozinhado onde entra. 
E depois a cor, gosto muito do vermelho vivo do tomate.



Como é que imagina tudo isto que a rodeia daqui a 20 anos, estes campos, esta casa, estas ideias que germinam, prestes a começar? Tem algum sonho especial que gostasse de ver realizado nos próximos anos? 

Uma das minhas principais motivações é fazer deste um projeto duradouro. Hoje em dia o prazo de validade é sempre muito curto. Pensam-se os projetos para durarem 10 anos e depois acabou, venha outro. É também este viver para o efémero que me faz muita confusão. O sermos fiéis a uma marca a uma empresa, às pessoas. 
Mais do que imaginar, tem a ver com sonhar. Gostava muito que os meus filhos seguissem o caminho. Gostava muito de poder estar lá em cima a rir-me à descarada e a vê-los aqui a trabalhar e a fazer este projeto continuar. Os 30 hectares da Quinta em produção plena, as terras verdes e floridas, uma pequena mata aqui, outra ali, galinhas a pôr ovos, ovelhas a pastar, os cabazes a chegar a casa dos nossos clientes todas as semanas. O restaurante a continuar a servir refeições, numa grande azáfama. A academia a dar cursos com temas sempre inovadores. 
Um pequeno hotel onde as pessoas venham ficar para assistir aos cursos e trabalhar na terra. Um programa anti-stress do melhor que há. 
E os meus filhos aqui a trabalhar, ou se não for essa a opção de todos, então que venham com os netos para que possam usufruir disto tudo...



Se for para ser será. Nunca peço nada à vida porque acho que a vida só não dá se não puder. No que não depende de mim fica o desejo de que haja quem faça e quem continue.




✩ fim 

6.2.16

Project#6 | Patrícia Novais ✩ Criadora

Há pessoas que são difíceis de resumir em palavras. A Patrícia é uma dessas pessoas, o que me torna difícil a tarefa de construir um breve texto, para a apresentar.

Sei que se disser que a Patrícia é uma Mulher inteira não falho. Depois, se quiser traçar o seu perfil pelos detalhes, tenho necessariamente que dizer que o seu universo é uma espécie de conto de fadas. Não por que existam vidas perfeitas, mas porque há pessoas que têm uma espécie de varinha de condão instalada na alma e essa varinha de condão é capaz de semear beleza e harmonia em tudo o que toca. É o seu caso.

Numa manhã de Fevereiro, a Patrícia recebeu-me em sua casa. À mesa do pequeno-almoço havia sumo de laranjas e tangerinas colhidas das árvores do seu jardim, pão fresco e manteiga de cabra. O dia começava com a mesma rotina de todos os outros: preparar lanches, levar o filho mais novo à escola, ir ao Mercado. Porque os verdadeiros contos de fadas também têm tudo isto. São as imperfeições que os tornam perfeitos.

Percorri consigo o dia e submergi no seu universo. 
A dado momento desta entrevista, perguntei à Patrícia qual era o elemento com que se identificava. A resposta que deu deixo para a vossa leitura, mas eu atrevo-me a corrigi-la. A Patrícia é Terra, Ar, Fogo e Água. É uma incorrigível romântica com uma alma pura, livre e selvagem, que concebe pequenas grandes obras de arte com os quatro elementos a regê-la. 

O resto conta ela...




Patrícia, começando pelo principio, como é que surgiu este gosto pela bijutaria?

PN - Desde miúda sempre senti uma grande felicidade em me arranjar com adornos, roupas, chapéus e bijutaria. Vestia as roupas e os colares da minha mãe e brincava durante horas. Frequentei uma escola que ficava muito perto de uma loja de noivas com fabrico próprio, onde eu passava ao final da tarde para pedir restos de tecidos para fazer roupas para as minhas bonecas. Era maravilhoso quando recebia aqueles tecidos cheios de flores e brilhos! Havia sempre uns mais especiais do que outros e desses eu fazia as peças mais especiais para as bonecas e pequenos adornos para mim também (riso) Mesmo na adolescência, sempre tive gosto por me vestir e usar peças diferentes. Eu própria as fazia. Até cheguei a fazer um fato de banho e biquinis onde colocava umas grandes missangas. Muitas vezes o que acontecia é que sentia uma necessidade de fazer coisas diferentes das que via nas lojas. Queria que ter algo mais especial e metia mãos à obra! Agora, olhando para trás, percebo que sentia um enorme prazer em criar.



Em todas as tuas coleções, há uma forte presença de flores e de animais. Qual é a influência da natureza no teu trabalho?

PN - Os meus avós viviam no campo e tinham animais. Tanto os meus avós maternos como paternos. Então cresci perto de muitos animais domésticos e também com criação de animais. Patos, perus, galinhas, coelhos... as tais fracas que ainda não conheces e de que falava há pouco, quando fomos ao mercado.
O meu avô levava-me muitas vezes a dar passeios pelo campo. Eu apanhava joaninhas, gafanhotos e grilos. Andava sempre com um frasquinho com bichinhos que depois soltava no jardim da minha avó. Cheguei a ter 26 grilos numa caixa de papelão! (risos) Sempre gostei de ter animais! A mesma coisa acontecia com as flores. Constantemente apanhava flores. E enfeitava-me muitas vezes com elas. A minha avó materna adorava flores. Observava-a muitas vezes a cuidar dos canteiros e dos vasos com flores. A minha mãe também adora flores e plantas. Não resiste a uma ervinha, como costumamos brincar! Ainda hoje foi quem preparou as jarras com flores em minha casa. E depois o gosto pelas flores também se refletia quando vestia as minhas bonecas, no sentido em que sempre tive preferência por padrões florais. Assim como ainda hoje tenho muitos padrões florais nos meus vestidos ou faço questão de trabalhar com flores e dar-lhes as formas que sempre me deslumbraram na natureza. E quando junto um animal a um colar, depois de algumas horas, temos uma peça que para mim é muito especial.



Outra referência muito notória nas tuas criações - e até mesmo na decoração e ambiente do teu atelier - é a do universo das histórias infantis. Isso é reflexo das tuas experiências de infância ou é mais da criança que ainda vive em ti?

PN - Eu penso que será a junção das duas. As nossas experiências fazem de nós o que somos. Sem dúvida que a minha infância teve uma influencia enorme no que faço e considero que, com muita sorte, ainda mantenho essa criança bem viva. Os livros que os meus pais me ofereciam em criança eram para mim maravilhosos. Eu lembro-me de ficar horas infinitas a observar os livros da Anita. Anita e as quatro estações... ainda me lembro da Anita com cerejas nas orelhas...  Adorava!! Lembro-me da serenidade que me transmitia a Anita mamã... Certas ilustrações são de facto uma fonte de inspiração. Ainda hoje muitas vezes não resisto a um livro que eu considere bem ilustrado, a uma boneca já usada, a um coelho... enfim... na decoração do meu atelier é importante estar presente aquilo que me faz feliz. É isso também que gosto de transmitir aos meus clientes. Aquilo que sou. Tenho que me sentir bem onde estou a criar. Muitas vezes levo peças de casa para decorar o Atelier, por isso mesmo. Gosto que esteja representado no atelier uma parte da minha intimidade daquilo de que estou rodeada no meu dia a dia. Os meus objetos pessoais. O meu mundo ao meu público! (risos) E é esse o lado mais arranjado do Atelier porque também há muita desarrumação... essa está também à vista dos meus clientes. A confusão na minha bancada de trabalho! É inevitável!... mas é daquela confusão que saem muitos bons trabalhos (gargalhada).


O que é que achas que as tuas peças acrescentam ao universo feminino?

PN - Eu procuro que as minhas peças sejam criativas, delicadas, divertidas e cheias de pormenor. Em todos os meus modelos eu crio formas e detalhes especiais que nos prendam o olhar. Gosto de fazer peças que sejam fáceis de usar no dia a dia, mas que sejam de certa forma marcantes. Que se destaquem pela excelência do pormenor. Tenho todo um cuidado em trabalhar os detalhes das minhas peças. Em juntar diferentes texturas e cores e torna-las peças que considero especiais. O gosto pelo pormenor, pela cor e pelo detalhe, fazem a diferença. As mulheres que usam as minhas peças, são mulheres dinâmicas, sensíveis, autênticas, contemporâneas, que gostam de se sentir bonitas e que sabem exatamente do que gostam. Levo ao universo feminino peças que traduzem a beleza da natureza. Um trabalho artesanal mas com qualidade. Nas minhas criações existe uma boa harmonia entre formas, cores e materiais, que acabam por se realçar por si só e também iluminar de certa forma quem as usa. Construo uma belíssima união entre peças vintage, cristais, com semi preciosas, com vidros, com tecidos. Utilizo nas minhas peças componentes que eu própria mando banhar a ouro de 14 quilates e o resultado é sempre muito apreciado. São peças únicas. As minhas clientes recebem com frequência bastantes elogios quando usam as minhas criações. E nós, mulheres, gostamos de nos sentir assim, apreciadas e únicas. Não será essa também a própria essência da mulher?...



Agora falando de ti. Também tu és muito feminina. E muito romântica. Podes desvendar-nos um pouco mais desse teu universo, tão especial?

PN - Sim também sou romântica!... (gargalhada) E muito idealista também, o que por vezes complica um pouco as coisas (e continua na sua generosa gargalhada). Também sou fácil de me relacionar. Tenho inúmeras conversas que parecem intermináveis com as minhas clientes, no Atelier. Sou bastante comuniativa e alegre. Muito entusiasta, tanto na conversa como na vida, como tiveste oportunidade de observar!  
O facto de ser muito extrovertida e sentir-me bem reflete-se no meu universo feminino. Isso passa também por ter uma boa noção do meu corpo e de saber o que me fica bem. Depois, como sou um espírito criativo, muitas vezes arrisco em vestir ou usar coisas diferentes, porque me deixam feliz ao usa-las, sem receio de críticas!... Não sou de me incomodar com o que os outros pensam! Sabes como é aquela história, do menino, de velho e do burro? Pois... é essa a moral da história (risos)
Adoro vestidos, lenços, chapéus, os mais variados acessórios, que tanto possa conjugar num look mais simples para trabalhar no atelier ou ir ao mercado às compras, como para sair para jantar com os meus amigos ou mesmo levar a uma cerimonia. Mas acima de tudo gosto de me sentir confortável. Quando tenho pouco tempo, muitas vezes esse conforto passa por sair de casa de cabelo apanhado ténis, uma t-shirt e umas calças largas. Fantasticamente confortável!


Vives em Setúbal. Sempre viveste aqui? Qual é a tua relação com a cidade e com a magnífica Serra da Arrábida, que é tua vizinha?

PN - Nasci e cresci em Setúbal, cidade que adoro. Já vivi em Lisboa, porque o meu marido é de Oeiras e trabalhava em Lisboa. Também já vivi em Inglaterra, para ser mais exata em Brighton, uma cidade cheia de artistas e talentosos criadores. É uma cidade extraordinária onde me sinto sempre muito feliz em voltar. Setúbal é a minha cidade. Sinto-me muito feliz aqui e na magnífica Serra da Arrábida onde, desde que me lembro, sempre fui passear. As nossas belas praias não só foram fortes fontes de inspiração como foram algumas vezes fontes da própria matéria para os meus trabalhos. Em miúda apanhava muitas bagas na serra e fazia com elas pulseiras e colares. Nas praias de Tróia apanhava conchas lindas com as quais fazia brincos, colares e até quadros. Ainda hoje tenho conchas que apanhei há mais de vinte anos. Claro que as minhas praias favoritas são aqui!


Além do tempo que dedicas ao teu trabalho e à tua família, o que é que mais gostas de fazer?

PN - Nada melhor que um domingo à mesa com a família. O meu marido trabalha fora do país durante a semana e para mim são muito importantes esses momentos em casa e essa paz, para fazer tudo o resto. 
Além disso, gosto muito de viajar. Viajo muitas vezes sozinha e gosto dessa liberdade. Viajo em especial para Londres e Paris. São cidades que conheço relativamente bem e já há muitos anos. Caminho durante horas a fio. Nestas cidades muito cosmopolitas encontro sempre focos de inspiração que me ajudam a evoluir também como designer. Sempre que me é possível viajo! Gosto de procurar peças antigas nos antiquários... é um gosto de sempre! (dá para perceber, não dá?... risos) Gosto muito de desporto ao ar livre, tenho imensa dificuldade em frequentar o ginásio... Gosto de passear pelo campo e pela praia e de observar a beleza das paisagens. Gosto de passar tempo com os meus amigos, gosto muito de musica e de dançar. Gostava de ter mais tempo para projetos que tenho sempre em mãos e que vão ficando por fazer.



É inevitável voltarmos ao tema dos animais. Tens três gatos. Qual é a tua relação com eles? E com os animais, em geral?

PN - Adoro os meus gatos! Depois de um dia agitado ajudam-me a relaxar. Fazer-lhes festas é relaxante. Cada um tem um caráter diferente. Gosto muito do Miau porque é o mais velho e cuida dos outros dois. O Thomas é o mais pacholas e meigo. Passa muito tempo no meu quarto. Gosto de vê-lo lá! A Maria é a que me dá mais trabalho por ser a mais nova e andar sempre a sair de casa para o jardim. Gosto muito de cães mas de momento não temos nenhum. Não gosto de animais nos circos, em palhaçadas, não gosto animais atrás de grades. Nem de golfinhos em tanques, nem de trabalhos forçados em animais. Sempre que me foi possível ajudei animais. Sempre que posso, levo mantas e mantimentos para instituições de animais que sobrevivem da caridade. Mas quando me perguntas qual é a minha relação com os animais em geral, perguntas-me uma coisa particularmente difícil, em que tento não ser contraditória... E não posso deixar de referir isto, não posso florear as coisas sem ser prática e objetiva. Há muitos anos que tenho preocupação com o que se passa na industria pecuária. É um horror! A forma como os animais crescem e vivem para nos servirem. Os ovos, os laticínios, os derivados... não sou vegetariana mas tenho muito cuidado com tudo o que compro para minha casa. Tenho a sorte de conhecer pessoas que têm criação e onde compro animais que viveram livres e felizes. Quanto aos da floresta, da savana, da selva e aos marinhos lamento que cada vez lhes tiremos mais espaço e a vida com a nossa chamada civilização... Mas de vez em quando lá vai um frango assado que nasceu e viveu sem ver a luz do dia...é horrível! Sinto-me mal! Também de vez em quando lá marcha um BigMac... (risos) é para mim um assunto bastante delicado.!... É como amar a natureza e ter um carro que bebe não sei quantos litros de gasóleo...o que é que eu hei-de fazer!?? Não sou perfeita!


A propósito, se fosses um animal, que animal serias? Porquê?

PN - Se fosse um animal seria uma ave! Uma ave rara!!! (gargalhada solta, sonora)
As aves parecem-me sempre animais mais livres, Talvez uma andorinha. São aves que não sobrevivem em gaiolas. Assim como eu. São aves belas. O seu vôo é muito ágil e realizam longas migrações. Gosto disso! Observar o voo das andorinhas no final de uma tarde de verão é maravilhoso, não é?

E elemento? Que elemento és? Terra, Ar, Fogo ou Água? Porquê?

PN - O meu elemento?... Penso que é o Ar. Por gostar de me sentir livre, por ser muito fácil de comunicar, porque sou sociável e flexível... Também me disperso com muita facilidade... como pudeste observar!!! (os risos são inevitáveis, ao fim de um dia com tanto por que nos dispersámos)



Uma pergunta de algibeira: se tivesses que definir as tuas criações numa palavra, qual seria?

PN - Únicas



E para terminarmos, se tivesses que te definir num verbo, que verbo seria? Porquê?

PN - O Verbo Valorizar.
Cada um terá a sua defenição de uma boa vida. Eu tenho a minha. E na minha, se tenho sorte em ter saúde e se os que mais amo estão bem, eu valorizo. Sinto-me muito grata e cheia de sorte por poder viver o mais intensamente possível e fazer o que gosto. Valorizo a saúde, valorizo o amor da minha família, valorizo as boas gargalhadas, os bons amigos. Valorizo os pardais que dormem nas minhas laranjeiras porque adoro ouvi-los. Valorizo as próprias laranjeiras!!! Valorizo o voo das andorinhas no final de uma tarde de verão, com já te disse há pouco. Valorizo a água do mar a bater-me no rosto... é maravilhoso poder fazer tudo isso. Até as minhas rugas eu valorizo! Uma grande gripe eu valorizo, porque ser relativamente fácil de curar. Tenho uma boa noção do sofrimento alheio e valorizo tudo de bom que tenho. Fico feliz por isso e sou feliz com isso. Muitas coisas que talvez aos olhos dos outros pareçam até ridículas, mas que na verdade são as que eu valorizo. O pormenor e as pequenas coisas fazem a grande diferença. Talvez seja como nas minhas criações...


✩ fim 

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