16.8.14

A viagem dos 100 passos



Sei que a doutrina se divide. Mas, para mim, nunca nenhum filme será o mesmo se não for visto numa sala de cinema. Nunca nenhuma fotografia, nenhuma banda sonora, nenhuma linha ou entrelinha de um guião serão iguais. Nunca. Simplesmente porque o cinema é uma arte. Dizer que ver um filme em casa - por muito home cinema & surround sound de que se munam - é tão bom como vê-lo numa sala com direito a bilhete pago, equivale a dizer que apreciámos um Degas ou um Vermeer por ter feito uma visita virtual ao Louvre. 
Mais. Num bilhete não pagamos só o acesso legítimo a essa arte. Pagamos os silêncios cerrados ou as gargalhadas que se soltam para aliviar a sequência de uma cena mais intensa ou dura. Pagamos o que estamos a ver e a forma como quem nos rodeia o vê. Isso, para mim, não tem preço. 
Só lamento que entretanto paguemos também para ouvir a tortura de quem come pipocas como se fosse surdo. Mas isso, são outros quinhentos.

Por muitas razões somadas - nenhuma delas suficientemente justificativa - tenho perdido alguns bons filmes. Acima de tudo, tinha saudades de entrar no escurinho do cinema e mergulhar num argumento que me provocasse uma viagem. A escolha não podia ter sido melhor.

A viagem dos 100 passos é uma caminhada pelos sentidos. Saboreia-se como um bom prato, com os condimentos certos, na justa medida. E o melhor de tudo? O melhor de tudo é ter sempre uma boa razão para regressar a casa. Um lugar a que pertençamos. À origem do que somos.

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