14.9.14

Os Maias | Segundo João Botelho

Em tom solene, precedido da devida vénia e tomando-me do espirito de João da Ega, que ontem baixou em mim na sala de cinema:
- Onde enfiou Vossa Excelência um milhão e meio, Senhor João Botelho?...

Dir-me-à, certamente, que os cenários são uma absoluta opção de estilo e que a obra é tão forte e merece de tal forma destaque que os mesmos cenários podem dar-se ao luxo de ser grosseiros, a roçar as telas que subiam e desciam os teatros de bairro ou das associações recreativas de há uns anos. Pois, talvez tenha razão, mas para chegar a essa conclusão eu teria de possuir certamente um nivel intelectual que me está vedado, como comum mortal... Na minha pequenez de espírito, imagine-se, idealizava eu que se recorresse a cenários reais, numa Lisboa que faz cada vez mais justiça à boa recuperação urbana com especial cuidado na manutenção da traça dos edifícios dessa época. Não sendo reais, que fossem então verdadeiramente estilizados e minimalistas, meros apontamentos cénicos, mas de classe, a servir de pano de fundo a uma obra-prima. Ou então - melhor opção para uma provinciana apaixonada pelo óbvio, como eu - que fossem cenários elaborados, detalhados e românticos, que servissem de moldura e complementassem com justiça a capacidade descritiva ímpar do autor. 
Mas não. Para minha surpresa, não. Eram só meia dúzia de papeis rudemente pintados, a ficcionar ruas, janelas sobre a cidade, vistas sobre o Douro... Penalizo-me, pois, por a minha intelectualidade não chegar lá...

Dir-me-à depois que na época as casas eram densas, escuras, que os ambientes eram soturnos, pesadões... Eram, certamente. Seriam, em boa parte dos casos, sobretudo nas casas abastadas e senhoriais, como sabemos, cheias de solenes reposteiros ornados de grossos galões, torcidos e batidos na madeira, as armas da casa, os oratórios com santas e santos sofredores... Mas, meu caro amigo, a coisa tinha estilo, tinha classe, tinha requinte, em muito bons casos. E dar-se-ia o caso de um deles ser o da familia Maia. Eça de Queirós eram um homem distinto, viajado, deu-se conta disso?... Sendo assim, porque recorreu V. Ex.ª ao acervo dos armazéns do Brás&Brás e o misturou em alegre desordem com o bric-a-brac das lojas de velharias - note que disse velharias, não antiguidades! - tudo com notas de grande mofo?.... 

Olhe, e o guarda-roupa? O que lhe passou pela cabeça? Que trapos eram aqueles, numa época de ouro da moda e da elegância?... Não lhe chegou dinheiro para as rendas, para as sedas, para as jóias?... Assim de repente: viu a produção de Equador?... Não lhe ruboriza as faces ter feito de Eça um pindérico?... Então a Maria Eduarda só conseguiu ter em todas as cenas um par de brincos de marcassites, dos mais reles da Rua da Prata?... Não lhe parece disparatadamente pouquechinho?... 

E a escolha dos atores?... Que raio de Carlos e Eduarda foi V. Ex.ª descortinar debaixo de que pedra?... O menino Carlos, bonito, sim senhor, mas onde deixou ele a chama?... E o pãozinho sem sal da Maria Eduarda?... O cavalheiro acha que era mesmo aquele perfil que Eça escolheria para um épico de faca e alguidar como este?... Convenhamos... Já ouviu falar em erros de casting?... Pois!

Olhe, e por fim, a direção de atores?... Que lhe "assucedeu"?... V. Ex.ª acha que ter um tom de época, falar com um léxico diferente e diferenciado dos nossos dias é o mesmo que declamar ou parecer empalhado?... Não lhe parece que para produção nacional dessa estirpe já nos bastaram os loucos anos '80 e '90 do séc. passado?...

Pronto, e para não me alongar nem bater mais no ceguinho, até porque o Rei continua a ir nu perante o aplauso entusiasta do público, e eu estou certamente a pregar aos peixinhos: Narrador?.... NARRADOR??? Inenarrável!!! Já alguém lhe disse que teve vontade de cortar os pulsos a ver a sua obra-prima?... Não? Pois olhe, vou ser original. Eu tive! 

Agora, ainda mal recomposta da violência a que durante duas horas fui ontem submetida, vou ali mandar rezar uma missa pela alma do meu querido Eça. Até porque foi ele, e apenas ele, com a supremacia da sua escrita, com o recorte das suas extraordinárias personagens, que conseguiu salvar a fita e arrancar-me alguns risos sinceros, na pele do impagável Ega. E pouco mais... 

Ó João Botelho! A mim fica a dever-me um bilhete. Ao Eça, o eventual sucesso de bilheteira que tenha. Não me leve a mal a crueza, mas para fazer isto, meu amigo, mais valia estar quietinho!

E ia eu levar a minha rica filha a ver "esta coisa" para se apaixonar pelo autor. Safa, minha rica menina! Em boa hora te safaste, por uma unha negra!


6 comentários:

  1. Ainda bem que avisas miúda. por acaso era um dos filmes que eu queria muito ir ver. Pelos Maias revisitados, pelo meu querido Eça.
    Tudo pobre.

    Beijinho))

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  2. Andava com vontade de ver. Perdi-a toda.

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  3. Sendo "Os Maias" uma obra que adoro, quando comecei a ver a apresentação decidi que seria o próximo a levar-me ao cinema. Mas poucos segundos depois, percebi que não... Os cenários e a própria interpretação fizeram-me logo mudar de ideias...
    Para ajudar, a apresentação que se seguiu foi "Magia ao luar", que me fez esquecer a anterior imediatamente :)

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    Respostas
    1. Ana, se já tinhas ficado com essa sensação... não vás!!!! ;)
      Já o Magia ao Luar, acho que vale muito a pena - sobretudo pelo "argumento" de peso que ambas conhecemos ;)

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  4. A todas,

    Creio que, quem goste de Eça jamais gostará de ver aquele filme, mas, sobretudo, pela péssima qualidade cinematográfica da adaptação.
    Em todo o caso, embora ache que o Sr. João Botelho merecesse salas vazias, acho que não se devem influenciar demasiado pelo meu comentário. Nem sempre olhamos paras as mesmas coisas de igual perspetiva ;)

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  5. Estou verdadeiramente chocada

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