30.8.12

Não sei nada sobre o amor


Um dos meus grandes prazeres é a leitura. Apesar de tudo, leio muito pouco - quase nada - de ficção, o que faz com que uma boa parte dos títulos que têm andado ultimamente e de há uns anos para cá na berlinda me passem completamente ao lado. Nunca li José Rodrigues dos Santos, nem Rodrigo Guedes de Carvalho, nem mesmo Saramago. Li Agualusa, Mia Couto, Miguel Sousa Tavares, pouco mais, no que ao panorama nacional toca. No plano internacional, em compensação tenho profunda vergonha de dois que nunca li: Jorge Amado e Gabriel Garcia Marquez. Acho um atentado, uma falha imperdoável e injustificada e há muito que assumo o compromisso de mergulhar em algumas das suas obras. Sei que até ao final deste ano o vou fazer. Está decidido!

Adoro ler e leio muito. Quem entra no meu carro sabe que encontra sempre repousado no banco traseiro ou numa das portas um ou dois livros, normalmente de reserva para os dias em que me esqueço do principal. Mas a verdade é que leio muito mais livros ligados às ciências sociais, sobretudo na área da psicologia. E o tempo que me sobra não dá para muito mais. 

Toda esta introdução parece querer justificar a imagem do livro acima e o que vou escrever a seguir. Mas não quer. Era o que faltava! 

Tenho este livro há 3 anos. Comprei-o pouco depois de ter sido lançado. Na altura tinha um programa de rádio na Antena1 que andava em torno da escrita e por isso falava também da escrita dos outros. Era o primeiro livro de Júlia Pinheiro (e único até à data, creio eu). Ocorreu-nos que seria giro tê-la por lá a soltar os decibéis.  Mas o facto de ser mulher de um dos diretores da estação de rádio e ao mesmo tempo trabalhar na concorrência televisiva da estação nacional, fez-nos reconsiderar e acabámos por nunca a ter. O programa acabou, muitos livros vieram pelo meio e, lá está, como habitual, a ficção lá por casa vai quase sempre ficando para segundo plano. 

Depois de ter acabado o livro que mais recentemente comentei por aqui, Morrer é só não ser visto, foi mesmo para este que me deu. Agora sim, andava com saudades de me entregar a uma escrita fantasiada, o que não é necessariamente o mesmo que fantasiosa. Agora a confissão: fiquei absolutamente rendida! Não me apetece fazer as contas, mas acho que o li em cerca de uma semana.

De Júlia Pinheiro tenho uma opinião que corresponderá à mais generalizada. Tem um tom de voz capaz de ferir os ouvidos de um tísico, característica que, só por si, faz perigar muitas das virtudes enquanto comunicadora. Totalmente à margem de tudo isto, considero que Júlia Pinheiro é uma mulher inteligente e com um excelente domínio da palavra. E estes são, por natureza, dois ingredientes tão básicos quanto essenciais para quem se lança à aventura das histórias imaginadas.

Não sei nada sobre o amor é um romance de quem pode não saber tudo, mas sabe muito da vida. Num registo simples, desabrido, transparente, inteiro. Com uma escrita tão fluente quanto convincente, tão prenha de sentido quanto saborosa de ler. 

Pessoalmente, não dou um chavo por livros pseudo intelectualóides que me façam voltar atrás a cada frase acabada de ler. Também não tenho pachorra para catarses de escritores à procura da identidade nem que têm da vida apenas a visão da sua sombra. Sou básica. Gosto de gente simples. Simplesmente inteira. 

Não sei nada sobre o amor é, antes de mais e acima de tudo, um fiel retrato da sociedade portuguesa ( e europeia, até certo ponto), dos últimos 80 anos. Tem o mérito de percorrer a história sem ser maçador, pretensioso ou enchouriçado para render páginas. E tudo isto conduzido pelos cinco sentidos de quatro mulheres. (se se quiserem fazer um favor, não caiam na tentação de ler a sinopse... as sinopses são habitualmente a pior apresentação dos livros, seja de quem for!)

A todos os que, gostando de ler, já passaram por esta capa e olharam de soslaio, recomendo, vivamente! E, já agora, se não for pedir muito, depois venham cá dizer se valeu ou não a pena!


5 comentários:

  1. Uma visita á fnac aguarda-me! A sua critica pareceu-me tão honesta tão directa, que simplesmente me cativou.
    Muito obrigada!

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  2. Obrigada pela sugestão. O preconceito iria fazer com que nunca lhe pegasse para ler. Obrigada e boas leituras

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  3. antes de mais, parabéns pelo excelente blog, que não conhecia e vai passar já hoje a fazer parte da minha lista.
    Este é um daqueles livros que ainda não comprei, mas que agora vou ter de comprar, pois pela descriçaõ parece-e ótimo e, pelo que li, temos os mesmos gostos em matéria de literatura.
    imperdoável é nunca teres lido alguns dos que mencionas aqui: são muito, muito bons também.

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  4. :) Já passei por ele algumas vezes e de facto olhei de soslaio com alguma desconfiança sobre a qualidade do mesmo! Obrigada pela partilha!
    Boa semana!

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  5. A todos os que vão passando, o meu obrigada. Fico feliz por equacionarem a leitura, não porque o sugiro, mas porque acho sinceramente que merece e temi justamente esse preconceito infundado.

    Depois, não se esqueçam de vir cá dizer coisas! :)

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