29.8.12

Espelho meu, espelho meu


Não me levem a mal e menos ainda me interpretem mal, mas há algum tempo que constato um estranho boom, uma curiosa moda, que traz a palavra parentalidade na ponta da língua de muita gente. 

Que é verdade que ninguém nasce ensinado para a ser pai e mãe, parece-me incontornável. Tão incontornável quanto o facto de ser importante ter a humildade de aceitar e desejar saber mais, fazer melhor, de geração para geração. Mas daí até o assunto ter uma abordagem de B-A-BA, de ABC da Sabedoria dos cronistas que a expõem, numa linguagem que em muitos casos (diria eu que assustadoramente demasiados) roça a conversa para atrasados mentais, como se de repente a humanidade tivesse perdido a memória coletiva e cada um de nós a memória da sua história pessoal, começa a parecer-me ridículo.

Que os ternurentos petizes sejam um desafio, é bom e desejável. Mas daí a tornarem-se numa espécie de "admirável mundo novo", com direito a manual de instruções como se de produtos em série se tratassem, convenhamos, dá que pensar!...

É natural que não me cativem particularmente os tão aclamados e generalizados baby blogs. A minha filha tem 13 anos, já passei a maré. Apesar de tudo, gosto de ler as aventuras e desventuras de bebés e progenitores - mais progenitoras, pois claro, que os homens andam lá fora a lutar pela vida e não se seduzem muito com estas coisas de escrever sobre fraldas - sobretudo no caso de blogs que sigo há mais tempo, mesmo antes do nascimento das atuais estrelas do pedaço :)
Nos blogs do género, que espreito ou acompanho mais de perto, há de tudo. Mães de primeira viagem, mães de família numerosa - hoje, dois filhos numa casa já é multidão! - mães leigas mas muito informadas e mães formadas em áreas da maior valia para esta missão. O único critério que me interessa é ser gente de carne e osso. Para folhetins vintage, cor de rosa, ou ligo a televisão ou compro Hola! 

O que mais me estimula no ser humano é a sua inesgotável capacidade de aprender errando. Tenho particular apreço por gente genuína e a mais profunda admiração por gente que humildemente reconhece que se engana.
Mais do que de gente que afirma, indica e dita, gosto de gente que expõe de forma honesta a sua experiência de vida e com ela se confronta, afronta e interroga. Gosto de gente que interpela e se interpela, que se desafia e que abre o peito às balas. 

Mas muito do que se vai lendo, sobre o famigerado tema da parentalidade por estes dias, tem o peso de dogma. Uma boa parte das vezes são nada mais do que frases feitas, bonitas, redondas, inchadas de boas intenções, inspiradas em tardes bucólicas ou em livros resgatados de uma estante próxima.

Fala-se das adoráveis criancinhas que temos por casa como se fossem sempre uns rebuçados docinhos de chupar, sempre cooperantes, logo lhes expliquemos as coisas com palavras dóceis e fáceis, mesmo que em forma de hermesetas (ou eventualmente disfarçadas com xanax) , como se o dia a dia de uma mãe, de um pai, de uns pais, fosse possível sem um cabelo fora do lugar, só por haver diálogo.

Quem é mãe de um sabe que é impossível. A partir de dois, desculpem lá que vos diga ou vos traumatize se estão a pensar seriamente aumentar a prol, esqueçam lá isso, meus senhores!

Toda a gente sabe que o diálogo não chega. Os patamares de linguagem são diferentes, os objetivos são diferentes, há coisas que uma criança legitimamente quer, mas que nem pode ter nem consegue compreender (e menos ainda aceitar com falinhas mansas) que não vai ter. E isto digo eu, na tranquilidade da minha experiência, que nunca soube o que era uma birra na minha filha! Mas o diálogo não chega! Os meninos que temos em casa não são vaquinhas de presépio que dizem que sim a tudo, com a cabeça. E ainda bem, digo eu, sem pingo de hipocrisia! Porque é em casa - deve ser em casa! - que testam os seus e os nossos limites, a liberdade e a autoridade. E se assim não for, - deixem-me lá agora saborear o sensação de dar bitaites genéricos, qual opinion maker encartada - preocupem-se com os efeitos colaterais e ao retardador, senhores pais! Salvo raras exceções, esse é um comportamento contra natura. Foi graças ao incoformismo e preserverança das espécies que a humanidade sobreviveu até à data. Sem espinhas!

Quem vive em família, a dois ou monoparental, sabe que cada casa, cada ninho, é palco de sucessivas guerras e armistícios, sempre em nome de uma paz que se deseja seja duradora e eficaz. Ser pai e mãe é um trabalho duro, em muitos momentos incompreendido pelos que mais e melhor nos deviam perceber e ajudar, demasiadas vezes sem retorno imediato, que exige a resiliência dos bravos e a paciência dos santos e que muitas vezes provoca desencontros com as pessoas que mais amamos - os filhos. Não me levem a mal, senhores amigos dos dogmas da parentalidade, mas dourar a pílula é maldade... 

Se ao escrever o que por aí se escreve se pretende fazer um serviço público, não falem em português suave. Chamem os burros pelos nomes e não caiam na distraída tentação de fazer mães e pais, seres humanos de carne e osso (e muito sangue!) sentirem-se extra terrestres ou carrascos, por não conseguirem ter sempre um sorriso plácido e cândido estampado no rosto, nem um cabelo exímiamente penteado. 

De boas intenções está o inferno cheio. E de modelos perfeitos e inatingíveis desconfio que também, por sinal...




26 comentários:

  1. Não tenho filhos e, consequentemente, não tenho experiência para falar no tema, mas de facto as tuas palavras descrevem uma realidade muito nítida. No tempo dos nossos pais e avós não havia babyblogs ou sequer as centenas de livros que hoje existem sobre parentalidade, e apesar disso sempre conseguiram dar a educação devida aos seus filhos. Também me identifico mais com blogs que demonstram de facto a realidade, feito por pessoas reais que partilham a sua experiência sem a pintar de cores e utopias. Pessoalmente acho a maternidade mais bonita quando vivida no campo íntimo, mas se as pessoas escolhem partilhá-la pelo menos que sejam fiéis à sua experiência com ela.

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  2. Sim, é verdade que muitos blogues sobre bebés parecem pura fachada. Mas há que ver o objectivo que servem. Muitos usam-nos como escape das preocupações do dia-a-dia, ou seja, sem propósitos didácticos mas meramente lúdicos. E é verdade que não há ensinamento em livro nenhum (muito menos em blogue algum) que valha a intuição de uma mãe. Portanto, viva a "parentalidade" à moda antiga, que não sai beliscada dos passatempos digitais de hoje! ;)

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  3. Coisas que eu poderia dizer... se alguma vez conseguisse escrever assim.

    Depois de três semanas de férias com 3 criaturas, depois de muitas horas de viagem dentro do carro, de muitas birras para chamar a atenção, de muitas guerras e implicações para tentar marcar território, não poderia estar mais de acordo.

    Jorge Soares

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  4. Tão verdade Margarida.
    Eu mãe de 3 rapazes digo que sim, que tens razão.
    Não é fácil e não tem um guião escrito, até porque cada miúdo é único, e eu que até tenho filhos gémeos, o modo de transmitir uma ideia a um é diferente do modo de transmitir a ideia ao outro. Respondem de forma diferente ao mesmo estimulo. Apesar de terem a mesma idade a mesma "educação" tudo igual, mas sao indivíduos e únicos.

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  5. Eu mãe de duas meninas doces mas teimosas como um raio, concordo consigo!
    Bem dito e bem escrito, adorei!
    Maggie

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  6. É muito verdade o que diz. E é enorme a pressão que sofremos hoje em dia em que temos de ser super em tudo. Eu própria sinto que posso e devo ser melhor mãe e às vezes sinto uma angustia enorme quando me passo, quando o piolho me irrita, quando faz birras, quando não quer comer, quando me desafia... E a única coisa que quero é ser a melhor mãe do mundo para ele. Porque não há duas çriancas nem duas mães iguais. E de facto é uma aprendizagem diária que deve ser feita pela positiva.

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  7. O teu querido sobrinho que o diga, tem sido um autentico terror nestas férias, estou mais cansada do que no último dia de trabalho... acho que me vai saber bem voltar para descansar das birras, das teimosias, do esticar a corda, do experimentar para ver se a mãe/pai faz mesmo...
    Estou a dar em doida!

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  8. http://avidaa4d.blogspot.pt/2012/08/quando-olhas-para-o-espelho-o-que-ves.html

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  9. Anónimo30.8.12

    Leio-a há já algum tempo. Embora me identifique muito com a sua postura de vida e com os textos e imagens que vai partilhando connosco, nunca comentei nenhum. Os seus posts não são para comentar, são para saborear e guardar.
    Mas a este eu tenho de fazer uma vénia e dar um grande aplauso.

    O meu nome é Carla, vivo em Aveiro, sou mãe sozinha de 3 crianças (15, 9 e 8 anos).

    Continue a brindar-nos com a sua magia :)

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  10. Nunca comentei e tenho um babyblog. Tento sempre ser realista, falar das coisas como elas são. Não escondo de ninguém as dificuldades de ter uma criança, sermos profissionais, esposas, mães, donas de casa, tudo ao mesmo tempo. Por outras vezes tento ver pela positiva a alegria enorme que ela nos trouxe e paro de me queixar das dificuldades e dos problemas porque não vale a pena imaginar que não os temos como todas as pessoas. Um babyblog para mim só faz sentido se puder ser um escape do dia a dia ao mesmo tempo que possa ter alguma utilidade. Bom post, obrigada pela escrita sempre maravilhosa!

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  11. Aplausos para ti minha querida. Eu tenho dois filhos e tantas vezes me passo. Então a irreverência do mais velho deixa-me muitas vezes de cabelos em pé. ..

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  12. Vivo a maior e mais feliz experiência da minha vida há 22 meses. Sou mãe de uma menina. Também escrevo num blogue e a grande motivação é esta magnífica experiência da maternidade. Longe de querer ensinar alguma coisa a alguém, transmitir valores ou dar a entender ser fácil educar sem punir/castigar. Apenas escrevo porque gosto. Porque me dá gozo partilhar alguns momentos com pessoas que conheço (e não só), poder receber comentários e assim, desenvolver uma "conversa" sobre temas de gostos comuns. E sim, apesar de discordar com algumas das regras "à moda antiga" confesso que em 22 meses já tive dúvidas, já me debati "isto vai ser bonito vai" e já me questionei "explicar só não chega". Mas educar não é fácil e é um verdadeiro desafio... para toda a vida. Parabéns pelo blogue.

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  13. "conheci-te" ontem e gostei. aquilo que escreves e, sobretudo, a forma como o fazes são admiráveis. parabéns. por tudo.

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  14. Anónimo30.8.12

    Muito agradecida por este bocadinho
    Célia

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  15. Anónimo30.8.12

    Ai, que é mesmo isso que escreveu! Ainda ontem comentava como o meu filhote de 18 meses me tira do sério em algumas alturas. Existem momentos em que o desgaste é muito grande e lá solto uns "berros" e ameaço com uns "tau-taus"! Depois se conto a outras mães, elas fazem uma cara de ET como se nunca lhes acontecesse nada disto... E na verdade a sociedade exerce uma grande pressão sobre a "perfeição" que os pais de hoje têm de ter na forma como lidam com os filhos. Na verdade os nossos pais não se safaram assim tão mal e não debatiam tanto esta temática!Obrigada pelo post! Beijo Joana

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  16. Adorei, adorei, adorei, tenho um nenuco que faz hoje 18 meses e ontem fui buscá-lo á ama e cheguei um pouco tarde, o menino presumo que tenha ficado chateado pois sou sempre pontual, e quando sobe para o meu colo decide dar-me chapaditas( mas fortinhas) na cara.
    Ora uma mãe de 1º viagem como eu controla-se tenta falar com o menino, mas a vontade é dar-lhe uns abanões....
    Não tenho um baby blog, nem estava familiarizada com o termo parentalidade, contudo ao ler o que escreveu para mim fez tudo muito sentido.
    Mais uma vez adorei!


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  17. É engraçado como muitas vezes nos questionamos (eu me questiono) será que sou só eu que não consigo educar só na base do diálogo? Mas o certo é que por mais que não se queira estas questões levantam-se na hora que se lê, blogs ou manuais de como bem educar uma criança.
    Queres saber? Duram 5 min estas minhas dúvidas. Sem culpas! Não costumo falar dos verdadeiros duelos verbais que temos em casa não sou exemplo para ninguém. Sou tão humana que até dá dó!

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  18. Obrigada. Já não sentia mal por ser uma mãe/pessoa real. Agora sinto-me ainda melhor. bjs

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  19. Se conseguisse escrever assim essas palavras poderiam ser minhas.
    Como mãe de duas filhas, tendo a mais velha já 16 anos e a mais nova 19 meses, não me tenho preocupado em demasia com esta coisa da parentalidade, pois sei, por experiência própria, que não é possível levar o "manual" à risca. Há aspectos positivos, claro, mas não se pode tomar como uma verdade absoluta a cumprir a 100%. Até porque somos humanos e, como tal, não somos perfeitos.
    Bjs e obrigada pelo post :)

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  20. Comecei a segui-la ontem e estou a adorar. Também tenho um blog, fala muito dos meus dois filhos, principalmente da Beatriz que tem 8meses.É além de mais uma maneira de eu descontrair e falar das mais diversas coisas e temas. É um mundo novo para mim. Sou novata nestas coisas e não tenho o dom da escrita. Sou muito básica e simples e não tenho formação académica. Às vezes custa-me muito exprimir as minhas ideias e sentimentos e o Blog tem-me ajudado muito nesse sentido. Não pretendo ensinar nem dar formação em como se educam filhos no meu blog, mas gosto muito de escrever sobre as evoluções e mudanças da minha bébe e de todas as coisas que gosto, moda, decoração, culinária...talvez para mais tarde recordar e até pode ser útil para alguém não sei. Adorei este post e adorei o blog. BEIJINHOS!

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  21. Anónimo30.8.12

    É tal e qual. Há dias em que me sinto tão (mas tão) desgastada que dou por mim aos gritos por tudo e por nada. E a necessidade de paz e de silêncio chega a doer na alma. O coração? Bate setenta vezes por minuto e depois acalma. Mas não é nada fácil.
    Inês, mãe sozinha de 3 filhos adolescentes

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  22. Adorei e apesar de escrever um blog onde falo e mostro muito mais coisas bonitas e boas desta vida de mãe de duas, a vida está cheia de coisas chatas e muito desagradáveis entre elas muitos dos dias maus dos nossos filhos:((
    Adorei o post e a forma de escrever...

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  23. Que bom chegar aqui e ler um pensamento que podia ser meu. Por vezes existem blogs que com tanto floreado pelo meio me levam a questionar o meu desempenho. Depois opto por seguir em frente convicta de que dei o meu melhor. Afinal, não acredito que numa casa onde as leis não sejam desafiadas as crianças ganhem gosto por desafios. Existe algo que, em minha opinião, se esquece. Ter filhos é também crescer com eles, aprender com eles. É acima de tudo respeitar um novo ser que chega a um mundo cheio de regras que ele desconhece. Uma boa semana e parabéns pelo blog. Agora vou ali ler mais uns posts.

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  24. Pela intensidade de partilha e conteúdo de todos os comentários feitos a este post, fui adiando as respetivas respostas, no intuíto de fazer comentários mais pormenorizados, como me merecem as vossas partilhas. Mas com isto o tempo foi passando e, à semelhança deste, muitos outros posts foram ficando por comentar e responder. Agora, à distância do tempo, quero apenas agradecer-vos e muito tudo o que aqui deixaram e que só comprova que felizmente as vidas reais e equilibradas são também feitas de dúvidas, conflitos - internos e externos - e momentos menos cor de rosa. Não é isso que nos torna piores pais ou mães. Muito pelo contrário, digo eu!

    Espero que pelo menos tenham subscrito os comentários posteriores, para ainda ler esta minha resposta, com mais de 1 mês de atraso...

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  25. Sabes, leio isto numa altura complicada... mãe de primeira viagem, muito peso nos ombros que nada têm a ver com o meu tesouro, essa incompreensão de que falas, um filho lindo e maravilhoso com personalidade forte e desafiador, muito no qual tenho muito orgulho em ser assim mas que só eu sei o que por vezes me custa ser a única a tentar impor alguma regra... Obrigada por isto...

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  26. Li, nem sei como aqui chegou tanto tempo depois, mas agradeço o comentário.

    Não há famílias perfeitas, como não há fórmulas perfeitas. Criar um filho, de forma sólida e eficaz no tempo, só é possivel na base tentativa-erro.

    Boa sorte! E não tenha medo de falhar :)

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