16.1.15

| A sociedade do cansaço*



«Todas as épocas têm as suas patologias e estas funcionam como indicadores que vão além do diagnóstico banal. As enfermidades dominantes mostram-nos o ponto de dor escondido, revelam comportamentos e compulsões, desocultam a vulnerabilidade que é a nossa, mas que raramente queremos ver. Ora, o grande combate dos séculos que nos precederam foi bacterial e viral. A invenção dos antibióticos e das vacinas, partindo do reforço imunulógico, sem resolver tudo, torna, no entanto, esses problemas sanitários controlados. É verdade que de vez em quando irrompe o pânico de uma pandemia viral, mas essa não é a questão que condiciona mais profundamente os nossos quotidianos e práticas. O filósofo Byung-Chull Han, seguido atentamente em círculos cada vez mais amplos, defende que este começo do séc.XXI, do ponto de vista das patologias marcantes, é fundamentalmente neuronal. O sol negro da depressão, os tanstornos de personalidade, as anomalias de atenção (seja por hiperatividade, seja por uma neurastenia paralisante), a síndrome galopante do desgaste ocupacional que nos faz sentir devorados e exauridos por dentro à maneira de uma terra queimada, definem o difícil panorama da década presente e das que virão. Estas enfermidades não são infeções, mas modalidades vulneráveis de existência, fragmentações de identidade, incapacidades de integrar e refazer a experiência do vivido.
A verdade é que as nossas sociedades ocidentais estão a viver uma silenciosa mudança de paradigma: o excesso (de emoções, de informação, de expetativas, de solicitações...) está a atropelar a pessoa humana e a empurrá-la para um estado de fadiga, de onde é cada vez mais dificil retornar. O risco é o aprisionamento permanente nesse cansaço, como explicava profeticamente Fernando Pessoa:
"Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem de estar cansado.
De que estou cansado não sei:
De nada me serviria sabê-lo
Pois os cansaço fica na mesma" »


* Palavras de José Tolentino Mendonça, para refletir.
in A Mística do Instante | o tempo e a promessa

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