19.6.12

Fim de ano



O ano letivo terminou. Para o bem e para o mal, alunos e encarregados de educação podem respirar de alívio. E os professores também. 
Quaisquer que tenham sido os resultados, o ano passou. Agora é tempo de férias. E, ao contrário do que muitos pensam, nas descontraídas férias cresce-se e matura-se. Muito!
Como mãe de uma pré-adolescente de 13 anos, já passei, como mãe-educadora por muitas fases. Anos de maior e menor sobressalto. Este ano não foi, definitivamente, um ano agitado. Muito antes pelo contrário. Mas muito provavelmente não o foi, porque foi o ano passado :)

Nenhum de nós nasce ensinado e formado para rigorosamente nada na vida. Apesar de tudo, incompreensível e obstinadamente, parece que continuamos a só nos dar conta disso em relação aos resultados escolares, primeiro, e à formação académica e profissional, mais tarde. Só aí achamos que temos de estudar, investigar, comparar, experienciar, ter mundo. E é pena. Porque a profissão de pais nem sempre (muitas vezes não o é, de todo, nem antes nem depois) é acompanhada de vocação. E ter uma profissão em full time  para a qual não se tem a mais pequena vocação exige mais estudo. Porque mesmo quando se tem uma vocação nata para esta coisa de ser pai e mãe, mergulhamos numa gigantesca aventura. Porque é fascinante mas não são favas contadas. Porque não há fórmulas mágicas. Porque não há receitas certas. Porque somos todos diferentes. Nós e os nossos filhos. Porque não somos formados para a função mas, infelizmente, somos muito formatados para a sua condição. Porque a história está povoada de estórias da carochinha a que ainda ninguém descobriu a verdadeira moral... 

Na sequência de um e-mail trocado no outro dia, como mãe-educadora com um caminho povoado de tentativas-erro e, simultaneamente, uma eterna aprendiz, que procura há muito beber as mais diversas experiências e visões das mais diversas fontes, deixo aqui, neste final de ano letivo, algumas ponderações absolutamente genéricas. Porque acredito no valor da partilha.




  • As crianças têm, por natureza, prazer em descobrir e aprender coisas novas; faz parte do nosso percurso de crescimento, conhecer, desbravar, expandir.
  • Nem todos revelamos interesse em descobrir e aprender as mesmas coisas, nem tão pouco o mesmo ritmo nessa descoberta; o prazer de aprender quando somos pequenos tem, e muito, correspondência com muito daquilo que revelaremos mais tarde, em termos de vocação, apesar de todas as transformações a que a idade e o crescimento nos vão sujeitando
  • A grande maioria das crianças - atrevo-me a dizer as saudáveis - preferem a aprendizagem pela experiência, pela vivência; a sensorial à académica. Até relativamente tarde, uma aprendizagem que seja feita à margem desta experiência é menos tolerada e menos assimilada;
  • As pequenas-grandes mudanças no quotidiano de uma criança podem desencadear pequenas-grandes mudanças na sua estrutura/conjuntura. A maioria das vezes, essas transformações fazem-se em pequenos ciclos, com pequenas manifestações comportamentais de alteração, mas de carater temporário; outras - dependendo da estrutura emocional da criança, da estrutura do seu meio envolvente, da atenção dedicada ou não à mudança, da capacidade de comunicação, verbalização e intereação entre os interlocutores da mudança - podem permanecer por mais tempo, ora como sintoma de mudança mais estrutural e estruturante da personalidade, ora como sinal de alerta da criança ao seu meio envolvente, para que a ajude a resolver um mal-estar que não consegue resolver sozinha. Estes sintomas são, muitas vezes, transportados e manifestados no espaço escola, a diversos níveis.
  • As comunidades escolares e os professores em particular, têm, a par da família um papel fundamental na construção da estrutura das criança. Infelizmente, numa boa parte dos casos, escolas e professores são ainda muito mal preparadas para se encararem nesse papel de forma prática e ativa; a tendência para repreender, castigar, rotular, marginalizar é, assustadoramente recorrente - porque um aluno que dá trabalho não é encarado como um desafio, mas como um estorvo. No seu dia a dia, as escolas não assumem o importantíssimo papel de ajudar a crescer. E todos sabemos que crescer não é fácil!
  • Socialmente, exige-se hoje em dia que sejamos pais perfeitos, que estejamos atentos a tudo e, sobretudo, que sejamos geradores e promotores de seres de sucesso. A toda a hora, pela pressão e imposição do nosso dia a dia, somos empurrados a olhar para os nossos filhos como pré-candidatos ao mercado de trabalho, a um mundo de feroz concorrência e competição; sentimo-nos obrigados a muni-los de armas e bagagens para tudo, como se o mundo fosse um cavalo de batalha e o dia a dia pouco mais do que uma guerra aberta. Provavelmente mais do que nunca, encaramos os filhos como um espelho de nós mesmos e, angustiados que estamos com o que vemos à nossa volta, tememos rever neles as nossas histórias de dificuldades, medos, retrocessos e insucessos;
  • Quando crescemos desenvolvemos um estranho branqueador de memória. Passamos a ter dificuldade em olhar para trás e recordar a criança e adolescente que fomos. Muitas vezes, também - demasiadas, diria eu, e é pena - sabemos muito pouco sobre os que nos antecederam ou até mesmo sobre quem temos a nosso lado. Seria importante nunca esquecer que a genética é incontornável e prodigiosa a dar-nos pistas. "Filho de peixe sabe nadar" e "Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és", aplicam-se aqui como uma luva :)
  • É fácil perceber o quanto esquecemos que somos parte de um todo, de um percurso, de um crescimento, se tomarmos atenção à forma como nos exprimimos, referindo-nos às crianças - e também aos adolescentes - como se fossem parte de um mundo diferente do nosso. Se trocarmos expressões como: "as crianças estão sempre a pedir atenção" ou "os adolescentes dão muito trabalho" por "quando somos crianças estamos sempre a pedir atenção" ou "quando somos adolescentes damos muito trabalho", veremos a enorme diferença em que isso se traduz, empaticamente. É fácil avaliar à distância, mas só é fácil porque já passamos por lá. E se passámos, por que esquecemos? O que ficou mal arrumado para insistirmos em estar divorciados dessa parte de nós? E se não esquecemos, por que não aproveitamos ativamente a informação, seja positiva ou menos positiva, que ficou arquivada?
  • Há uma tendência natural, mas nem sempre saudável, de olhar para trás e de comparar. Comparar os nossos filhos com as crianças ou adolescentes que fomos só faria sentido se considerássemos que devíamos ter sido iguais às crianças e adolescentes que os nossos pais foram... e certamente, nenhum de nós pensou ou pensa assim. Cada geração é uma geração. Evolui, traz novos desafios, mas também novas respostas. Ainda bem!
  • Quantas vezes nos perguntamos coisas como: "Gosto de um emprego que me amarre a uma cadeira horas a fio a fazer coisas que sinto que não contribuem em nada para o meu crescimento pessoal?"; "Gosto de sentir que alguém que me é importante e para quem me sinto importante, trouxe para a sua vida outra pessoa que lhe é tão importante quanto eu?"; "Quando tenho alguma coisa que me assusta e angustia, a minha relação com o mundo e os que tenho à volta, fica igual?"; "Tenho obrigação de fazer e dizer tudo de acordo com as expetativas dos outros e se não o fizer eles têm o direito de gostar menos de mim?"... Que respostas encontrávamos, nós, adultos, a estas perguntas?... Certamente que não lidamos, ainda hoje e já sabendo tanto mais, com toda a mestria com situações como estas...pois não?
  • É fácil cair na tentação de pensar que estamos a fazer alguma coisa mal, que estamos a falhar em algum ponto com um filho que nos está a enviar sinais preocupantes. Quando nos assustamos desorganizamo-nos e, menos organizados, ficamos com menos espaço disponível para priorizar. Por vezes faz falta parar, ganhar alguma distância da situação que nos preocupa e tentar ver, com objetividade, que "mancha" real tem na nossa vida. A maior parte das vezes, depois de feito este exercício, percebemos que o que nos parecia gigante, estava apenas em cima das nossas cabeças. Relativizar e priorizar as nossas inquietações do dia a dia, dá-nos fôlego para agarrar com outra energia o essencial;
  • No espaço escola, passam-se muitas vezes coisas que, ora por vergonha, ora por não encontrar espaço emocional ou temporal para o fazer, os nossos filhos não partilham connosco. Nem sempre o facto de um filho nos dizer que não gosta da escola nem de aprender tem, efetivamente, relação direta com a aprendizagem. Muitas vezes as crianças usam esse argumento, ora por ser mais fácil e direto, ora porque elas mesmas não interpretam a razão de fundo. Mas, muitas, muitas vezes, essa distância é ganha por dificuldade de integração em grupos ou em brincadeiras a que os adultos à volta não estão qualitativamente atentos (nomeadamente os professores)
  • Muitas vezes ficamos - enquanto crianças, adolescentes e adultos - presos nos nossos próprios ciclos de medo - frustração - deceção - vergonha - zanga - problema. Honestamente, como ficamos mais confortáveis: que nos digam que "somos maus", que estamos a "falhar", que estamos "abaixo do que esperam de nós", ou que nos chamem para perto de si e nos digam: sei que não és assim, diz-me o que te inquieta, talvez te possa ajudar?....
  • Quantas vezes partimos das nossas dificuldades e dos nossos medos como ponte para a comunicação? Falar apenas do que conseguimos fazer e dos nossos sucessos como exemplo, ainda que possa ter a melhor das intenções, constrói muitas vezes dentro nos nossos filhos modelos inatingíveis de perfeição, fazendo-os sentir, recorrentemente, que façam o que fizerem ficarão sempre aquém das expetativas do seu modelo.

Comunicar ajuda a fazer caminhos. 
A relação é, provavelmente, a maior fonte de todos os bens e de todos os males ao longo da nossa vida. Começa no momento em que alguém decide gerar-nos e com isso amar-nos, ou não, exatamente como somos. Mas é talvez, também por isso, a maior fonte de salvação.
Todos erramos, todos temos medos, todos temos, muitas e muitas vezes, vontade de desistir, de dizer "assim não brinco!" Todos!
Mas o amor e a capacidade de comunicar com o mundo à nossa volta ajudam a fazer qualquer caminho com muito menos medo de errar e, sobretudo, acreditando que é com o erro que mais e melhor aprendemos.
Faz toda a diferença percebermos que não somos amados só se fizermos tudo bem. E, muitas vezes, mesmo que com o coração nas mãos e a dúvida instalada na alma, vale a pena dizer a um filho - ou a qualquer outra pessoa importante na nossa vida - "Não conseguiste agora, mas vais conseguir a seguir. Porque és capaz de tudo o que desejas. Porque eu sei que é isso que desejas porque, se não fosse, não ficavas triste, nem zangado, nem assustado como estás. Tu consegues e eu estou aqui, para o que necessitares, incondicionalmente!"
Mas a par de tudo isto é também importante, e muito, que nunca nos esqueçamos que o amor é um caminho com duas vias. Culpabilizarmo-nos a todo o instante pelos resultados dos nossos filhos, anularmo-nos em nome dos seus transitórios caprichos, nunca foi ou será uma boa resposta às suas dúvidas, anseios e pequenas quedas. Distinguir claramente os papeis de pais e filhos, mantendo o amor-próprio de mão dada com a responsabilidade de cada um é, seguramente, o caminho que maior sucesso pode trazer ao futuro de todos.

Que venham agora as férias, mergulhemos nas experiências vividas e cresçamos com tudo o que aprendemos este ano letivo!

7 comentários:

  1. Vejo mesmo que há uma maior valorização da aprendizagem pela experiência pessoal Sinto que os miudos se aborrecem muito com os livros e preferem a partilha... sinto mesmo que o mundo está em grande transformação e que está a ser muito dificil para muitos.
    Mas acredito no poder dos ser humano. Sou uma optimista nata!

    E vivam as crianças!!!

    Bjs docinhos xxx

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  2. Não sou mãe de um adolescente, mas vejo muitos adolescentes à minha volta. Uns precisam de compreensão, que lhes deitem a mão e que não desistam deles. É sem dúvida, uma fase crítica mas também é um culminar de uma infância mal resolvida para alguns.
    Relativamente à forma como a escola encara os maus alunos, concordo com algumas partes e como profissional, discordo de outras. mas isso, sou eu que não me categorizo no pacote dos professores que desistem dos seus alunos. E como eu, há ainda muitos que vestem a camisola. Outros, nem deviam ter turmas à sua frente (nem boas, nem más) pois o "estrago" que farão no percurso escolar de alguns miúdos pode ser irreversível. Mas isso é como tudo: há bons e maus profissionais.

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  3. Não li tudo porque não me dá muito jeito ler textos longos no PC, mas... será que a menina não está um bocadinho ansiosa com a educação da sua adolescente? Calma! Há que ter muita atenção com os filhos, mas temos de contar com os imponderáveis do dia a dia. (Peço desculpa de entrar aqui e começar já a "mandar bitaites" mas fui mãe de duas filhas e fui professora de adolescentes quase 40 anos...)

    Beijinhos

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  4. Aline,
    Concordo com tudo o que dizes. e claro que há professores que são Professores. Mal (pior) iria a escola, se assim não fosse! Há bons e maus profissionais em todas as profissões. O que acontece é que numas será mais grave que noutras, mas isso já é outra questão.
    Boas férias escolares :)
    Beijinho

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  5. Cara Graça,

    Antes de mais, um blog de porta aberta e sem comentários moderados é, de forma natural e tranquila, aberto a bitaites. Quando não têm lugar, suprimo a opção de comentar, o que raramente acontece. Assim sendo, para começar, os seus bitaites são bem vindos.

    Em 2º lugar, publicamente assumo que não gosto por natureza de posts grandes. Nem no meu nem em nenhum blog. Raramente tenho paciência para ler. É necessário que me interesse MUITO o tema, para lhe dedicar o tempo de uma leitura extensa. Naturalmente, cada um tem um blog pelos seus motivos. O meu não é, nunca foi, mais do que um diário de bordo. Nunca "trabalhei" para o número de seguidores ou pretendi ser opinion maker fosse do que fosse. O espirito foi e sempre será o da simples - e de preferência sucinta - partilha. Isto para dizer que, se estivesse do lado de fora, dificilmente leria um post desta extensão...

    Quanto à pergunta que me coloca... sinceramente, creio que não, que não estou nada ansiosa, e creio que isso resulta exatamente do conteúdo do texto. Aliás, se tivesse algum ano par o ter ficado teria sido no ano passado e nem mesmo nesse foi esse o sentimento. Preocupação, sim. Ansiedade, não.
    Este texto, que acabei por colocar como post, surgiu num contexto especifico, como reflexão e partilha com outra mãe.
    Por estarmos em férias escolares e justamente por sentir que muitos pais vivem ansiosos com o percurso escolar dos seus filhos, acabou por me apetecer partilha-lo.
    Creio que, se tiver paciência de o retomar e ler até ao fim, perceberá que a intenção é precisamente desdramatizar e aliviar a carga que tantas vezes colocamos em situações passageiras e, até certo ponto, saudáveis no percurso dos nossos filhos.
    Ainda assim, defendo que a deficiência de comunicação parte sempre do emissor da mensagem. Eventualmente, se for ansiedade o que resulta das minhas palavras neste post, então é porque me terei exprimido muito mal, no sentido que lhes queria dar. Porque era exatamente o contrário.:)

    Obrigada pela suas visitas e comentários noutros posts. Volte sempre! :)

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  6. Obrigada pela sua cuidada resposta. Fica desde já a saber que sou "um bocadinho" precipitada nos meus comentários; mas, por outro lado, como gosto de ler os textos dos bloggers e como gosto de escrever, vou respondendo. Além disso, com as mães (e pais) tenho sempre a tendência para os descansar das suas pequenas questões. Defeito de formação porque sempre gostei de falar com os pais dos meus alunos e de os "descansar"... É sempre preocupante sentir os pais ansiosos já que isso vai trazer problemas para os miúdos - e nós sabemos bem o que custa "educar" e aturar adolescentes...

    Espero que não me tenha levado a mal.

    Beijinhos e obrigada uma vez mais.

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  7. Graça, não se preocupe, não levei mal :)

    Quanto ao que diz, estamos então em sintonia. Foi isso mesmo que tentei deixar implícito, neste texto.
    Beijinho

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