18.10.17

Crónica de uma Concentração


Talvez por que acredite que o verdadeiro poder é pacífico e silencioso nas suas ações não sou, por natureza, apologista de manifestações.

Cresci no florescimento de um Abril recém instalado. Tive muito pouco por que lutar, além dos meus objetivos pessoais. A coisa mais ativista que fiz - a única, em abono da verdade - foi montar guarda à porta da Faculdade de Direito de Lisboa quando esta foi fechada a cadeado pelos alunos. Convenhamos, havia a necessidade de fazer alguma coisa que criasse escândalo no ano em que o velho Prof. Martinez decidiu chumbar, praticamente na íntegra, os alunos da cadeira de Filosofia do Direito. Fora isto, em que ter vinte e poucos anos abonava, nada mais me consta no curriculum, a título revolucionário.

Quando anteontem começaram a surgir os primeiros apelos a concentrações visando manifestar a indignação pelos mais recentes acontecimentos, ateou-se um verdadeiro rastilho dentro de mim. Entre a mais silenciosa tristeza, a mais desalentada apatia e a mais profunda revolta que senti desde Domingo, havia uma espécie de digestão parada pela total incapacidade de processar tudo o que estava a ver, ouvir e sentir.

Sou, como uma boa parte da população lisboeta, neta e bisneta de gentes com raízes rurais. Eram-no - são ainda! - uma boa parte dos intelectuais, políticos e empresários deste país. Talvez por isso seja ainda mais dificil para mim compreender o total autismo que temos tido ao longo de décadas sobre a realidade - erros e negligências grosseiras múltiplas - que nos trouxeram até aqui. O desfecho está à vista e é quase insuportável pensar que podia ter sido pior.

Sou apartidária e não tenho exclusividade religiosa. O que me move, sempre moveu, são as causas. Foi aliás isso que me levou para o Direito, de onde saí logo que percebi que nos tribunais só há processos.

De Domingo para cá a gestão de emoções foi complicada. Entre o amor que tenho à "terra", o conhecimento profundo que tenho da zona centro, das suas gentes e das suas caracteristicas, a preocupação com a ansiedade que tantos amigos viveram sem saberem dos seus, a tristeza de ver há décadas o património natural deste país ser destruído sem responsabilizações e intervenções de fundo e o ceifar de vidas humanas e animais, juntamente com alguma da parca riqueza amealhada em pequenas empresas e habitações, foi devastador para mim. Pior, depois de um Junho que toda a razoabilidade devia ter tornado irrepetível durante décadas!...

Ontem, pela primeira vez na vida, fiz-me presente numa concentração coletiva. Era-me rigorosamente indiferente quem a tinha promovido. A minha presença ou ausência seria sempre um ato de consciência absolutamente individidual. Mesmo assim, debati-me muitas horas com a decisão de ir ou não ir.

Juntei-me a meia dúzia de gatos pingados, na verdadeira acepção de termo. Éramos poucos e chovia muito.

Importa-me muito pouco, para ser honesta, fazer juízos de valor sobre o que seja, nesta questão. Quem estava, por que estava é-me indiferente. Assim como quem não esteve e por que não esteve. Não gritei palavras de ordem, não pedi a demissão de ninguém e não entoei sequer o hino nacional. O que é exatamente o que faço quando vou assistir a uma missa. Para mim o silêncio é uma forma de oração e um meio privilegiado de comunicação.

Mas sei muito bem por que é que ontem estive em frente do Palácio de Belém. Assim como sei que a politica e os políticos seriam os últimos a mobilizar-me para tal.

Fui para honrar as minha raízes. Fui em nome do meu avô materno que fez este e tantos outros retratos e de quem ganhei a paixão pela fotografia. Fui por ele, que sabia o nome de todas as árvores e de todos os pássaros. Que como tantos outros da sua geração - a maioria! - migrou para Lisboa para poder ter e proporcionar o que na sua aldeia nunca poderia, mas que nunca a esqueceu e sempre a amou.

Fui pelas populações envelhecidas e pelas aldeias desertificadas que conheço tão bem.

Fui pelos amigos que ainda lá têm os seus, que ainda lá têm terras, que ainda sofrem por uma parte do território que Lisboa definitivamente esqueceu e que há muito entregou à sua humilde e ainda analfabeta sorte.

Fui pelo profundo sentimento de impotência e pela enorme frustração de viver num país totalmente alheado da importância vital do seu património natural, para todos nós!

Fui porque este retrato, passados que estão cerca de 60 anos, mudou em muito pouco ou quase nada sobre o que espelha das nossas populações rurais. Basta ver as imagens que nos entraram pela casa, nas últimas horas. Mas há cerca de 60 anos - há 40 ainda! - as aldeias estavam cheias de crianças, a escola estava na Vila ao lado da aldeia, os campos eram lavrados e cultivados para sustento das famílias e abastecimento de mercados locais e as matas limpas para rentabilizar ao máximo tudo o que delas provinha. Havia industria e emprego para fixar à terra quem dali não queria sair. Resta perceber por que é que tudo isso hoje parece impossível, quando não é!
Foi para isso que fizemos tantas estradas, não foi?...

1 comentário:

  1. Que texto tão bem escrito Margarida. Subscrevo cada palavra.
    Também nem queria acreditar quando foram surgindo as primeiras notícias destes acontecimentos tão trágicos, ainda para mais quando há tão pouco tempo tinha acontecido o impensável...
    Nos últimos anos, eu e a minha família, quase sempre procuramos um sítio na zona centro para uns dias de férias. Além das praias fluviais e daquelas serras a perder de vista, são as aldeias e as suas gentes que nos fazem querer voltar uma e outra vez. Mas a verdade é que é inevitável ver e comentar com quem está connosco que de facto a população do interior está a envelhecer a olhos vistos, que há cada vez mais estabelecimentos comerciais fechados, que vilas lindas e com tanto potencial estão a ficar desertas. Fecham os Bancos, os CTT, as escolas, centros de saúde ...e é tão triste...
    E agora?O que vão fazer os que nunca viraram as costas à terra? Os que lutaram uma vida pela sua casinha e pelo seu pedaço de chão? Ficaram sem nada! Sem casa, sem terra, sem animais... E agora?...
    Beijinhos querida Margarida

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