3.11.14

Panos quentes

É difícil. Não é fácil que as palavras saiam macias, envolvidas em algodão, embrulhadas em papel de seda. Às vezes, há vezes, em que as únicas palavras possíveis são duras, ásperas, têm a rugosidade de que somos feitos por baixo da pele. Talvez fosse sempre tudo mais bonito, mais suave, mais leve se houvesse palavras feitas de balões de soro que anestesiassem os sentimentos que as constroem. Mas quando por debaixo há carne, e sangue, e memória, e quando não nos empurramos com a barriga, nem nos varremos para debaixo do tapete, há palavras que mesmo sem querer por vezes levantam pó. E por mais absurdo que pareça, é às pessoas mais importantes, àquelas que temos e queremos mais próximas, que mais sentido faz chamar os burros pelos nomes. Em nome do respeito que nos temos e que lhes temos é por elas que vale sempre a pena pegar os touros pelos cornos. Sem a coragem da transparência nenhuma relação é genuína. É só um lugar de meias tintas. E um amontoado de panos quentes.

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