22.2.13

Gratidão

Ao contrário do que muitos analistas referem e do tanto que por aí se escreve, considero que tudo aquilo que atravessamos na atualidade não é fruto de uma conjuntura. As dificuldades que o mundo atravessa em larga escala por estes tempos são fruto daquilo que, em outras fases de turbulência relatadas pelos anais da história, ficaram registadas como alterações de estrutura. Mudanças radicais de paradigmas, dos padrões de fundo, que refundam a realidade como a conhecemos até então.

Como bem sabemos, desde que o mundo é mundo, a vida da humanidade tem-se regido por ciclos. Cada ciclo formado por diversas conjunturas que, somadas, no meio de tantos fluxos e refluxos, acabam com o tempo por conduzir a novas estruturas. No meio, hoje, como sempre, anda o ser humano - seu principal autor e ator - em movimentos centrífugos. Uns mais ténues, de que mal nos damos conta e outros, como estes, em que não há como ignorar que tudo anda à roda e que dificilmente deixam pedra sobre pedra. 
Paralelamente, desde que o mundo é mundo que a luta pela sobrevivência é o que dita a permanência das espécies. Resistir e adaptar são os verbos. A chaves, o cerne, as palavras de ordem. E quanto factos não há argumentos. Só quem se adaptou à época glaciar, às secas, aos dilúvios; só quem resistiu à fome, à peste, à guerra, aos terramotos, aos tufões, furacões e vulcões, ficou para contar a história e deu lugar aos que a continuaram por todos nós. Apesar de tudo, e do tanto que já sabemos - ou devíamos saber - teimamos em ignorar os sinais mais óbvios e claros desta verdade. E filhos que somos, nas sociedades atuais, de todos os confortos, facilidades e verdades instaladas, parecemos não encontrar outro caminho que não seja o da indignação, da revolta e da rejeição. E é pena, digo eu, porque a Vida continuará como sempre continuou o seu curso, não por lhe ser indiferente o nosso bem estar momentâneo, mas porque nos projeta, como sempre projetou, a longo prazo. E ela, a Vida, não fará desvio nenhum. O resultado final será então o mesmo, mas com tanta resistência e falta de capacidade de adaptação todo o processo será mais moroso. E mais doloroso, para muitos, certamente, como aliás se comprova por estes tempos em tantas e tristes notícias.

Nenhuma reestruturação se faz sem abalo das estruturas anteriores. Nenhuma reconstrução se faz sem ocorrer uma destruição. Demolir ou descontruir são absolutamente indispensáveis a tudo o que tem de começar de novo. Basta que pensemos e analisemos esta realidade numa perpespetiva micro, seja de uma empresa, de uma família, de um local após uma catástrofe, para percebermos as implicações diretas numa escala macro. Nem uma gaveta se arruma e organiza de não a despojarmos e despejarmos do conteúdo que se sobrepõe e atrapalha em generosa desorganização. E a verdade é que caricatamente o Mundo, este Mundo, é pouco mais do que uma gigantesca gaveta. Um espaço que temos de otimizar e manter saudavelmente organizado, sob pena de exceder a capacidade de se perceber e encontrar seja o que for.

Estejamos dispostos a fazer parte do problema ou parte da solução, de ser o grão triturado pela engrenagem já ninguém nos safa. Desta vez, na antecâmara de um novo ciclo, de uma nova era, de uma nova estrutura, tocou-nos a nós o trabalho de parto. E por muito que nos doa e nos contrarie, o Mundo chegou sempre onde chegou sem epidural. Somos todos muito evoluídos? Temos todos muita tecnologia? Damos tudo por garantido? Somos detentores de muita informação? Desta vez devia ser diferente?... Pois, temos pena. Garantidamente, nenhuma evolução sustentada e sustentável se faz a balões de soro ou de oxigénio. É isso que a realidade nua e crua comprova, seja na politica, na banca, na economia, nas famílias, nas religiões, nos valores que seguimos e vivemos e vemos falir e ruir todos os dias, ainda que atónitos.

Sejamos ou não visionários, crentes, disponíveis para aceitar as pequenas ou grandes mudanças da vida, é incontornável que nos abeiramos do nascimento de uma nova era. Somos simultaneamente atores principais e espetadores na primeira fila. Que nem todos estamos - muito poucos estamos, na verdade - preparados para este filme, confirma-se. Mas atingir a meta deste novo caminho, podendo ser atrasado pelos nossos passos, não deixará, como nunca antes deixou, de acontecer. E se aceitar é um verbo humilde, Agradecer é um verbo inteligente. 

Depois de tantos caminhos percorridos pela Humanidade, após todos os que para trás sucumbiram para chegarmos ao ponto em que nos encontramos, continuamos cegos pela insaciedade do bem estar manipulado. Entretanto, apesar de todas as mensagens subliminares e diretas com que nos cruzamos, passamos ao lado, indiferentes ou simplesmente alheados, de tudo o que é verdadeiramente essencial.

Não é preciso acreditar nas profecias Maias, nem nas teorias apocalipticas das Testemunhas de Jeová, nem em quaisquer profetas da desgraça, para enquadrar o que nos entra pelos olhos. O mundo pede-nos que voltemos às origens. Não necessariamente que moremos em cavernas, que nos tornemos recoletores ou caçadores, mas que reencontremos a nossa essência e o nosso papel, neste grande teatro de operações que é o Todo. 
Num mundo onde, apesar de todas as contingências e restrições, a sobrevivência física é cada vez mais garantida, a nova prova de fogo é a sobrevivência psicológica e emocional. E porque essa ficou refém e dependente de um bem-estar artificial, é essa que de uma forma clara e até brutal a Vida nos pede que reaquacionemos. Sermos gratos por tudo o que temos, em lugar de nos focarmos no que julgamos que nos faz falta, é o primeiro passo e o fundamental.

Admitindo que tudo o que possa ter dito seja um cliché, um conjunto de palavras feitas para muitos, para mim é não só claro como água como uma incontornável postura de vida. O único caminho possível no legado que desejo, antes de mais e egoísticamente acima de tudo, para a minha filha.
Porque o Futuro merece o melhor, teremos de ser capazes de reiventar a Felicidade. A principal via para o conseguirmos é a da Gratidão.





*e porque gostaria muito de saber o que pensam sobre esta questão, os comentários ficam abertos à liberdade de expressão :)

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