5.1.17

No mundo encantado da Ilustração | Elsa Beskow { 1/12 }

Desde criança que o mundo da ilustração infantil me apaixona. Estimulada pela cor, pela harmonia e por todos os detalhes que muitas das ilustrações dos meus livros de infância me ofereciam, era capaz de passar horas a contemplar as imagens que, muito para além da história que se contava nas palavras, me ofereciam todo um banquete para a vista.

Toda esta atividade lúdica agradeço ao estímulo da minha mãe, que sempre procurou nas livrarias o melhor que neste campo era possível oferecer, mesmo quando em Portugal a oferta nesta área era tão diminuta.

Com o passar dos anos, a paixão manteve-se. Nas minha incursões à Feira do Livro de Lisboa muitas das compras recaíram ao longo do tempo sobre esta categoria de livros. Verdadeiras obras de arte, muitas delas com prémios internacionais. 

Há muito que gostava de ter dedicado tempo a uma rubrica sobre este tema, aqui no blog. Se há veículo privilegiado para esta partilha é sem duvida este. E tenho a certeza que reúne em torno de si muitos fãs. É por todos os apaixonados por este mundo que a faço também.

Não posso dizer que tenha sido muito difícil escolher o primeiro ilustrador para o primeiro post, de entre as dezenas que me encantam, dos mais clássicos aos mais contemporâneos

Elsa Beskow é sem dúvida uma das minhas ilustradoras preferidas, por toda a sua conexão e sensibilidade à natureza e à infância.

As ilustrações que se seguem são apenas um pequeno apontamento do gigantesco património que nos deixou ao longo dos seus anos de atividade. 

A sazonalidade, outro tema que me é tão querido e importante, está bem patente nesta mostra. 

Depois destas deliciosas imagens, conto-vos um bocadinho da sua história, pesquisada um pouco por todo o lado, com a preciosa ajuda desse grande gigante amigo, chamado google.


































Elsa Beskow nasceu em Estocolmo a 11 de Fevereiro de 1874. Autora e ilustradora sueca de renome mundial, ficou conhecida pelas suas ternas histórias de crianças contadas em livros ilustrados. O seu extraordinário talento e a sua sensibilidade artística, caracterizada por uma magistral atenção aos detalhes, renderam-lhe mesmo o epíteto de a  Beatrix Potter da Escandinávia. 

Temperando a realidade da natureza com os contos de fadas, Elsa Beskow aliava a sua intenção de educar à sua capacidade de ver o mundo pelos olhos das crianças. Muitos dos seus contos relatam aventuras idílicas passadas na Natureza e acontecimentos místicos com duendes e outras figuras imaginárias. As crianças são apresentadas como seres bondosos, ordeiros e corajosos. 

Filha de um descendente de Noruegueses e de uma Sueca, Elsa Beskow foi criada numa casa liberal e ensinada a defender as suas convicções. Muitos dos valores que lhe foram incutidos acabaram por ser expressos nos livros ilustrados que concebeu para os seus filhos. No seu livro "The flower festival", escrito em 1914, a autora proclamava a liberdade de expressão para todos. Alguns dizem que a Sra. Chestnut, protagonista da história, é retratada como grávida, no seu vestido solto - uma coisa demasiado ousada para fazer numa época em que se considerava que as mulheres grávidas deviam ser mantidas atrás das portas fechadas e fora do alcance da vista, num certo recato.

Em 1892, aos dezoito anos, Elsa Beskow prosseguiu os seus estudos na Academia Real Sueca de Artes em Estocolmo, onde aprendeu o que mais a apaixonava - o desenho. 
As suas ilustrações e histórias foram publicadas pela primeira vez em 1894, na revista infantil muito popular, Jultomten (Pai Natal), e o seu livro de estreia, "The Tale of the Little, Little Old Woman" foi lançado em 1897. 

Foi nesse mesmo ano que, na Universidade, Elsa conheceu Nathaniel Beskow, com quem viria a casar em 1897. Elsa era na época um modelo para pinturas de Nathaniel, mas após o casamento este mudou o seu rumo, deixou a arte para trás e retornou os estudos de teologia que tinha interrompido. Foi diretor da escola onde Elsa também lecionava, escritor, pregador, pacifista e ativista social. Publicou coleções de sermões e fez contribuições significativas como um escritor de hinos. Enquanto ativistas, Elsa Beskow e o marido apoiaram e estiveram diretamente envolvidos na campanha das sufragistas suecas. 

Entre os anos 1899 e 1914, Elsa e Nathaniel Beskow tiveram seis filhos. Elsa Beskow apoiou a sua crescente família com a sua escrita e retratou a sua vida como "Todos os anos outro livro e todos os anos outro menino". A arte, a literatura e a música eram muito importantes na casa Beskow.

A projeção internacional de Elsa Beskow aconteceu no virar do século, em 1901, com "Peter in Blueberry Land", o seu primeiro livro a ser traduzido. A partir de então, os seus livros ilustrados tornaram-se extremamente populares e foram traduzidos em quinze idiomas. Árabe, dinamarquês, holandês, inglês, feroês, finlandês, francês, alemão, islandês, japonês, coreano, norueguês, polonês, russo e espanhol.

Sem sombra de dúvida, os seus filhos e a natureza foram a sua maior inspiração. Os filhos transformaram-se em modelos para as crianças que retratava nos seus livros e para cada um foi criada uma história e um livro.

A família Beskow vivia numa antiga mansão de madeira na periferia de Estocolmo, cercada por um enorme e selvagem jardim. Era aí que a autora se costumava sentar para desenhar e deixar as maravilhosas flores, plantas e insetos  funcionar como inspiração, combinando a realidade com os contos de fadas. Animais, crianças, bagas, flores e duendes ganharam vida ao longo de décadas, nas suas coloridas e detalhadas  aguarelas de matizes claros. Todo um mundo encantado, emergido de jardins secretos e florestas mágicas.

Apesar de tudo, a vida da autora nem sempre foi idílica. Em 1922, o seu filho mais novo morreu com sete anos num trágico acidente enquanto patinava.

Já o seu filho Gunnar Beskow foi um aclamado geólogo, autor, poeta e personalidade cultural, autor de um trabalho inovador na Suécia, ainda hoje relevante nas questões ambientais e ecológicas do país, tendo ainda sido presidente da Associação de Autores Suecos 1948-1950.

Outro dos seus filhos, Bo Viktor Beskow estudou na Royal Academy of Art em Estocolmo, Paris e em Roma.Versátil na sua arte, imortalizou-se na pintura a fresco, na pintura mural, em vitrais de igrejas ao redor da Suécia e em pinturas de retratos, bem como em murais na sede da ONU, em Nova York.

A 30 de Junho de 1953, Elsa Beskow morreu vítima de cancro aos 79 anos. Quatro meses depois, em 8 de Outubro, o seu marido, Nathaniel Beskow morreu também.

A notável e vastíssima obra de Elsa Beskow merece ainda hoje e, talvez com razão acrescida, cada vez mais a nossa admiração.
Com mais de quarenta livros publicados e  ilustração de canções e de livros de abecedário para as escolas suecas, a artista era uma verdadeira visionária para a sua época. 

A consciência que a vida do planeta Terra cada vez mais nos solicita, o apelo para estarmos cada vez mais atentos e envolvidos com o meio ambiente que nos rodeia, eram já bem visíveis na sua obra. Ainda que para Elsa não fosse possível antever a relevância e urgência que a sua mensagem, de amor e respeito pela Mãe-Natureza e de criação de autonomia e responsabilidade pela criança, viria a ter dois séculos depois, vale a pena escutarmos com atenção o que as entrelinhas do seu mundo imaginário nos ensinou de tão magnífico e importante.

Reensinemos as crianças de hoje a ficar mais perto do essencial.


2 comentários:

  1. Assim que comecei a deslizar pelas ilustrações, vieram-me à memória os livros da 1ª classe, actua 1º ano do ensino básico... A escola ajudava muito na ligação que se tinha com este género de ilustrações nos livros que escolhia para os alunos. Não sei se isso acontece com os livros que se utilizam nas escolas. E não sei até que ponto os pais estão sensibilizados para as lições que fazem fazer através da leitura e da observação das ilustrações das histórias. Eu leio imenso e se há presente que goste de oferecer, são livros, mas eu não tenho filhos e das duas sobrinhas e sobrinho que tenho, nenhum tem o mesmo gosto que eu. Embora o sobrinho tenha 6 anos e quando desembrulha um livro para ler, pintar ou colar e uns lápis ou canetas para pintar, já diz "esta prenda é da tia Anita!". Pode não ser a prenda a que ele mais liga na noite de Natal, mas é a que mais usa ao longo do ano ☺ talvez ainda haja esperança para ele ☺eu vou continuar a fazer a minha parte.
    O nosso imaginário era tão preenchido por estes seres mágicos (duendes, fadas, flores que eram meninos e meninas) e pela vida rural... era tudo tão mais bonito ♥ ou melhor, haviam menos coisas, mas acho que eram melhor direccionadas...Hoje há uma quantidade enorme de autores e os miúdos quase não se interessam por meia dúzia deles...
    Bom, já me alonguei no testamento e o que queria dizer era tão somente que adorei e agradecer a viagem no tempo que me proporcionou ☺♥ beijinho*

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  2. Gostei tantoooooo ♥♥♥
    Obrigada Margarida por esta viagem ao mundo da doçura e da inocência!!!
    Um grande beijinho
    Cristina

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