29.7.12

A confissão


Talvez por ser há muitos anos uma fã incondicional da escrita de Mia Couto tenha estranhado o que senti, do principio ao fim do seu último livro. 
Mia Couto não é consensual. É um pouco na linha dos escritores que se gosta ou se odeia. O que sempre mais me atraiu e prendeu na sua escrita foi a sua inesgotável capacidade de reinventar o léxico, recriando a palavra nos tons e sons de uma África que sendo tão sua, se tornou, sem qualquer raíz que a ela me prendesse, facilmente minha. Reconheci, contudo, que a dado momento seria necessário fazer uma viragem. Sempre que lia mais um dos seus livros necessitava de um tempo de pousio. Tanta reinvenção começava a tornar-se pesada. Essa viragem fez-se notar com grande evidência n ´O outro pé da sereia. Apesar de tudo, e de um claro limar de arestas, África em toda a sua pujança continuava lá, inteira e pura. E eu continuei, rendida e apaixonada.
Confesso que não li o conceituado Jerusalém [o do Mia Couto, que também há o do Gonçalo M. Tavares] e talvez por isso me faltem coordenadas para esta passagem que senti tão brusca, mas a verdade é que pela primeira vez percorri África sem vestígio de alma, sequer nas entrelinhas. 
À exceção de alguma passagens, a confissão da leoa tem uma escrita distraída, desapaixonada e, atrevo-me a dizer, descomprometida com algo que não seja o cumprimento de uma métrica, de um numero de caracteres e, quiçá, os timings comerciais da editora. Soou-me a pressa. Páginas com demasiados artifícios físicos para render volume encadernável. Palavras repetidas revelando, no limite, uma revisão de texto inexplicavelmente descuidada.
Sabendo que a vida muda e nos muda em boa parte a forma de a sentir e ler, dou o benefício da dúvida e penso que pode ser de mim. Valerá então a pena resgatar à estante um daqueles por que me apaixonei para perceber afinal, o problema é meu ou dele.

Mas nas férias, outras companhias bem diferentes vão fazer parte da bagagem.

7 comentários:

  1. Anónimo29.7.12

    "Jesusalém", de Mia Couto

    Era só...parecendo que não, faz diferença!!

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  2. Eu gosto muito de Mia COuto mas, esse ainda não li.
    Bj** e feliz semana*

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  3. Anónimo(a),
    Muito obrigada pela referência. Tem toda a razão. Existe também o de Gonçalo M. Tavares. Está corrigido, no texto.

    Tanita, espero não te influenciar. Qd leres, vem cá contar!

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  4. Concordo contigo, Mia Couto não é, de todo, consensual. Pessoalmente, adoro-o. Adoro a sua escrita peculiar e a brincadeira constante que faz com as palavras. Ainda não li este novo livro dele, está na lista de próximos livros para comprar. Espero, neste caso, não partilhar da mesma opinião do que tu :p

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  5. Também li o livro, e confesso que me faltou o prazer que costumo sentir ao ler o autor. Costumo dizer que Mia Couto recria a língua com uma mestria prazerosa que me leva a que me perca na forma da escrita e tenha que recuar para assimilar o conteúdo. Desta vez, salvo um ou outro nome das personagens, não encontrei marcas desse "miacoutês".Também pensei que fosse culpa minha. Mas começo a pensar que talvez não...

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  6. @(en)Canto, espero que não. Se te lembrares, depois passa por cá para deixar a opinião. Obrigada!

    @Paula... já sendo duas e com historial de encantamento anterior... pois, parece que começa a ganhar consistência. Muito obrigada pela partilha!

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  7. Eu é que agradeço! E parabéns pelo blogue! Gosto muito de pass(e)ar por aqui! :)

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